Cultura

Bauru pode perder obras de Baccan

Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 5 min

Pelo menos 30 obras do pintor José Baccan, um dos artistas mais importantes na história da arte em Bauru, correm o risco de sair da cidade. Um de seus maiores colecionadores e admiradores, o engenheiro aposentado Luiz Felipe Sant’anna Filho, de 62 anos, está de mudança de Bauru para Santa Catarina e pretende partir no próximo dia 4. Como ele não pretende doá-las, e caso não consiga se desfazer das várias obras que possui, apesar do desejo de que permaneçam em Bauru, vai levá-las com ele.

As telas de Baccan datam da década de 40 ao ano de 1999. Além de Baccan, Luiz Felipe tem em seu acervo particular obras de outros pintores de Bauru, como Oswaldo Soffredini, Beatriz Papassoni, Ernani Campanelli, entre outros. Baccan ficou conhecido como “pintor das águas” pelas suas belíssimas telas que retratam o mar e rios em geral. Apesar de sua morte, em 2007, o artista permanece vivo através de sua obra, que traça os rios de nossa região.

São inúmeros quadros inspirados em rios - o Batalha e o Jaú são os prediletos. Uma de suas telas de maior destaque é uma arte sacra, “Cristo de 1939”. Outra pérola é a tela “Nações Unidas da década de 50”, obra que inaugurou a série de trabalhos feitos em homenagem a Bauru, com retratos de monumentos e espaços da cidade.

 

Pintura do povo

Luiz Felipe, que é nascido no Rio de Janeiro, mas mora em Bauru desde a década de 90, possui raridades de Baccan. São telas que retratam, em sua maioria, rios, ambientes litorâneos, fazendas e natureza. “A pintura dele é do povo, mostra bem como é o Interior, como eu conheci as fazendas, ele é fantástico”, salienta. “Eu vivi em fazendas, na beira do rio, por isso me identifico com as obras dele, fora que ele é muito conhecido, por onde você passa, todos conhecem esse artista”, ressalta Luiz Felipe, que há 30 anos coleciona quadros de Baccan. “Algumas telas dele foram pintadas com óleo diesel. Ele também passou por uma fase mais impressionista quando estava mais velho, o que dá pra perceber através de suas pinceladas”, discorre o aposentado.

Influenciado pela família, Luiz Felipe se diz admirador da arte de uma maneira geral. Seu contato artístico foi lapidado quando cursou História da Arte da PUC e quando morou em Ouro Preto (MG), onde cursou escola técnica de mineração e metalurgia. O admirador assíduo do pintor regional diz que todos os quadros do artista passaram por limpeza e processo de restauração, através do qual foram novamente enquadrados. “Eu preferia que essa coleção fosse para a Prefeitura de Bauru, para que todos tivessem possibilidade de conhecer essas telas”.

A reportagem do JC também tentou falar com familiares de Baccan em Bauru, mas não conseguiu localizá-los ontem para abordar o assunto. Informações sobre o acervo podem ser obtidas diretamente com o proprietário pelo telefone (14) 8112-1314.

 

Cultura tem interesse em telas, mas esbarra em orçamento

Em contato com a Secretaria de Cultura, o secretário municipal Elson Reis informou ao JC que tem interesse em adquirir as obras do pintor regional, mas a intenção esbarra em alguns obstáculos.

Antes, seria preciso uma avaliação do acervo de Luiz Felipe, assim como da possibilidade financeira da Prefeitura em obter tais obras. Além disso, mesmo que houvesse viabilidade por parte do município, a aquisição dessas telas é algo que seria realizado somente o ano que vem.

“Ele (Luiz Felipe) esteve aqui já faz um tempo, nos convidou para conhecer seu espaço e as obras. Ele tem um grande acervo do Baccan, mas a Prefeitura precisa avaliar a possibilidade financeira”, disse Elson.

“É logico que, para a Prefeitura, seria interessante obter este material, pois iria enriquecer o acervo que expomos na Galeria. Mas, em final de ano, a questão orçamentária é complicada. De qualquer maneira, mesmo que haja viabilidade financeira, isso é algo que ficaria para o ano que vem”, alegou o secretário.

 

Quem foi o artista

Nascido em Bariri, em 5 de junho de 1914, José Baccan passou parte de sua infância em Jaú e mudou-se para Bauru em meados da década de 1920. Autodidata, ele começou a pintar com apenas oito anos, em 1922. Aos 12, foi aprendiz do pintor Zico Andreozzi e, quatro anos depois, passou a decorar estampas e arriscar-se mais na criação de suas obras. Morreu aos 92 anos, em 2007, acometido por uma pneumonia.

Eclético, ele perseguia a riqueza de detalhes em todas suas produções. O reconhecimento do público sempre foi à altura e, nas décadas de 1940, 50 e 60, a maioria dos estabelecimentos comerciais e residências de Bauru possuíam - ou tentavam conseguir - uma obra do artista. Em 1937, Baccan fundou o 1º Salão de Pintura de Bauru, juntamente com Padovani e Gerônimo Graciano. Um de seus primeiros quadros, “Paineiras e Flores”, foi comprado em 1948 pela Prefeitura Municipal de Jaú.

Em sua trajetória, o artista plástico sempre seguiu um estilo livre de pintura, mas passou por várias fases. A década de 40 foi marcada pela natureza morta, época em que o pintor deu ênfase aos temas da natureza, ao colorido, flores e paisagens. Ao longo de sua trajetória, Baccan também passou pela fase das marinhas.

Entre os principais prêmios que Baccan recebeu, destacam-se o 4º prêmio no Salão de Belas Artes de Bauru, com a tela “Barreirinho”, em 1956; prêmio “Melhor do Ano no Setor Artístico”, em 1978; e “Prêmio Aquisição” com o quadro “Batalha Fonte d’Água”, no 2º Salão de Artes, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura. 

Comentários

Comentários