O Dia do Índio (19 de abril) coincidu com a eleição de Bento XVI que ocupou as manchetes dos jornais e noticiários de rádio e televisão. Por isso vale recordar o fato hediondo do crime perpetrado por jovens da sociedade média e alta de Brasília, ao queimarem um índio que dormia na calçada de uma rua da capital federal. O psicanalista Jurandir Freire Costa, ao comentar tal crime, escreveu: "Os cinco garotos que atearam fogo em Galdino Jesus dos Santos, um índio pataxó, são normais".
Concordo com ele. A solução simplista de transformar esses jovens em monstros produz o efeito de reduzir o fato a uma anormalidade ocasional e isentar a educação e a sociedade de qualquer responsabilidade. Cabe-nos ir a fundo ao problema e identificar as causas.
O Brasil real é cheio de contradições, de problemas, de contrastes escandalosos, de uma riqueza esbanjadora e uma miséria ignominiosa, de políticos sérios e corruptos, de uma estabilidade econômica ao lado de desemprego, salários curtos. O conhecimento dessa realidade nos deixa inquietos. Jurandir Costa recorda um encontro com Paulo Freire em que expusera aos alunos de medicina da Faculdade do Recife a triste situação do País. "A verdade é clara: não pode haver democracia plena onde existem crianças e adultos analfabetos." E pediu-lhes pequena parte do tempo para reparti-lo com quem não tinha a situação de que eles gozavam. Essa geração deixou-se embalar pelo sonho de mudar o Brasil real. A geração dos jovens de Brasília não fala do Brasil real, mas imaginário, virtual. É o Brasil bonito, das viagens pelo vasto mundo, das navegações pela internet, das línguas estrangeiras, das grifes, dos privilégios, da impunidade. Os pobres, mendigos, meninos de rua não pertencem a esse mundo. Não interferem nessa cultura da indiferença. Não a provocam de maneira questionadora nem a levam, como nos tempos de Paulo Freire, a dedicar-lhes um pouco de tempo. Todos os marginalizados são absolutamente sem importância a ponto de se tornarem objetos de uma "inocente brincadeirinha" de serem queimados. Esses jovens da geração do Brasil virtual procedem como crianças que maltratam animais por simples prazer inocente de brincar com aquele ser vivo. Não lhes passa pela cabeça que um mendigo, um índio, é gente, que sofre, morre, merece respeito, tem dignidade... Onde se adquire essa cultura?
Certamente nenhum professor, nem os pais terão dito alguma vez que essa gente miúda não vale nada e pode ser objeto de ações de mau gosto. Infinitas vezes terão visto pessoas e eles mesmos terão feito o gesto de espantar, como moscas, os vendedores ambulantes nas paradas obrigatórias dos semáforos. Infinitas vezes terão visto as condições de humilhação, de aviltamento, de indignidade de tantas pessoas que moram nos viadutos, que perambulam sujas, que retratam em seus rostos a miséria degradante de suas vidas. Essa lição diária de fatos os faz pensar que essa gente é realmente inferior, desprezível e, portanto, objeto de caçoadas, desprezo e atos de violentos...
Enquanto os pais e educadores não reagirem, a cultura da indiferença medrará, plasmará essa nova geração. E não estranhemos então que ela dê os frutos podres da sua arrogância indiferente...
João Álvares ? delegado regional da Associação Paulista de Imprensa