No último dia 4, um trio assaltou uma família em Bauru e atirou contra uma mulher. Felizmente, ela passa bem. Na semana seguinte, a 43 quilômetros daqui, outra vítima não teve a mesma sorte. As cenas da comerciante morrendo com um tiro na cabeça foram divulgadas local e nacionalmente. Com finais diferentes, os dois casos remetem a um ponto: a segurança. Ou seria a insegurança?
Hoje, é indiscutível que vivemos submersos em clima de insegurança. Estatísticas oficiais teimam em mostrar que estamos mais seguros. Será? Com base nesses dados, a polícia frisa que o que aumenta, na verdade, é a sensação de insegurança; e não ela própria. Será? Por qualquer bairro que andamos, é comum ver câmeras de vigilância, cercas eletrificadas, muros altos e até a contratação de vigias particulares; ou seja, verdadeiros castelos blindados. Só falta a lagoa com crocodilos em volta. Tudo culpa da tal sensação de insegurança?
De acordo com a polícia, a própria comunicação sofisticada nos propicia esse sentimento. A lógica é a seguinte: quando vemos um assalto com mortes na Bahia, trazemos esse medo, mesmo que de forma inconsciente, para nossa realidade. Mas e quando isso é na nossa cidade? E quando isso é a 43 quilômetros de nossas casas? Cada vez mais a população se blinda. Seja deixando de circular em determinados horários e locais ou reforçando suas "paredes". Pedir aos vizinhos que fiquem de olho em minha casa é muito útil, porém, não vai resolver nossos problemas. Pedir que andemos com os vidros fechados nos carros é uma dica brilhante, mas é uma responsabilidade que, a priori, não seria nossa.
E a crítica não cabe de forma simplista ao policiamento. Ele existe, atua e prende. Prova disso é o "congestionamento" de roubos, furtos, tráficos e afins pelo Plantão da Polícia Civil. A crítica é mais extensa. A crítica cabe à Legislação, que possibilita um "prende e solta" e deixa autoridades de mãos atadas; ao sistema prisional, que se tornou um cofre do qual quase não temos notícias; aos meandros sociais e culturais, aos quais não tenho competência para discorrer sobre. A comunicação, porém, faz sua parte. Informa o latrocínio tentado da advogada, o latrocínio praticado da comerciante lençoense e também o da Bahia.
Vídeos, depoimentos, fotos e letras garrafais em uma manchete chocam? Mas quem disse que não é para chocar. É preciso chocar para que "apenas mais uma morte" em Bauru ou região não se torne algo banal. "Mas qual o motivo de não falar quando um bairro está seguro e há dias sem crimes no ?seu? jornal?". Simplesmente porque é assim que todo bairro deveria ser. Simplesmente porque é assim que a sociedade deveria ser. O anormal é a violência. O normal é a tranquilidade. Essa inversão de valores não deve ser encarada como algo normal.
Por mais clichê que seja, o ano de eleição é o mais propício para chocar e apontar os sintomas de uma "síndrome do pânico" na sociedade. Os candidatos estão aí e não me deixam mentir. Debatem amplamente a segurança e falam de suas futuras medidas e promessas. Alguns até abraçam "filhos" que são de competência do Estado em suas campanhas. É ano de ser chocado. Se a comunicação mostra sangue é porque existe sangue na realidade. Se estamos em segurança, é ilógico que vivermos em clima de insegurança. Em segurança e insegurança não são expressões que cabem na mesma frase. Uma exclui a outra. E nos desculpem, porém, esse não é um paradoxo de responsabilidade da mídia.
O autor, Vitor Oshiro, é repórter do JC e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia