Rio - Os gastos das famílias brasileiras com compra de remédios, serviços médicos e bens duráveis, como carros e eletrodomésticos, aumentaram, mas diminuíram com alimentação, educação e cultura, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada ontem (veja quadro).
O levantamento, feito com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) de 2008-2009, revelou que os gastos familiares para a compra de carros, por exemplo, consumiam 6,9% do orçamento da casa, em relação a 5,9% na pesquisa anterior, de 2002-2003.
Com isso, e maior demanda por combustíveis, os gastos com transportes aumentaram entre um levantamento e outro de 15,1 para 16% do orçamento, praticamente o mesmo percentual orçamentário destinado à alimentação (16,1%).
Gastos com outros bens duráveis, os eletrodomésticos, avançaram entre uma pesauisa e outra de 1,9% para 2,1%.
Entre o fim de 2008 e o início de 2009, o governo adotou uma política de redução de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para bens duráveis para enfrentar a crise hipotecária norte-americana do subprime e reativar a economia brasileira. A mesma medida foi adotada este ano para fazer frente à crise global.
Por outro lado, os gastos dos brasileiros com alimentação, cultura e educação encolheram no orçamento familiar. Segundo o IBGE, a fatia destinada à alimentação baixou de 16,9% para 16,1%, à educação de 3,3% para 2,5% e para cultura e recreação de 1,9% para 1,6%.
Com relação à saúde, a POF 2008-2009 mostrou que os brasileiros estão gastando mais. O peso no orçamento familiar subiu de 5,7% para 5,9%, com destaque para a compra de remédios, que avançou de 2,6% para 2,8%, e com o desembolso relativo a planos e seguros de saúde, que passou de 1,5% para 1,7%. “A análise das prioridades dos gastos das famílias aponta para uma possível melhoria nas condições de saúde da população ou para a hipótese de que o atendimento do serviço público tenha sido mais eficiente”, mostrou o levantamento do IBGE.
Pobres gastam mais com remédios; ricos apostam em plano de saúde
Rio - Ainda que os gastos com saúde representem parcela semelhante das despesas de pobres e ricos, os mais pobres gastam mais com remédios e os mais ricos têm despesa maior com plano de saúde, mostram os dados da pesquisa do IBGE.
Do total gasto com saúde, o peso de medicamentos era de 74,2% entre os 40% mais pobres e só de 33,6% para aqueles que estavam no topo da pirâmide - os 10% mais ricos. Já o plano de saúde tinha participação de apenas 7% no orçamento daqueles na base dos rendimentos, contra 42,3% para os mais ricos.
Ao todo, as despesas com saúde representavam 7,2% do orçamento do brasileiro em 2008-2009, pouco acima dos 7% de 2002-2003 e num nível de despesa inferior a gastos com habitação, alimentação e transporte, por exemplo. Em valor, os desembolsos médios com saúde ficaram em R$ 153,81 no País. A cifra no Sudeste chegou a R$ 198,89. No Norte e Nordeste, se situaram em R$ 82,22 e R$ 93,15, respectivamente.
Os dados mostram ainda que os remédios e os planos ganharam participação na “conta-saúde” entre 2002-2003 e 2008-2009, em detrimentos aos hospitais e aos médicos particulares e dentistas.
Segundo o IBGE, o peso dos remédios nas despesas subiu de 44,9% para 48,6% e o dos planos, de 25,9% para 29,8%. Proporcionalmente, a maior perda foi do item consulta e tratamento dentário - de 9,3% em 2002-2003 para 4,7% em 2008-2009.
De acordo com o IBGE, a difusão de planos de saúde e dentários fez cair o peso dos dentistas particulares.
Um terço das famílias mora em ruas sem asfalto, aponta IBGE
Rio - Quase um terço das famílias brasileiras vive em moradias localizadas em ruas não asfaltadas. Segundo os dados da pesquisa do IBGE, 31,1% das famílias estão nessa situação. Além disso, 31,8% das moradias estão perto de “estradas com grande circulação de veículos”.
Foi a primeira vez que a POF, geralmente voltada para o estudo das despesas familiares, analisou informações sobre as características dos domicílios e seu entorno.
A análise também revelou que 7,2% dos domicílios não têm água encanada, 8,9% estão perto de esgoto a céu aberto e 3,2%, nas proximidades de lixões ou depósitos de lixo. Além disso, 10,3% ficam em locais por onde passam fios de alta tensão e 4,7%, perto de ferrovias em uso.
Segundo técnicos do IBGE, a decisão de investigar as condições de moradia vem da demanda por informações sobre qualidade de vida das famílias. “Essas demandas surgem em função de mudanças no desenvolvimento econômico do País”, disse Edilson Nascimento da Silva, gerente da POF, completando que o uso da energia é um tema cada vez mais discutido.
As informações sobre as condições de moradia apontam para os gastos com energia. No total de domicílios com água encanada, 75,3% têm alguma fonte de aquecimento, sendo que a energia elétrica aquece a água em 70,9% das moradias com água encanada.
O aquecimento a gás responde está em apenas 4,2% desses domicílios. O aquecimento solar, menos poluente, é utilizado em 0,6% das moradias, atrás até da lenha, usada em 1,2% dos domicílios com água encanada.
O IBGE destacou ainda as diferenças entre as zonas urbana e rural. No campo, “37,3% dos domicílios com água encanada não tinham aquecimento”, diz o relatório da POF 2008-2009.
Além disso, nas moradias localizadas nas zonas rurais, lenha a carvão são a segunda principal fonte de aquecimento, presente em 5,2% dos domicílios com água encanada.
Coleta de lixo
A POF 2008-2009 também analisou a coleta de lixo, coletado diretamente em 80,7% das moradias - mas ainda queimado ou enterrado em 10,2% dos domicílios. Além disso, em 29,7% dos domicílios o lixo é separado em material biodegradável e reciclável, mas, nas moradias que separam os resíduos, apenas 40% o fazem para atender a coleta seletiva oficial. Ou seja, a maior parte do lixo separado pode não ter a reciclagem como destino.
A coleta seletiva é mais difundida no Sul, onde 59,9% dos domicílios separam o lixo e 55,6% dos que o fazem seguem a coleta seletiva oficial. No Norte, apenas 6,6% das moradias separam o lixo, enquanto no Nordeste, o porcentual é de 11,9%. No Sudeste, a separação do lixo é feita em 36,2% das casas e, no Centro-Oeste, em 12,6%. Outros estudos do IBGE já haviam apontado que está na Região Sul a maioria dos municípios onde as companhias de lixo fazem coleta seletiva.
Mais impostos que educação
Rio - A participação das despesas com educação no gasto total das famílias recuou 24,2% de 2003 a 2009, mostram dados divulgados ontem pelo IBGE. Os custos relacionados à educação responderam por 2,5% das despesas familiares. Na edição 2002/2003 da pesquisa, a fatia era de 3,3%. A participação de 2,5% é inferior aos 4,6% dos gastos que são aplicados no pagamento de impostos.
O recuo foi mais acentuado nas famílias residentes das áreas urbanas, cujos gastos com educação passaram de 3,5%, em 2003, para 2,6%, em 2009, recuo de 25,7% na fatia. Ainda assim, as famílias da zona rural investiram 1,1% de seus gastos em educação, segundo a POF 2008/2009. Em 2003, a fatia era de 1,3%.
De acordo com as diferentes composições, a maior queda das despesas com educação foi vista nas famílias com filhos. Nas famílias cuja pessoa de referência (principal responsável pelo sustento) é mulher sem cônjuge e com filhos, a queda foi de 1,3 ponto porcentual; na organização “casal com filhos e outros parentes”, o recuo foi de 1,0 ponto porcentual; enquanto nas famílias formadas por casal com filhos, a queda foi de 0,8 ponto porcentual, de 3,9% do total de despesas em 2003 para 3,1% em 2009.
Funcionário público tem maior gasto
Rio - Famílias sustentadas por funcionários públicos têm despesa média mensal três vezes e meia maior do que as mantidas por trabalhadores domésticos, revelam dados do IBGE. Segundo a pesquisa 2008-2009, a despesa média mensal das famílias lideradas por funcionários públicos ficou em R$ 4.327,08, contra R$ 1.248,09 no caso das sustentadas por empregados domésticos.
As famílias dos empregados públicos só gastam menos do que as sustentadas por empregadores. “No Brasil, as famílias com as maiores despesas médias foram aquelas com pessoa de referência caracterizada como empregador (R$ 6.373,00), seguidas pelo grupo formado por empregados públicos (R$ 4.327,00)”, diz o relatório do IBGE.
O gasto médio mensal em 2008 e 2009 dos empregadores, de R$ 6.373,62, é 5,1 vezes mais do que as despesas de famílias sustentadas por trabalhadores domésticos. As famílias de funcionários públicos também gastam mais do que as dos empregados do setor privado, cuja despesa mensal ficou em R$ 2.497,14, abaixo da média de R$ 2.732,85 para todas as famílias.
Em termos de padrões de gastos, quem tem renda menor despende relativamente mais com alimentação e habitação.
Despesas por religião
Rio - Os evangélicos continuam gastando o dobro do que os católicos com pensões, mesadas e doações, embora as despesas das famílias com esse item tenha caído no total de gastos, entre 2003 e 2009.
Os dados são da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008-2009 e foram divulgados nesta sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O peso dos gastos com pensões, mesadas e doações no grupo outras despesas correntes passou de 13,4%, em 2003, para 10,6%, em 2009. Nas despesas totais das famílias, esse grupo representa 10,8%. Os gastos com pensões, mesadas e doações são 1,1% do total.
“O primeiro destaque é o item pensões, mesadas e doações, que apresenta porcentuais significativamente maiores nos estratos das famílias com pessoa de referência evangélica de missão”, informa o relatório do IBGE.
Contudo, enquanto os católicos direcionam 1% de suas despesas para doações, nas famílias cuja pessoa de referência (principal responsável pelos gastos no domicílio) se declara evangélica, esse item pesa 2,3% do total. Nos evangélicos pentecostais, o porcentual é 1,6%.