Muito difundido, principalmente em discursos de inauguração de hospitais, sejam eles públicos ou particulares, o termo humanização ainda não é colocado em prática em sua real essência, ao menos na mesma intensidade com a qual é enaltecido.
Essa é a visão de Débora Vieira de Almeida. Bauruense, a enfermeira formada na Universidade Sagrado Coração (USC) é autora do livro “A Humanização dos Cuidados em Saúde - Uma proposta Conceitual” (184 páginas/AB Editora).
Na obra, ela propõe uma reflexão sobre a real aplicação de postura humanizada nos hospitais do País. Professora na Universidade Federal de Minas Gerais, a doutora antecipa: “Não trazemos uma ‘receita de bolo, mas sim refletimos sobre as práticas de humanização”, detalha a autora.
Para a estudiosa, um dos principais focos do conceito deve ser o relacionamento humano que, por si só, não deve ser tratado como um método engessado. De acordo com ela, o fato de cada pessoa ter personalidade singular torna o atendimento, desde a abordagem inicial até o acolhimento, no caso de internações, diferenciado de um indivíduo para outro.
Débora enfatiza que a humanização, desde a formação acadêmica, apresenta deficiências conceituais no Brasil e é carente de embasamento teórico. A técnica, segundo a doutora, não deveria ser entendida desta forma, mas, na verdade, encarada como uma ciência dentro das instituições de ensino. “O termo não é tratado com o devido rigor científico”, embasa.
Ela cita estudos feitos em pesquisas de satisfação de usuários do Sistema Único de Saúde (SUS), por meio da Política Nacional de Humanização, em vigor desde 2003. Conforme a doutora, a duração ou espera pelo atendimento não preponderam no maior número de queixas, mas sim a interação entre profissionais da área médica e pacientes.
O grande desafio de se implantar, de fato, a humanização nos hospitais do Brasil, salienta Débora, é unir conteúdos universais quando se lida com gente. Consequentemente, necessita-se de atitudes e sensibilidade individualizada.
Por outro lado, a ausência de condições mínimas de trabalho observada em muitas unidades de saúde, reconhece, dificulta a preocupação em se colocar em prática os conceitos de humanização. Por outro lado, ressalta, nada justifica maus tratos. “Explicável sempre é, justificável, não”, diferencia.
Do início ao fim
Depois que as denúncias sobre o setor são protocoladas no Cremesp, é aberto um procedimento que marca o início da fase de sindicância. É a etapa preliminar da averiguação, com coleta de provas (prontuários, receitas, laudos e demais documentos), manifestação escrita e eventuais audiências com os envolvidos.
Caso sejam diagnosticados indícios de infração ética, com descumprimento do Código de Ética Médica, é iniciada a segunda fase, caracterizada pelo processo éticoprofissional, quando, após a notificação do profissional denunciado, inicia-se o período de instrução, quando denunciante e denunciado têm asseguradas iguais oportunidades na apresentação de provas de acusação e defesa. (LB)
Serviço
O Cremesp em Bauru funciona na rua Luso Brasileira, 4-44, Jardim Estoril 4, piso térreo do edifício Metropolitan Square. Telefones: (14) 3223-7501 e (14) 3234-3842. Email: drbru@cremesp.org.br.
6.ª no ‘ranking do processo’
Num estudo realizado entre 2000 e 2007, o Conselho Regional de Medicina fez um amplo levantamento sobre denúncias e processos envolvendo médicos no Estado.
No estudo, Bauru figurou na sexta colocação entre as regiões com maiores incidências de queixas, processos e condenações. No período, cidade e região tiveram 222 profissionais denunciados, 30 processos abertos e 13 condenações.
Entre as seis ‘líderes’, porém, é o núcleo com segundo maior contingente médico, com 1141 profissionais. Assis, por exemplo, que encabeça a lista, teve 77 médicos denunciados entre 303 cadastrados pelo conselho naquela região.
Ouvidoria do Centrinho foi pioneira
O Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo, o Centrinho, em Bauru, foi pioneiro ao implantar um serviço de ouvidoria. Em funcionamento desde 2000, o setor “mede” a relação entre profissionais de saúde e pacientes e apresenta bons resultados em garantir convivência humanizada tanto para os atendidos e familiares quanto para os próprios funcionários.
Segundo a enfermeira e doutora em pediatria Maria Irene Bachega, que é chefe do departamento hospitalar e também dirige o núcleo, o serviço foi iniciado para cumprir legislação que obriga as instituições a manter o setor. Mesmo assim, destaca, a ouvidoria do Centrinho foi uma das primeiras do Brasil. “Somos anteriores até mesmo à ouvidoria do SUS”, enfatiza.
Humanização, conceitua ela, não se restringe apenas a ouvir o paciente que não gostou da sopa. “Trabalhamos com pessoas e eventuais mediações de conflitos”, diferencia. “Não se trata de atuação restrita apenas a assistentes sociais ou psicólogos. Envolve uma equipe muito maior, desde a lavanderia até a equipe de manutenção”, considera a chefe do setor.
Maria Irene compartilha da opinião da doutora da UFMG sobre estrutura de trabalho x humanização. Para ela, condições de trabalho não podem interferir na maneira como o profissional, desde o atendente até o cirurgião, lida com o paciente.
“O profissional deve, antes de tudo, saber onde vai trabalhar e, ao enfrentar problemas de estrutura, reclamar no canal competente. A qualidade e humanização depende da atitude de todos. Maca no corredor é sinal de falha administrativa, de gestão”, acentua.