Tribuna do Leitor

Pesquisas & Vídeotape


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Pesquisas e mais pesquisas, como nas eleições de anos anteriores, estão a anunciar por todo o país os candidatos que se acredita serem os futuros vencedores destas.

Algumas no decorrer desses anos foram tão discrepantes ante o placar depois anunciado oficialmente que parece até que foram compradas: o candidato sai na frente na intenção de arrebanhar adeptos (induzir a carneirada) e nos últimos dias de campanha (para não ficar feio ao instituto que assina a pesquisa), "inteligentemente" esse candidato vai perdendo fôlego, um dos adversários surge "surpreendendo" e acaba por receber a faixa. Até "explicam" esse fenômeno dizendo que pesquisa não é foto, é filme, portanto dinâmica, que só se decide na hora do voto etc.

Outras pesquisas há que apontam continuadamente um candidato sempre à frente de outros, da primeira à última pesquisa (às vezes com larga margem) e efetivamente este candidato acaba por vencer a eleição.

Tanto uma como outra me incomodam. A fraudulenta, por razões óbvias. Esta última por um raciocínio que penso deva ser levado em conta: muitos dos eleitores vendo seus candidatos na rabeira, às vezes tão na rabeira, não mais se entusiasmariam (veja que é uma condicional) em discutir coisas da política, abdicando da luta, entregando de vez os pontos. Estariam assim esses eleitores como que pesquis/anestesiados, a pesquisa funcionando como uma espécie de culto, algo místico, sagrado, definitivo, uma fatalidade, o que tem que ser, será.

Instaura-se assim na alma de boa parte da população um profundo desalento por acreditar-se sem chances de vitória, obrigando-a a um jogo de cartas marcadas, a democracia do pão amanhecido, do jornal velho...

Nem reza brava resolve esse sentimento de impotência. Porque não ganhar faz parte do jogo, mas ter isso tão explícito, antes mesmo do jogo jogado é que é. Findam-se as ilusões e ? convenhamos - isso de ilusão sempre funciona. Veja-se o futebol: um time está perdendo por um elástico placar, o tempo está passando, precisa da vitória, aí um cara vai lá e mete um golzinho, depois outro, o jogo muda, a emoção volta a comandar o espetáculo, o time pode até perder, mas houve chance até o último minuto, tudo bem, a bola bateu na trave, mas se entra, haveria prorrogação e a história poderia ser bem outra.

Qual criança ainda na barriga da mãe que só se saberia o sexo no dia mesmo do nascimento (a emoção de um menino, de uma menina, de ggêêmmeeooss!), assim era regida a política antigamente (antes das pesquisas). Havia a expectativa do dia da eleição e certo frisson, e mesmo angústia, pelos dias seguintes (o jogo jogado), os da apuração, às vezes decidida na última urna, no último voto. Tenho saudade desses tempos em que candidatos se elegiam contando votinho por votinho, papelzinho por papelzinho.

Bem, isso acabou, estamos num admirável e insosso mundo novo... Nélson Rodrigues já dizia (sobre os lances polêmicos no futebol) que o vídeotape é burro. Diante de uma prova científica (o vídeotape) as polêmicas sobre este ou aquele lance seriam dirimidas, calando as paixões, essência do esporte bretão. Acompanharemos a apuração de votos (nestas eleições, como já fizemos nas últimas) sem paixão alguma, assistindo a um vídeotape do que disseram as pesquisas.

Luiz Vitor Martinello

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