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Entrevista da Semana: Ellen Furtado e Hugo Praxedes

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 9 min

 

João Rosan

Hugo e Helen são promessas do Judô bauruense

É bom o bauruense que já vibrou muito com o judoca Mário Sabino se acostumar com os nomes de Hugo Praxedes, 16 anos, e Ellen Furtado, 15 anos. A nova geração de bauruenses no tatame na Seleção Brasileira de Judô sonha em representar o Brasil nas Olimpíadas Rio-2016. O projeto é disputar uma medalha empurrados pela vibração da torcida brasileira. 

Neste mês, Ellen e Hugo disputaram o Campeonato Pan-Americano Sub 17 na cidade de Cali, Colômbia. Os dois bauruenses integram a nova geração do judô brasileiro que garantiu pelo décimo ano seguido a hegemonia do Brasil nas Américas. As seleções Sub 17 e Sub 20 conquistaram no Campeonato Pan-Americano e Sul-Americano 59 medalhas, sendo 34 ouros, 17 pratas e oito bronzes. 

 

Um ouro e uma prata foram ganhos pelos bauruenses Hugo e Ellen, respectivamente. Hugo derrotou na final do Pan-Americano Sub 17, categoria +90 quilos, um norte-americano mais alto e de maior envergadura. Ellen também teve como adversária uma judoca dos EUA muito mais alta, na categoria +70kg, no Pan-Americano Sub 17. 

 

As jovens promessas do judô bauruense sonham disputar os Jogos Olímpicos Rio-2016. No entanto, a nova safra de judocas é muito bem orientada pelo sensei Marinho Esteves responsável pela equipe de rendimento do Sesi SP, unidade de Bauru.  Marinho não irá atropelar a caminhada de seus atletas. Ele argumenta que 2016 está muito em cima porque o ciclo olímpico para o Rio começa agora com as competições internacionais que dão pontuação para o ranqueamento mundial. Hugo é juvenil e só participará destas competições quando for júnior. No entanto, o técnico não descarta seus atletas já para a Rio-2016. A perspectiva é que Hugo e Ellen possam disputar a sub 20, categoria acima. “Para 2016, temos muita chance”, não descarta Marinho. Ele relembra a trajetória do medalhista olímpico em Londres-2012 Rafael Silva, que conquistou o bronze vencendo o sul-coreano Sung-Min Kim, na categoria pesado - mais de 100 kg - , em que o judô brasileiro ainda não tinha medalha. Marinho comenta que Rafael em um ano e meio conseguiu a vaga olímpica.“A gente trabalha, mas não quer criar expectativa”, salienta. 

 

Ellen também é uma aposta bastante lapidada por Marinho que treina os dois judocas desde 2010. O sensei investe na judoca para a disputa de Mundial e convocação para a seleção principal.

 

Se não for no Rio-2016, Ellen e Hugo terão grande chance em 2020, quando a disputa olímpica tem como cidades candidatas a sediar os Jogos Madri (Espanha), Tóquio (Japão) e Istambul (Turquia).

 

Ellen e Hugo vivem intensamente as oportunidades que o judô proporciona. Fora do tatame, Hugo se define como bastante preguiçoso. Trajando o quimono, o adolescente de 16 anos segue a disciplina exigida pelo esporte. Ellen é tímida porém demonstra entusiasmo pelos resultados conquistados neste ano. A dupla já iniciou os treinos para disputar em dezembro a Seletiva para o Mundial 2013. Leia os principais trechos das entrevistas com os medalhistas bauruenses.

 

 

 

Jornal da Cidade - Como vocês lidam tão novos com a pressão de decidir uma temporada em 4 minutos no tatame?

Hugo Praxedes - Não tem motivo para se sentir pressionado. Sempre busco a vitória da forma mais calma possível.

