Um ex-coveiro que se viciou em crack confessou ter violado pelo menos seis jazigos do Cemitério da Saudade no início do mês, em Bauru. Identificado pela Polícia Civil, Kléber Aparecido Leme, 33 anos, se apresentou ontem e revelou que invadiu a necrópole para furtar dentes de ouro e trocá-los por pedras da droga.
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Malavolta Jr. |
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Kléber Aparecido Leme, 33 anos: "Foi um momento de loucura" |
“Subi em uma árvore e pulei o muro. Fiz tudo sozinho. Foi um momento de loucura”, conta ele, que compareceu ao 3º Distrito Policial acompanhado da mãe, Tereza Gomes, 71 anos. Kléber diz que estava em crise de abstinência e trocou as três coroas de ouro - que podem custar de R$ 600,00 a R$ 800,00 - por três pedras que, no mercado, não ultrapassam o valor de R$ 10,00.
Apesar de ter confessado o arrombamento de apenas seis sepulturas, a polícia acredita que ele tenha violado todos os 22 jazigos que foram encontrados danificados no último dia 4. Por ser réu primário, ter residência fixa e emprego, o acusado responderá a inquérito em liberdade.
Com a voz tranquila e sem apresentar grandes contradições em seu depoimento, Kléber contou que tomou um ônibus até o Cemitério da Saudade e passou algumas horas rondando a área. A movimentação foi gravada por câmeras de monitoramento de estabelecimentos comerciais do entorno, o que ajudou a polícia a identificá-lo posteriormente.
O acusado já havia trabalhado como coveiro no Cemitério da Saudade e invadiu a necrópole pela rua Monteiro Lobato, no ponto onde o muro é baixo do lado de dentro. Ele teria subido em uma árvore de copa frondosa e, apoiando-se nos galhos, invadiu a necrópole sem tocar a cerca de concertina.
Todas as sepulturas escolhidas pertencem a famílias tradicionais da cidade. Segundo o delegado interino do 3º DP, Paulo Calil, Kléber teria tentado encontrar dentes de ouro em pessoas que tinham boas condições financeiras. Em apenas uma delas, no entanto, teria encontrado os três dentes que foram furtados.
“Ele sabia quais famílias contratavam funcionários para realizar serviços de limpeza nos jazigos. Sabia que eram famílias ricas e, por isso, as chances de encontrar dentes de ouro era maior”, frisa.
Habilidade
O modo como as sepulturas foram violadas também chamou a atenção da polícia durante as investigações. Além da profundidade das galerias arrombadas - de até três metros, o que exige habilidade para a descida -, todos os buracos feitos nas paredes internas dos jazigos eram exatamente no local onde estavam posicionados os crânios.
“Este detalhe nos levou a acreditar que fosse alguém que conhecia a técnica utilizada para os sepultamentos”, comenta Paulo André, gerente de necrópole e funerária da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb). Ele revela que as paredes internas que guardam os caixões são feitas de uma mistura de barro, cal e cimento e podem ser facilmente derrubadas com uma pancada de mão.
“Elas são feitas desta maneira de propósito, para facilitar a retirada em caso de sepultamento de outros familiares. E, pelo que percebemos, foi desta forma que foram violadas durante o furto”, acrescenta.
Durante as investigações, a polícia chegou a cogitar a hipótese de que o crime pudesse ter sido cometido por uma quadrilha especializada em furtar cemitérios em busca de peças de ouro. Mas, na última segunda-feira, Kléber foi identificado como o único autor dos arrombamentos.
Intimado, ele se apresentou ontem à polícia e confessou o crime. Acusado de violação de sepultura, furto e subtração de parte de cadáver, ele responderá a inquérito em liberdade por ser réu primário, ter emprego e residência fixa. Até o julgamento do caso, Kléber fica proibido de frequentar cemitérios e terá de permanecer em casa das 22h às 6h.
Identificação
O modo como os jazigos foram violados levou a Polícia Civil a acreditar que o criminoso tinha conhecimento das técnicas de sepultamento. De posse das imagens captadas por câmeras de estabelecimentos comerciais instalados no entorno do cemitério, foi possível chegar ao autor dos furtos.
“Também conversamos com a vizinhança e, depois de identificar algumas características físicas, começamos a investigar se uma pessoa parecida com ele já havia trabalhado nos cemitérios de Bauru”, comenta Paulo Calil, delegado interino do 3º DP.
Kléber Aparecido Leme havia atuado como coveiro no Cemitério da Saudade em 2011, contratado por uma empresa terceirizada. Depois de cinco meses, a prefeitura realizou concurso público para contratação de funcionários próprios e ele deixou de exercer a função.
Em seu cadastro junto à Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), consta que ele não possuía antecedentes criminais, mas os serviços realizados como coveiro teriam sido criticados por seus superiores.
Outro furto
Acusado de ter violado os jazigos do Cemitério da Saudade, Kléber Aparecido Leme também confessou ter arrombado uma sepultura do Cemitério São Benedito, no último domingo. O objetivo seria o mesmo: encontrar dentes de ouro para serem trocados por crack.
De acordo com o acusado, estas teriam sido as únicas duas vezes em que invadiu necrópoles da cidade para furtar. Ele também negou ser o autor dos furtos registrados no último dia 10 no Cemitério Cristo Rei. Ao todo, 29 jazigos foram danificados e alguns objetos de bronze foram levados.
Violência e vício
A escalada da violência estabelece uma relação íntima com o avanço do crack. Em menos de um mês, três casos graves envolvendo o consumo da droga foram registrados em Bauru. No dia 13 de agosto, o usuário de crack Rikesley Vilela de Oliveira, 20 anos, foi morto com um golpe de faca no peito. Dois amigos e sua própria mãe, todos dependentes químicos, eram suspeitos do crime.
Já no dia 6 de setembro, uma adolescente de 16 anos esfaqueou o pai, um pintor de 46 anos, depois de uma briga familiar. A menina relatou a reportagem ser dependente de crack. No dia 10, um homem de 28 anos, também viciado em crack, apoderou-se de um facão e ameaçou funcionários e clientes de um supermercado no Pq. São Geraldo.
Mãe tentava livrar filho do vício voraz da droga
A mãe de Kléber Aparecido Leme, Tereza Gomes, 71 anos, acompanhou o filho até o 3º Distrito Policial (DP) e contou à reportagem do JC que tentava livrar o filho do alcoolismo. Para tanto, mudou-se com ele e o marido, há cerca de um mês, para um sítio em Arealva, onde Kléber trabalhava como auxiliar de serviços gerais.
Surpresa com a notícia de que o filho era usuário de crack e também um criminoso, Tereza o descreveu como uma pessoa de boa índole, mas que enfrentava um momento difícil. Leia trechos da entrevista.
JC - A senhora sabia que ele tinha violado os jazigos do cemitério?
Tereza - Não. Nem imaginava isso. Ele foi intimado ontem (anteontem), mas fiquei sabendo sobre o que tinha acontecido só quando cheguei na delegacia (ontem).
JC - Ele é um filho problemático?
Tereza - Não. Ele não dá trabalho nenhum. É um menino bom, trabalhador. Ele se separou da mulher há pouco tempo e voltou a morar comigo. Fomos eu, ele e meu marido morar num sítio de um advogado, em Arealva.
JC - A senhora também não sabia que ele era usuário de crack?
Tereza - Não. Ele esteve internado por 15 dias no Hospital Manoel de Abreu causa de bebida. Depois disso, ficou uma semana bem e voltou a beber de novo.
JC - E o que a senhora fez?
Tereza - Eu e meu marido resolvemos levá-lo para trabalhar no sítio, para ver se ajudava na recuperação. Faz um mês que estamos lá e ele não bebeu mais. A gente achou que ele estava bem. Aí veio essa notícia. Foi uma surpresa muito triste saber que ele se envolveu nessa história porque está viciado em drogas.