Por volta das 22h de anteontem, já em Jundiaí, o técnico Moisés Egert recebeu uma notícia que caiu como uma bomba em Bauru. O gerente de futebol João Gonçalves foi o incumbido de repassar ao treinador que a família Garcia deixava o comando do Alvirrubro, colocando um imenso ponto de interrogação no futuro do clube centenário.
A notícia, porém, não abalou o time que garantiu mais um bom resultado na Copa Paulista. Jogando fora de casa, pela segunda rodada da segunda fase, o Norusca bateu o Paulista de Jundiaí por 1 a 0 com gol de Gilsinho ainda no primeiro tempo, somou mais três pontos e se isolou na liderança do Grupo 6 com duas vitórias (ganhou do Rio Claro no Alfredão, sábado passado).
“O Moisés (Egert, técnico) foi competente e conseguiu motivar os jogadores”, destacou o gerente de futebol João Gonçalves ao microfone da Rádio Auriverde, logo após o apito final no Jaime Cintra.
O jogo, ontem, teve dois tempos distintos. Na primeira etapa, o time alvirrubro tomou conta da posse de bola e soube dominar os primeiros minutos da partida. Tanto que, aos 15 minutos, o Norusca chegou ao gol. Após erro da defesa do Paulista, Gilsinho avançou pela direita trouxe para dentro e finalizou preciso no ângulo direito. Sem chances para o goleiro Richard: 1 a 0 Norusca.
Ainda na etapa inicial, o Alvirrubro criou algumas chances, mas o placar ficou inalterado. Na volta do intervalo, o Paulista melhorou e o Noroeste diminuiu o ritmo. Antes dos cinco minutos, Bruno dos Anjos arriscou chute forte e Walter apareceu pela primeira vez para salvar o Noroeste do empate.
Vinte minutos depois, o mesmo atacante do Paulista cobra falta com precisão e exige elasticidade de Walter que mais uma vez salva o time bauruense.
A última boa chance veio quando o cronômetro marcava 40 do segundo tempo. E foi do Norusca. O lateral Ralph aproveitou lançamento, pegou de primeira, mas parou na defesa do arqueiro adversário que segurou o marcador no 1 a 0 para o Noroeste.
O volante Velicka, um dos principais jogadores deste grupo noroestino, também se posicionou ao final da partida. “(Família Garcia) era nosso único investidor e ficamos preocupados (com a saída). Mas foram adiantados os salários e não vamos ficar preocupados antes da hora. Eles garantiram que até o final da Copa Paulista estarão conosco. Agora isso (futuro do clube) é deixar para a diretoria resolver”, citou o meia também à Auriverde.
Neste clima tenso extracampo, o Noroeste volta a jogar no domingo, às 10h, mais uma vez fora de casa, só que contra o Grêmio Osasco na Grande São Paulo. Um dia antes o Paulista, que permanece com apenas um ponto ganho, joga em casa contra o Rio Claro, às 15h.
Depois da sequência longe de Bauru, o Norusca volta a atuar como mandante na Copinha em duas rodadas seguidas: contra Osasco e Paulista, dias 6 e 10, respectivamente. Nessa hora, a torcida será peça chave não só para apoiar o time em busca de mais seis pontos, mas para mostrar aos onze que entrarem em campo que não estarão sozinhos.
“Quem gosta do Noroeste, pedimos que incentive. O Noroeste tem 102 anos de história e pode dar a volta por cima”, conclui João Gonçalves.
Críticas nas redes sociais foram o estopim, garante Beto Souza
O consultor executivo do Noroeste - pelo menos até dezembro -, Beto Souza, foi contundente em suas declarações, ontem, após a vitória do Noroeste sobre o Paulista, em Jundiaí. Em declaração à rádio 87FM/Jornada Esportiva, o dirigente deixou claro que as críticas sofridas pela família Garcia nas redes socais foram a gota d’água para a saída do comando alvirrubro. “Nos últimos meses, alguns torcedores, através das redes sociais, falaram muitas besteiras. Falaram que eles (Garcia) lavavam dinheiro no Noroeste. Eles saíram e abriram mão de toda a dívida. Pelo fato de investirem, acompanhavam as redes sociais. E pensaram: ‘poxa, a gente põe R$ 400 mil por mês e é tachado de ladrão?’”, declara Souza.
O consultor enfatiza também que sua permanência no Noroeste estava atrelada à continuidade dos Garcia no comando do clube. Portanto, Souza descarta qualquer possibilidade de seguir trabalhando no Norusca e afirma que só vai permanecer o tempo necessário para ajudar na transição. “O vínculo do Noroeste comigo terminou ontem (terça-feira). Sempre falei que vim pela família Garcia e sairia com eles. Vou ficar até o final do ano e sem receber salário. Fico pela responsabilidade que tenho com os profissionais que eu trouxe. Vou ajudar o Toninho Gimenez nesta transição”, aponta.
Souza considera que a situação alvirrubra com a saída da família Garcia não é de “nau condenada” e vê boas perspectivas de adequação do clube à nova realidade. “Isso não vai ser o fim do Noroeste. É viabilizar novos caminhos. O Noroeste não tem dívidas, a dívida que tem é com a família Garcia, que abriu mão de tudo, quase R$ 20 mil. Está na hora dos empresários da cidade e da Prefeitura abraçarem o Noroeste”, prega. No entanto, Souza se colocou à disposição para contribuir no diálogo entre o clube e a família Garcia para amenizar os efeitos da transição. “Vamos ver o que é possível. De repente, aumentar o patrocínio para ajudar”, conclui.