Ellen Furtado - É muito difícil ganhar uma prata, um bronze fora do Brasil. Um ouro, então nem se fale. Somos apenas nós. Tem muitos atletas, às vezes, muito mais fortes do que a gente. A gente treina bastante. Além dos treinos de judô, a gente faz treino físico porque as lutas não são fáceis. Os atletas de fora do Brasil são muito fortes.   

 

 

 

JC - Como é a relação de dois campeões adolescentes com os amigos tendo tantos compromissos com o esporte? 

Hugo - Meus amigos costumo dizer que são minha família. É muito difícil ter um amigo fora do judô. O judô é o esporte individual mais coletivo do mundo. Eu tenho que treinar e não consigo treinar sozinho. Preciso dela (Ellen). A gente trata um ao outro como irmão, porque a gente passa tanto tempo juntos. Somos como uma família. 

 

 

 

JC - Você consegue ouvir as orientações do treinador à beira do tatame?

Hugo - Eu aprendi que quando eu ouço ele, eu ganho. Penso muito durante a luta e minha cabeça trabalha bem mais do que meu corpo. Tanto eu como ela somos os menores da categoria. De tamanho e de peso. Gosto de falar que a inteligência é a arma mais forte que a gente tem no corpo.

 

 

 

JC - Em algum momento passou na cabeça de vocês que iriam perder nas disputas finais no Pan-Americano?

Hugo - Nunca penso que vou perder. A única coisa que eu escuto é o sensei. E nossa respiração. E sempre pensando em dar o melhor, mesmo cansado e mesmo sem força no corpo, penso em levantar com muita raça. O pensamento negativo vai te pôr para baixo, vai perder força mais rápido. “Vou perder” e “não consigo” são frases muito fortes. A gente nunca pode falar isso porque são coisas que deixam muito para baixo.  

 

JC - Você teve a chance em Cali (COL) de trazer a medalha de ouro e que aprendizado adquiriu?

Ellen - Lutei contra uma norte-americana bem mais alta e muito mais forte. Tentei entrar com alguns golpes, mas não deu certo. Ela acabou me jogando de yuko (imobilização do adversário por até 24 segundos) e o juiz considerou como ippon (fim de combate).

 

 

JC - Como é a preparação para competições?

Hugo - Nunca estamos sozinhos e usamos ajuda de psicólogos. Acho meu psicológico muito bom. Nunca tive problema com o psicológico. Você sente quando treina que não só o corpo melhora mas também o psicológico. Você se sente mais confiante para lutar e para fazer qualquer coisa. Sempre estar pensando no bom e no melhor a fazer. Não adianta a gente treinar 5 horas seguidas fazendo uma coisa sem pensar. A gente pode treinar 2 horas e se pensar vai render bem mais. Tanto o corpo melhora quanto a mente.

Ellen - O Marinho (sensei Marinho Esteves) me ajuda muito. Meu psicológico é muito fraco porque sou a menor da categoria. Daí eu me apavoro. O Marinho conversa comigo durante as lutas e no meio. Eu acabo ganhando.

 

 

JC - A preparação de vocês visa as Olimpíadas de 2020 e quais a chances de antecipar para o Rio-2016?

Hugo - A gente vê uma grande possibilidade sendo os principais da categoria de base. Porque no judô é uma coisa de momento. Acaba não mudando muito rápido e depende muito da pessoa que chega. Porque chegar é difícil. Mas se manter é muito mais difícil. Você serve como um espelho e todo mundo está lá te vendo. Porque o homem a ser batido é você que está lá em cima.  Todo mundo treina pensando em você. Então você tem que treinar muito pensando no que as pessoas estão fazendo para tentar bater você. Então tem que treinar bem mais. Depois que ganhei a Seletiva (para o Pan-Americano) atingi um objetivo. Agora, a motivação para treinar era o objetivo e qual vai ser a motivação? Porque quando você perde, você tem a motivação de ganhar do adversário que te derrotou. Vou treinar até ganhar. Se eu perder não vou treinar tanto quanto se ganhar.  Porque eu sei que se eu ganhar e parar, vão ganhar de mim. 

