Política

Coletivos são barrados, milhares ficam na rua e sindicato denuncia vereador por uso eleitoral

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 5 min

Éder Azevedo

Milhares de pessoas chegaram atrasadas ao trabalho e reclamaram por não terem sido avisadas da paralisação

O Sindicato dos Trabalhadores do Transporte Público de Bauru e Região (Sindtran) acusa o vereador Roque Ferreira (PT) e o candidato Cláudio da Construção (PT) de terem organizado, com fins eleitorais, a paralisação dos motoristas dos circulares, que teve início no fim da madrugada e só terminou às 7h da manhã de ontem, pegando de surpresa milhares de bauruenses. Tudo isso há menos de um mês do pleito.

A diretoria do sindicato informa que a entidade não tem envolvimento com o movimento e afirma que vinha negociando a principal reivindicação da categoria, motivada por recentes alterações na jornada de trabalho, junto à Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), Associação das Empresas do Transporte Coletivo Urbano de Bauru (Transurb) e no Ministério Público do Trabalho (MPT).

Segundo o sindicato, a categoria estava ciente dessas negociações, publicadas em informativo já distribuído. O Sindtran reconhece que há dissidências em sua diretoria, mas garante que os dois candidatos a vereador tomaram a frente da mobilização, levando funcionários para a porta das empresas. “O motivo é claramente político. Havia, inclusive, pessoas estranhas aos trabalhadores no local. Também houve ameaça a alguns motoristas que queriam entrar”, afirmou o assessor da entidade, Nélio Souza Santos.

Um dos membros da comissão é o vice-presidente da entidade, Valter Dutra Pereira. O sindicalista nega as acusações de abuso e de uso eleitoral do movimento. “Aproximadamente 220 motoristas aderiram [são 640 ao todo]. Tanto o Roque quanto o Cláudio foram chamados pelos trabalhadores para nos apoiar porque ambos são próximos do movimento sindical e os motoristas têm os telefones deles”, conta.

O presidente do Sindtran, José Rodrigues da Silva, diz que o caso deve ser levado à Justiça Eleitoral. Além disso, a situação vai ser repassada à Central Única dos Trabalhadores (CUT). Segundo Dutra, os trabalhadores se sobrepuseram ao sindicato por não reconhecerem mais sua diretoria. “Queremos jornada de 6 horas diárias, além de local adequado para que os motoristas possam fazer suas refeições nos intervalos. Também queremos acabar com a dupla função de motorista e cobrador”, explica.

 

Candidatos

Tanto Roque quanto Cláudio negaram as acusações do Sindtran. O vereador diz que foi convidado a participar do ato como membro da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal. “Sempre estive presente nas demandas sociais e trabalhistas. Estamos em período eleitoral e ele é utilizado para justificar tudo, mas o mundo não para e as coisas continuam acontecendo”, pontuou.

O JC apurou que Cláudio, além de ter sido chamado pela categoria, foi até o local a pedido do prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) para tentar contornar a situação. “Recebi uma ligação dos motoristas às 5h da manhã, mas também conversei com o prefeito a fim de tentar encontrar uma solução o mais rápido possível”.

É preciso lembrar que os dois são filiados ao PT, que apoia a administração municipal. No caso de Cláudio, o caso é ainda mais peculiar, pois, diferentemente do parlamentar, é ligado ao comando da sigla em Bauru.

 

Empresas falam

A Transurb divulgou nota pedindo desculpas à população atingida pela falta de circulares na manhã de ontem e reforçou que a alteração nas jornadas de trabalho cumpre decisão judicial transitada em julgado. A manifestação diz ainda que as empresas Grande Bauru, Baurutrans e Cidade sem Limites adotarão todas as medidas cabíveis para preservação de seus direitos. No entanto, ainda não há posição sobre alguma ação contra os responsáveis pela paralisação sem aviso.

 

O imbróglio

Até agosto de 2012, os motoristas dos circulares cumpriam jornada ininterrupta de 7h20 diárias e recebiam hora extra pelo tempo que excedia as primeiras 6 horas. No entanto, por conta de ação civil pública movida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), a Transurb foi obrigada a conceder pelo menos uma hora de intervalo a esses trabalhadores. Acontece que, por questões logísticas, a maioria fica parada por duas horas.

Segundo o sindicato, isso fez com que os motoristas perdessem até R$ 450,00 por mês em horas extras. A partir disso, teve início o diálogo para que três turnos de escala fossem adotados: dois de seis horas para aqueles que não têm interesse em cumprir horas extras e não obrigariam o intervalo; e um de sete horas e vinte minutos, com uma de intervalo e mais duas extraordinárias.

A entidade afirma que obteve o aval do MPT e da Emdurb, desde que a medida não alterasse o preço das passagens. No entanto, a Transurb alegou que, para viabilizar a proposta, precisaria contratar mais 180 motoristas. Por conta disso, o Sindtran aguardava reunião com o prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) na semana que vem. Em decorrência do ocorrido, a entidade solicitou, em caráter de emergência, nova reunião.

 

Prazo para solução é até sexta-feira

Na tarde de ontem, o presidente da Emdurb, Nico Mondelli, recebeu uma comissão de trabalhadores que aderiram à paralisação. Segundo ele, a conversa foi tranquila, mas os motoristas querem solução imediata às suas demandas. “Vamos conversar com a empresa e ver o que é possível propor. Até lá, ficou acertado de que nenhum ato semelhante será repetido”.

Nico ressalta, porém, que será necessário um entendimento entre os trabalhadores que articularam o movimento com o Sindtran. “É o sindicato que representa legalmente a categoria e é com eles que vamos negociar”.

O presidente da entidade, José Rodrigues da Silva, foi convidado para o encontro da tarde de hoje, mas se recusou a participar por entender que daria legitimidade a um ato irregular. “Nós temos que pensar agora em pedir desculpas para a população que foi afetada por isso”.

Durante o dia, os ônibus circularam com os faróis ligados. O JC ouviu relatos que, por conta da interrupção dos serviços de transporte coletivo, trabalhadores precisaram desembolsar valores acima do normal para chegarem a seus postos com mototaxis. “Estavam cobrando R$ 10,00”, conta a empregada doméstica Iara da Silva Santos.

Os circulares deveriam sair da garagem às 5h, mas isso só aconteceu às 7h10. Os organizadores do ato impediram a entrada do ônibus que leva os motoristas ao local.

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