João Gonçalves: ‘A gente implora para o pessoal de Bauru ajudar’
O gerente de futebol do Noroeste, João Gonçalves, admitiu, em entrevista à rádio Jornada Esportiva/87FM, também após a partida de ontem em Jundiaí, a situação dramática do departamento de futebol do clube após o anúncio da saída da família Garcia. Gonçalves fez um apelo aos empresários locais para investirem no clube como forma de amenizar o “terremoto” que as estruturas alvirrubras suportam neste momento. “O que precisamos é juntar forças. Por isso, a gente implora para o pessoal de Bauru ajudar. O Toninho (Gimenez, presidente em exercício), sozinho, não vai conseguir fazer nada”, define Gonçalves.
O gerente de futebol faz um prognóstico sombrio para o futuro se nada for feito. O Noroeste, reconhecido no mercado do futebol por ser bom pagador e disponibilizar boa estrutura de trabalho, poderá, segundo Gonçalves, ficar conhecido pelo motivo contrário. O dirigente fez uma comparação com o adversário de ontem. “O Paulista há quatro meses não paga. O que vai acontecer com o Noroeste é o que está acontecendo com o Paulista. Muitos jogadores simulando contusão para não jogar e jovens entrando em campo”, alerta Gonçalves.
O gerente noroestino salienta que só um entendimento com a família Garcia pode preparar o clube para a nova realidade que vai enfrentar a partir de agora, pondo em prática uma transição suave. “Toninho está fazendo tudo para reverter este quadro. Vai haver uma reunião com a diretoria da Kalunga para tentar amenizar o trauma. Vai chegar o momento que a família Garcia vai sair e não vamos conseguir no próximo centenário alguém para fazer o que o Damião Garcia fez para o Noroeste”, comenta Gonçalves.
Base é desativada e 60 garotos devem ser liberados
Não foi só o céu que amanheceu nublado na manhã de ontem na concentração das equipes de base no Complexo “Damião Garcia”. Em clima de tristeza e incertezas sobre a escuridão que paira sobre os rumos do Alvirrubro, a diretoria do time se reuniu para decidir as ações que deverão minimizar os efeitos da nova fase. Como primeira medida, o clube anunciou o corte das categorias sub-15, sub-17 e a dispensa de parte dos atletas da sub-20 - os que não possuírem contrato profissional com o Noroeste. O comunicado oficial, de acordo com o clube, deveria acontecer no final da noite de ontem ou, ainda na manhã de hoje. Isso porque o sub-20 jogou ontem à tarde pelo Paulista da categoria e, mesmo em meio ao clima de dissolução, garantiu um empate heroico diante do Santos no CT Rei Pelé, na Baixada Santista. O placar de 1 a 1 foi construído pelo Norusquinha com dois jogadores à menos. Mariano ainda perdeu um pênalti para o Alvirrubro no final do segundo tempo. Dos “heróis” de Santos, apenas os que têm contrato profissional ficam no clube.
“Sem a contrapartida da família Garcia não temos mais a receita. Entre hoje (ontem) e amanhã (hoje), infelizmente, teremos que liberá-los”, lamenta o presidente temporário Antônio Carlos Gimenez, o Toninho.
São mais de 60 garotos oriundos de diferentes cidades e Estados que moram atualmente no alojamento do clube e recebem ajuda de custo para jogarem pelo Noroeste.
“A maioria desses jogadores armadores são menores de idade e não temos como continuar assumindo esse compromisso social diante dessas incertezas sobre o próprio futuro do time”, explica o consultor executivo do time, Beto Souza.
Na reunião de ontem, além de Toninho e Beto Souza, estiveram presentes o gerente de futebol do time, João Gonçalves, e o assessor de marketing do Noroeste, Evaldo Armani.
Sonho interrompido
Mesmo sem serem comunicados oficialmente sobre o corte, vários garotos das equipes de base perambulavam cabisbaixos pelas imediações do alojamento do Noroeste na manhã de ontem.
“Será uma pena interromper o sonho desses garotos e esse trabalho que começava a gerar frutos com os dois anos de existência. Temos muitos atletas iniciantes com potencial. Alguns até já receberam propostas de outros clubes”, ressalta o técnico da equipe sub-15, Guilherme Talamoni, um dos funcionários que deve deixar o clube nesta nova fase.
Ainda segundo Toninho Gimenez, caso a situação mude e alguma empresa decida abraçar as causas do Norusca, os jogadores, que serão enviados para suas cidades de origem, poderão ser convidados a retornar.
Copa São Paulo de Futebol Júnior
Mesmo com a extinção das categorias sub-15 e sub-17 do Noroeste e a determinação de só permanecer como os atletas da sub-20 que têm contrato profissional anunciada ontem pela manhã pela diretoria, o gerente de futebol do clube, João Gonçalves, garantiu em entrevista à rádio Jornada Esportiva/87FM após a partida da equipe profissional, ontem, em Jundiaí, que o clube bauruense não vai desistir de disputar a Copa São Paulo de Juniores do próximo ano. Até porque uma desistência acarretaria em multa de R$ 20 mil. “Vamos conversar com a Semel (Secretaria Municipal de Esportes e Lazer) e ver o que podemos fazer. Da noite para o dia pode acontecer um milagre e conseguir uma parceria para a base”, torce. Sobre a dissolução do sub-15 e sub-17, Gonçalves foi direto e objetivo. “Tivemos que agir rápido porque temos jogadores alojados e podemos começar a ter dificuldade com alimentação e escola dos garotos”, destaca.