Tribuna do Leitor

Réquiem ao velho jorjão


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Quando se consegue sobreviver até a idade do abandono e da sua insuficiência, você deve ter a digna compostura de deixar de lado sua antiga existência benévola, hoje ineficaz. Você se torna diante das vontades do mundo evolutivo, competitivo, mero contemplador das coisas que fluem sem a sua nobreza e seu máximo poder que no verdor dos seus amorosos dias, agitavam seu ânimo revolucionário. Ao seu redor, observa sua decrepitude, o séquito noviço de gananciosos herdeiros. Você é o velho que atravessa a rua que permeia a sua antiga utopia e sua presente realidade. Nada mais tem urgência e substância. Seus filhos fazem com que você perca o valor antes vigoroso dos seus netos. Você é a foto amarelecida no álbum do ontem. Tinha em mim quando criança, os bigodes dos meus avós, pregados em meu rosto imberbe. Não eram símbolos de arrogância, mas de uma severidade constante e observadora. Percebia neles o ânimo de me transmitirem sabedoria, cultura, descendência digna.

Foi-se o tempo, foi-se o sentido das coisas na exatidão do seu tempo. Você teve sessenta e nove anos. Você teve sua fé nos humanos. Mal sabia os descaminhos do seu amanhã. A meu modo, precocemente envelhecido, não me basta mais nada. Não me quero passageiro do acontecer que me leve a futuras emoções. Somos eu e você, velho e carinhoso Jorjão, passageiros do não sei onde, em busca da mais serena estação das nossas impossibilidades. Você voltou ao lugar do desconhecido. Nos veremos lá. Cada um ao seu modo. Cada um do seu jeito. Feliz dia dos pais, iguais aos do velho Jorge que conheci, e falecido há poucos dias, desconhecido pelos seus pares, numa destas casas de repouso qualquer. Como ele me disse certa vez, "envelheçamos com naturalidade. Velhos sim! Velhacos nunca!".

Odair Castilho

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