O anúncio, esta semana, da autorização da Corte Constitucional da Alemanha permitindo ao governo federal participar do esforço de estabilização do sistema bancário europeu serviu para reduzir um pouco o nível da incerteza que domina as atividades do mercado financeiro. Apesar de impor o cumprimento de diversas condicionalidades para se tornar efetiva, a autorização (no limite de compra de mais 140 bilhões de euros em títulos do Fundo de Estabilidade) afasta o principal obstáculo que vinha impedindo o Banco Central Europeu de realizar o seu papel de socorrer em última instância o fraturado setor bancário da Eurolândia, cujos problemas não cessam de perturbar toda a vizinhança.
Significa que mesmo com a reação alemã de muita desconfiança, o habilidoso presidente do BCE, Mário Draghi vai tornando efetiva a sua política de intervenções para reduzir as taxas de juro da famosa "Dívida Soberana", sem o que não será possível caminhar para recuperar um pouco de equilíbrio nas finanças e na própria economia de toda a região. O uso desse mecanismo permitirá facilitar um pouco mais de crédito, por um lado, e de outro estimular o crescimento da atividade econômica, criando uma tênue expectativa de ser o começo de uma saída para o problema europeu.
Certamente em função dessa nova esperança é que a chanceler Ângela Merkel comemorou com incomum entusiasmo a autorização da Corte Constitucional Alemã, exclamando que se tratava de uma decisão especialmente feliz para a história da união europeia. A realidade é que os alemães não devem esquecer que seu país soube utilizar melhor do que a grande maioria dos parceiros as oportunidades de fortalecimento econômico e expansão externa que a União oferecia. Em verdade, a todos.
Não há dúvida que sair do Euro tem um custo enorme. A Europa vai ainda enfrentar dificuldades muito sérias pelos próximos três ou quatro anos, mas há consciência do seguinte: permitir o desmonte da Zona do Euro terá seguramente custos infinitamente superiores do que mantê-la, seja do ponto de vista social e político quanto econômico. A destruição da ideia de que é possível manter a união entre esses povos, dá impressão que o Euro é o culpado de tudo, quando os culpados dessa imensa tragédia foram os governos que se aproveitaram da introdução do sistema de moeda única para fazer patifarias.
Quando da introdução da moeda única os alemães agiram com cuidado, absorveram a conversão para o Euro lentamente. O custo unitário da produção cresceu apenas 3,5 %, enquanto na Itália cresceu 35%, na França cresceu 37%, ou seja, de uma maneira geral os demais europeus não tiveram o mesmo comportamento. Permitiram que se elevassem os custos dos salários na produção enquanto os alemães aproveitaram a diferença para aumentar as exportações. Além de seu poderoso mercado interno, a Alemanha tem grande participação no comércio exterior onde colocam os seus produtos industriais, de alta sofisticação, com o que garantiram uma presença importante (e lucros) no atraente mercado chinês.
O autor, Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC