Bairros

Somatória de problemas se arrasta pelas ruas da cidade e dificulta soluções definitivas

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 7 min

Mais carros na rua

Por dia, as ruas de Bauru absorvem, em média, 27 novos veículos. E este número só tende a aumentar. Segundo informações do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), no período de um ano, a contar do fim de maio do ano passado, a frota de veículos de Bauru cresceu 6,37%, ultrapassando a marca de 250 mil.

Um dos motivos para este crescimento em ritmo acelerado é, certamente, a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), medida adotada pelo governo para incentivar a compra de novos veículos.

As influências desta medida vão bem além do bolso, podem ser sentidas na pele por quem transita diariamente pelas ruas da cidade.

“Bauru recebe, diariamente, cerca de 10 caminhões cegonha. É muito carro junto. Não há cidade que absorva um IPI zero. O resultado, a população pode conferir nas ruas: é muito carro para uma cidade que não foi planejada nem tem estrutura para um inchaço deste porte”, avalia Nico Mondelli Júnior, presidente da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb).

Para ele, as indústrias automobilísticas beneficiadas com o aumento das vendas provenientes da redução do imposto deveriam, de alguma forma, repassar estes benefícios às cidades para onde seus produtos estão sendo destinados.

“O governo baixa o IPI, as indústrias vendem mais carros, a população deixa o transporte coletivo de lado e os municípios têm de se virar como podem para dar conta de um trânsito que não para de crescer e desenvolver problemas cujas soluções são caras e dependem de alto investimento”, critica Nico.

 

Falta de infraestrutura

Cresce o número de carros circulando pela cidade, aumenta a concentração populacional nos bairros, prédios se erguem pelos quatro cantos de Bauru. Tudo parece progredir a todo vapor na cidade “Coração de São Paulo”. Tudo menos as avenidas e ruas responsáveis por ligar este turbilhão de gente e veículos do Centro aos bairros e vice-versa. Estas permanecem com a mesma cara e dimensões de décadas atrás, quando foram construídas.

“A cidade cresceu e a malha viária da cidade não acompanhou esta expansão”, constata Rodrigo Riad Said, titular da Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan).

Exemplos estão por toda a parte. A avenida Castelo Branco, por exemplo, só tem nome de avenida. Na verdade, por conta de seu porte, ela se configura como uma via coletora, destinada a coletar e distribuir o trânsito que tenha necessidade de entrar ou sair das vias de trânsito rápido, possibilitando o tráfego dentro das regiões da cidade. De extrema importância para quem mora do lado Sudoeste da cidade, a via sofre com a pista simples e com as indispensáveis permissões de conversão, espalhadas por toda sua extensão.

“São ruas com tamanho de rua de bairro, que não foram concebidas para escoar o tráfego”, destaca Said.

Outro ponto é a praça Chujiro Otake, que tem uma rotatória que liga o viaduto Antônio Eufrásio de Toledo às vilas Independência, Giunta e Falcão. Para comportar o trânsito existente nos horários de pico seria necessária uma pista sete vezes maior que o tamanho atual.

“A cidade está refém das poucas opções de acesso dos bairros ao Centro. Isso é reflexo da baixa capacidade de investimento e leva um grande tempo para ser revertido”, acrescenta Nico Mondelli, presidente da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb).

 

Muita gente nos bairros

Não é só do aumento do número de veículos que circulam diariamente por Bauru a responsabilidade por entupir as ruas da cidade. A concentração populacional nos bairros mais afastados do Centro também tem influência neste cenário.

Isso porque, de um ano para cá, o número de loteamentos do programa Minha Casa, Minha Vida, cresceu consideravelmente, concentrando, desta forma, um grande número de moradores em bairros da cidade que até então eram considerados periféricos e não tinham muito trânsito.

“São condomínios verticais que, em um pequeno espaço, concentram um número considerável de pessoas. Sendo assim, uma coisa atrai a outra: mais pessoas em um bairro, mais veículos circulando por lá”, explica Nico Mondelli Júnior, presidente da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb).

Um exemplo clássico da situação ocorre nas imediações da Vila Giunta, próximo das quadras finais da avenida Bernardino de Campos. O bairro, que recentemente recebeu diversos prédios, teve sua população aumentada, ampliando, inclusive, o comércio das redondezas. Por outro lado, a avenida Bernardino de Campos é a mesma desde 1954, quando ganhou este nome. 

 

 

Educação e consciência: artigos de luxo

É fato que em algumas vias dos bairros de Bauru o trânsito está muito próximo de travar. Entre os motivos para o problema podemos apontar o aumento no número de veículos, a concentração populacional, a falta de infraestrutura entre outros problemas já relacionados nesta matéria. Contudo, a falta de educação e de consciência dos motoristas tornam a situação ainda pior.

O desrespeito às leis de trânsito, que pode vir em forma de conversões erradas, ultrapassagens proibidas, desobediência à sinalização de trânsito, entre outras coisas, somadas ao hábito de utilizar carros e motos para fazer até mesmo os percursos mais curtos agravam ainda mais este cenário.

“Muita gente mora a uma quadra da padaria e, mesmo assim, vai até o local de carro e quer estacionar na porta. Se ali tiver uma faixa amarela, já é motivo para reclamação ou pior, motivo para cometer uma infração de trânsito por alguns segundos”, exemplifica, em tom de crítica, Nico Mondelli Júnior, presidente da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb).

 

Soluções provisórias

Enquanto as obras de grande porte não saem do papel, a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) faz o que pode para amenizar a situação caótica em que se encontra o trânsito nos bairros de Bauru.

A proibição de estacionar nas vias mais movimentadas, a criação de binários (vias de sentido único), a implantação de semáforos, lombadas e radares e a fiscalização estão entre as alternativas adotadas pela autarquia para amenizar a situação.

Na rua Bernardino de Campos e na avenida Castelo Branco já estão sem vagas para estacionamento em toda sua extensão. Além disso, lombadas estão sendo implantadas em trechos de difícil cruzamento.

No Núcleo Mary Dota, semáforos estão sendo implantados em dois trechos da avenida Marcos de Paula Raphael.

Já a alameda Flor do Amor seria transformada em binário, ou seja, se tornaria mão única. Contudo, manifestações da comunidade impediram a realização do projeto.

“Vamos deixar como está. Quando a comunidade entender que a situação está insustentável aceitará a alternativa”, pondera Nico Mondelli, presidente da Emdurb.


Transporte público não ajuda

Uma das alternativas para desafogar o trânsito dos bairros é o investimento no transporte público. Contudo, segundo Rodrigo Riad Said, secretário municipal de Planejamento (Seplan), o quesito ainda deixa muito a desejar. A começar pelas rotas de circulação em vigência, que datam de 30 anos atrás.

“A cidade foi crescendo, os bairros foram ficando mais distantes do Centro e as linhas de ônibus foram aumentando, esticando, sem planejamento, sem estudo. Atualmente, um ônibus leva um tempo muito grande para percorrer todo o seu trajeto, tem muitas paradas, perde muito tempo. Sabemos que isso precisa mudar”, constata.

Segundo ele, alternativas para o transporte coletivo estão sendo estudadas e devem ser encaminhadas para disputar verbas federais destinadas ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) da mobilidade.

“É preciso uma revisão das rotas, que devem ficar mais curtas e eficientes. Além disso, não descartamos a criação de corredores exclusivos para os ônibus”, acrescenta Rodrigo.

 

Projetos na gaveta

Outro projeto que depende de verbas públicas para se tornar realidade é a construção da avenida Água do Sobrado, planejada para ser construída entre a avenida Castelo Branco e a rua Bernardino de Campos. O custo estimado da obra é de R$ 80 milhões.

“Será uma avenida de trânsito rápido que promete desafogar a Castelo e a Bernardino. Contudo, para a obra sair do papel, é preciso que haja verba disponível. Para isso, estamos encaminhando o projeto de construção para o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) da mobilidade”, explica Rodrigo Riad Said, secretário municipal de Planejamento (Seplan).

Segundo Nico Mondelli Júnior, presidente da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru, esta é a única alternativa para desafogar as já superlotadas vias Castelo Branco e Bernardino de Campos.

“Ali, já adotamos todas as medidas que estavam ao nosso alcance: proibimos estacionar, implantamos lombadas e radares, melhoramos a fiscalização... Agora, só uma obra de grande porte resolve”, destaca Nico, que ressalta que a região já recebeu obras preliminares, como a drenagem dos bairros que sofrerão interferência da nova avenida.

Além dela, uma obra que pretende alterar o acesso ao núcleo Mary Dota, tanto de quem vem da Rodovia Marechal Rondon, quanto de quem vem pela avenida Nuno de Assis, já está planejada.

“O trânsito ali é bastante complicado, principalmente nos horários de pico”, reconhece Rodrigo.

Outra obra planejada para a cidade é a expansão da rotatória da Praça Chujiro Otake, que liga o viaduto Antônio Eufrásio de Toledo à Vila Independência, à Vila Giunta e à Vila Falcão.

“Com esta obra a rotatória deve ficar sete vezes maior”, conta Rodrigo.

Contudo, como todas estas obras dependem de uma grande verba para serem executadas, deverão ficar no papel, dentro da gaveta, por alguns anos ainda.

 

 

 

Comentários

Comentários