Tribuna do Leitor

Nós não queremos só asfalto!


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A atual administração municipal tem calcado seus esforços sobremaneira na pavimentação da cidade. Assim, vai-se traçando as serpentes de pixe pela urbe e a sensação de "desenvolvimento" que a urbanização oferece acomoda os ânimos e proporciona certa impressão de "inclusão" aos moradores de áreas menos favorecidas, sem contudo discutir que tipo de desenvolvimento se empreende, a qual custo, e para favorecer qual camada da população. Vivo em um bairro muito curioso de Bauru, o estigmatizado Parque das Nações.

Dividido ao meio pela Avenida José Vicente Aiello, o bairro é um quadrilátero circundado por condomínios de luxo em duas de suas laterais, por uma enorme favela ao fundo do vale do Córrego da Ressaca, e por uma área aberta e desmatada, em sua parte mais alta. Essa composição tem a cara do Brasil: miséria extrema e opulência comprimem a classe trabalhadora que, a despeito dos riscos sempre iminentes que esses contrastes carregam, segue sua labuta diária em busca de viver com um mínimo de dignidade.

Os problemas sociais de nosso bairro são muitos - aqueles de sempre, em zona de vulnerabilidade: analfabetismo, desagregação familiar, violência, falta de capacitação para o trabalho, alcoolismo, drogas, gravidez precoce, marginalidade, etc - e, portanto, gostaria de saber se a Secretaria do Bem Estar Social tem colhido dados, a partir de metodologias embasadas em rigor científico, para dimensionar tais problemas e quais são as proposições para erradicá-los. Escuta-se por aqui que em breve haverá o cadastramento das famílias, dando início ao processo de desfavelização.

Qual a previsão para o início desses trabalhos? Para onde essas famílias serão removidas? Quais os aparelhos públicos disponíveis para acolhê-los, na nova área? Será que a Secretaria do Planejamento pode nos responder a esses questionamentos?

Além dos problemas de ordem social que mencionamos, temos problemas ambientais dos quais apenas intuímos sua dimensão, mas que gostaríamos muito de ter acesso a conhecimentos específicos que promovessem o nosso entendimento da questão, para que, junto com o poder público, pudéssemos operar como agentes ativos na construção das soluções. Sendo assim, pergunto à Secretaria do Meio Ambiente: após a conclusão da pavimentação, quais os riscos aos quais estaremos expostos, na região do Córrego da Ressaca? Quais os projetos da atual administração em relação ao meio ambiente, nessa área?

Além dessas dúvidas, uma outra questão, da ordem da saúde pública, é gritante no bairro: a região ao longo da via férrea junto ao Jardim América, além de apresentar enorme acúmulo de lixo, tem se prestado a ser ponto de "desova" de crias de animais domésticos, sem que os filhotinhos tenham sequer aberto os olhos! Indivíduos de todas as classes sociais adotam essa prática, por onde se concluí que a população desconhece que maus tratos e abandono de animais é crime. A superpopulação de animais domésticos abandonados, doentes e mal tratados em toda Bauru salta aos olhos e a população ignora os riscos a que todos estamos expostos: a úlcera de Bauru, ou leishmaniose, é endêmica na região e não vemos qualquer esforço para esclarecer a população acerca da posse responsável de animais de estimação. As campanhas de vacinação de animais se restringem à prevenção da raiva mas, para que lhes asseguremos a saúde de forma integral, é preciso prevenir a cinomose, a parvovirose e uma série de outras zoonoses.

Sobre esse problema, especificamente, vale lembrar que, recentemente, a organização Bem-Estar Animal envolveu duas entidades protetoras, a União Internacional Protetora dos Animais (UIPA) e a Mountarat, no intuito de promover um mutirão de castrações para amenizar o problema da superpopulação. Com recursos próprios para custear as cirurgias, solicitaram à Prefeitura apenas a divulgação da campanha e a cessão do espaço para que uma sala de cirurgia fosse instalada no Distrito de Tibiriçá, onde também é grande o número de animais em situação de risco. Entretanto, a divulgação foi nula e a campanha não conseguiu atingir sua meta, que era atender 300 animais, conseguindo fazer a castração de apenas 17.

Sendo assim, gostaríamos de perguntar ao Sr. Prefeito Rodrigo Agostinho se ele se sente satisfeito com o cumprimento do primeiro compromisso assumido pelo seu Plano de Governo, em 2008. Tal compromisso estabelecia: "A proposta de governo defendida por todos os membros da Coligação Bauru de Todos, tem como princípios: a gestão participativa, a transparência e a construção de um modelo de administração dedicado às pessoas."? Cuidar dos animais não é também cuidar das pessoas? Ou de que tipo de ambientalismo falamos um dia em Bauru? Isso posto, gostaríamos de dizer que não queremos só asfalto! Queremos avanços sociais, proteção ao meio ambiente de forma sistêmica, saúde de qualidade e também, gestão participativa e transparência, como nos foi prometido!

Marta Vieira Caputo - coordenadora do Fórum Empresarial de Responsabilidade Social e Sustentabilidade de Bauru

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