 

 

JC - Seu espelho é o Rafael Silva bronze nas Olimpíadas de Londres?

Hugo - Sim! Mesmo que na minha categoria sou bem mais novo do que ele. O auge hoje é onde ele está. Sempre pensar nisso. Sempre tentar bater ele para em 2016 representar o Brasil nas Olimpíadas. 

 

 

JC - Quem você quer superar Ellen?

Ellen - No momento eu estou tentando bater a americana que ganhou de mim. Estou treinando para ganhar dela no ano que vem. Mas tem a Suelen (Maria Suelen Altheman, 23 anos, que estreou em Olimpíadas em Londres na categoria +78 kg) que é forte na categoria e não trouxe medalha. Ela é o meu espelho no momento. 

 

JC - A comemoração pelas medalhas já acabou?

Hugo - Não é só mais uma medalha. Vai ficar para trás e acabou. Tem que zerar tudo de novo e voltar a treinar para conseguir de novo. Não é uma coisa tipo ‘sou campeão pan-americano”. Tenho que manter a cabeça no lugar e não deixar a vitória subir à cabeça.

Ellen - A gente tem costume de falar que a cada competição a gente zera para a próxima. A gente está zerando para a seletiva para o Mundial neste ano.

 

 

JC - Quais os planos fora do tatame?

Hugo - Sempre tive muito interesse em fazer educação física. Mas gosto muito de cozinhar. Faço o básico, arroz, feijão, estrogonofe e lasanha. E penso em fazer duas faculdades. De educação física, não só pelo esporte, mas para ter uma maior noção do esporte. De gastronomia porque o judô não vai ser eterno. Uma hora vou guardar o quimono. Para quando essa hora chegar eu não estar de mãos abanando. Ter alguma coisa para continuar. Mas sou muito novo ainda e o judô vai demorar bastante.

Ellen - Quero fazer a faculdade de educação física por causa do judô. E eu gosto muito de desenhar. Penso em fazer de design de interiores e ambientes que não tem nada a ver com judô. Na escola sempre desenhei planta de lugares. Casinha quando era pequena. 

 

 

JC - Como o judô entrou em sua vida?

Ellen - Há oito anos eu pratico judô. Comecei no judô por causa do meu irmão mais velho (Eriton). Ele é faixa marrom e parou para trabalhar. Eu olhava ele indo e ficava em casa, mas queria ir junto para ver como era. Comecei com 7 anos. Fazia na academia do Geisel com a Fernanda. Em 2010, fiz a seletiva para vir para o Sesi e daí fui ganhando os espaços.

Hugo - O judô foi a melhor coisa que aconteceu em minha vida. Comecei com 8 anos e já fazem nove anos que eu pratico. A gente tem costume de falar que a gente está passando por aquela fase difícil. Ficando revoltado e está crescendo. Não sei onde estaria hoje se não fosse o judô. Foi um jeito de se adaptar. Um jeito de viver. O judô é uma filosofia que forma o caráter. Antes de começar não fazia nada e levava as coisas só na brincadeira sem fazer nada. Minha irmã (Deise) me levou e disse que se gostasse era para praticar. Comecei a gostar e comecei a ir. Fazia por diversão. Vim para o Sesi e fui conquistando as coisas aos poucos até chegar onde estou hoje. 

 

 

JC - Como é estrutura que vocês têm e a relação com o sensei Marinho?

Ellen - Eu queria agradecer ao Marinho porque ele me ajuda bastante porque tenho o psicológico fraco. Agradecer a estrutura do Sesi e agradecer ao meu irmão, porque se ele não tivesse feito não estaria onde estou agora.

Hugo - Não fosse a estrutura que o Sesi SP dá para gente, não chegaríamos a lugar algum. Agradecer ao Sesi e ao sensei Marinho e a nossa família que estão sempre apoiando. 

 

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