Política

Choque de propostas marca debate

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 7 min

O debate entre os candidatos à Prefeitura de Bauru, promovido pelo Jornal da Cidade e TV Unesp na noite de sábado, possibilitou a exposição de pontos divergentes nas propostas dos quatro postulantes ao cargo máximo do Poder Executivo municipal. No quarto e no quinto blocos, eles se confrontaram diretamente, seja nas perguntas e respostas ou nos comentários de questões elaboradas por jornalistas.

Rodrigo Agostinho (PMDB) e Clodoaldo Gazzetta (PV) protagonizaram discussão sobre as alternativas que viabilizem a construção da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE). O oposicionista criticou a espera da atual administração pela liberação de recursos federais e voltou a dizer que vai abrir a licitação para a obra assim que assumir a prefeitura, caso seja eleito.

Gazzetta acredita que com os R$ 50 milhões já existentes no Fundo do Tratamento de Esgoto (FTE), é possível dar início à construção e pagar pelo serviço ao longo da administração, com os R$ 15 milhões arrecadados anualmente pelo fundo. “Temos a vinculação do recurso necessário para realizar a obra. Vou fazer para honrar meus 20 anos de ambientalismo”, cutucou.

O prefeito contra-argumentou, alegando que para uma obra desse porte, é necessário ter o dinheiro em caixa ou a garantia dele. Em entrevista, afirmou que a estação pode ser construída em um ano e meio e pagá-la em quatro anos geraria um ‘conflito jurídico’.

No mais, Agostinho se apoiou na recente publicação do edital pelo Ministério das Cidades, que vai liberar R$ 7 bilhões, a fundo perdido, para projetos de tratamento de esgoto. O prefeito citou que o projeto de Bauru será inscrito nesta semana. “Era o nosso sonho, e agora o governo liberou. Antes, era só empréstimo e entendemos que isso não era o ideal, até pelo endividamento do município”.

Para rebater a frase de Gazzetta, que disse não acreditar na liberação da verba, Rodrigo respondeu que o projeto técnico já está aprovado, já existe a área destinada para a obra, citou a contrapartida do FTE, mas admitiu que as redes de interceptores não foram concluídas. Vale lembrar que o custo estimado para a construção da ETE é de R$ 117 milhões.

Na onda do programa ‘Minha Casa Minha Vida’, Rodrigo Agostinho (PMDB) questionou Chiara Ranieri (DEM) sobre sua proposta para políticas habitacionais. A demista respondeu que vai manter a execução do programa federal, mas que também vai recorrer à Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) para a construção de casas populares. “Ela foi ignorada pela atual gestão”.

O prefeito replicou que adoraria que mais casas fossem construídas ao órgão vinculado pelo governo do Estado. Ele lembrou que 200 dos lotes urbanizados, próximos ao Mary Dota, estavam reservados para esta finalidade, mas a CDHU não viabilizou o projeto em razão do alto custo para a recuperação da infraestrutura deteriorada no local.

Chiara aproveitou a deixa para lembrar que, desde 2008, os lotes urbanizados estavam destinados para receber novas indústrias, e não residências.

Neste sentido, ela destacou a inércia da atual gestão para atrair novas empresas, além de ter permitido que outras já instaladas tenham ido embora. “O prefeito só mandou o projeto para alterar o zoneamento dos lotes urbanizados agora e nenhuma obra de infraestrutura foi feita”, criticou.

 

Interação na Internet

O chat promovido pelo JC e pela TV Unesp durante o debate chegou a reunir, ao mesmo tempo, mais de 400 pessoas comentando o confronto entre os prefeituráveis.

O coordenador do setor de Multimídia da emissora, Fernando Ramos, destacou que a maioria dos participantes manteve um bom nível de participação, comentando as propostas dos candidatos sobre temas como a falta de água, habitação e asfalto.

Como se espera em todos os debates, Fernando conta que houve também a participação de eleitores mais exaltados, partidários dos candidatos. Para evitar problemas, todo o conteúdo foi moderado pelo profissional, que barrava ofensas, calúnias e propagandas abusivas.

Diretora da TV Unesp, Ana Sílvia Lopes Davi Médola classificou o debate como qualificado em razão da postura dos candidatos e interlocutores.

Segundo ela, o encontro foi pautado pela exposição de ideias e confronto de propostas. “Todos tiveram a oportunidade de deixar claro quais os seus projetos para Bauru”. Ela ressaltou ainda a importância da parceria com o Jornal da Cidade e o apoio da 96FM, Auri Verde, Rádio Unesp e TV Câmara. “Certamente, é o início de uma tradição”.

 

Jornalistas pautam viabilidade orçamentária

O Debate JC e TV Unesp proporcionou ainda a possibilidade de que perguntassem fossem formuladas aos candidatos por jornalistas dos dois veículos, da Auri Verde e da Rádio Unesp. Várias questões confrontavam as propostas com as possibilidades orçamentárias.

Chiara Ranieri (DEM), por exemplo, promete asfaltar 625 quadras por ano, totalizando 2.500. Para isso, ela diz que seria necessária a destinação de 3% do orçamento municipal. No entanto, o jornalista Nélson Gonçalves, do JC, lembrou que, além dos R$ 35 mil por quadra de pavimento, essas obras custam mais R$ 60 mil por conta das guias, sarjetas e galerias.

A demista respondeu, porém, que em seu plano de asfalto estão previstos também 10% do orçamento para as obras auxiliares ao pavimento e que contava com a conquista de recursos de fora para viabilizá-las. Porém, se esqueceu de citar que, caso eleita, será necessário modificar o orçamento proposto pela atual gestão.

Clodoaldo Gazzetta (PV) comentou a resposta da adversária e disse que só é possível fazer 1.000 quadras em quatro anos, dando continuidade ao projeto iniciado por Rodrigo Agostinho (PMDB), sem comprometer o investimento em outras áreas importantes.

O candidato, porém, criticou a falta de critérios que estabeleçam prioridades na pavimentação, lembrando que o Tangarás deveria ser o primeiro bairro a receber as obras por conta da contaminação por chumbo existente no solo do local.

O número de ruas de terra também foi alvo de polêmica. Chiara insiste em prometer as 2.500, apesar da administração informar que existem apenas 1.100 quadras de terra habitadas. A candidata disse que, como vereadora, recebeu documento assinado pelo prefeito que aponta quase 2.000 delas. Nesse sentido, Gazzetta disse que andou por todo o Tangarás e constatou que são 40 as quadras de terra, diferentemente das 22 informadas pela prefeitura.

Chiara também foi questionada pela jornalista Eleide Bérgamo, da Rádio Unesp, sobre a viabilidade da implantação de creches noturnas. Já Paulo Sérgio Martins (PSTU), instigado por Nivaldo José, da Auri Verde, tentou explicar como vai garantir tarifa de R$ 1,00 para o transporte coletivo. Segundo ele, a este valor, o número de pessoas que utilizam o serviço iria aumentar.


Nova estrutura

O jornalista Guilherme Tavares, da TV Unesp, questionou Clodoaldo Gazzetta (PV) sobre a criação da Secretaria Municipal de Segurança Pública e de Mobilidade Urbana, pelo fato da mesma estrutura abranger temas aparentemente tão distintos. O candidato voltou a defendê-la como instrumento para que a cidade conquiste recursos federais e estaduais para investimentos nessas áreas.

 

Gestão do DAE é criticada

Problema crônico, sentido no cotidiano dos bauruenses, a falta de água foi abordada em um “jogo de bola” entre Chiara Ranieri (DEM) e Paulo Sérgio Martins (PSTU). A demista criticou a desculpa do prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB), que alega a existência de um “gargalo no abastecimento”.

A candidata afirmou que o problema está na gestão da autarquia e citou que, como Bauru, outros municípios cresceram, mas não enfrentam o caos das torneiras secas. “Não houve planejamento. Tivemos um poço perfurado em 2010 que entrou em funcionamento só em junho deste ano. Todo este tempo de demora não tem a ver com gargalos no abastecimento”.

Paulo disse que a falta de investimento e fiscalização tem, como pano de fundo, a entrega do serviço de água para o capital privado e ainda criticou o loteamento político dos cargos da autarquia.

Ainda no campo das privatizações e terceirizações, o candidato do PSTU questionou Clodoaldo Gazzetta (PV) sobre a criação da Fundação Regional de Saúde, defendida por ele desde 2004. O verde, porém, garantiu que sua ideia para a entidade é diferente da proposta pelo atual governo.

Segundo ele, não seriam necessárias sequer contratações de funcionários ou de mão-de-obra, até mesmo para não gerar uma “relação defeituosa”, em que dois médicos fossem contratados por regimes e recebessem salários diferentes. “Propomos outro modelo. É apenas um instrumento jurídico para resolver algumas demandas, comprando serviços junto à inciativa privada, como operações de cataratas para mutirões, por exemplo”.

Gazzetta diz que sua ideia é bastante diferente da do prefeito, a quem acusou de querer entregar o gerenciamento das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) à fundação.


Meio ambiente

Por ter construído sua carreira política com a bandeira do ambientalismo, Rodrigo Agostinho (PMDB) se sentiu pressionado, durante o debate, quando viu apontadas as deficiências de sua gestão no setor.

O jornalista Nélson Gonçalves citou, além do fracasso no tratamento de esgoto, a inexistência de soluções para o depósito e tratamento do lixo, o atraso na elaboração do Plano Municipal de Resíduos Sólidos e o não-cumprimento da meta em compra de áreas para reservas florestais.

O prefeito tentou explicar o que chamou de desafios e elencou uma série de outras ações em favor do meio ambiente durante seus quase quatro anos de governo. 

 

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