O pior analfabeto é o analfabeto
político, disse Bertold Brecht, tentando evitar uma tragédia em comunidades e nações cujos integrantes se deixassem levar pela "lábia" daqueles que pleiteassem um cargo eletivo. Desde a Grécia antiga, grandes oradores eram aqueles conseguiam dominar o povo diante do púlpito, donos que eram de habilidades as quais vendiam àqueles que quisessem dominar a técnica do bem falar, da manifestação verbal bem engendrada, que faz surgir sempre aquele comentário do eleitor: "Nossa: não entendi nada, mas como ele fala bonito". Assim os sofistas dominaram a cena democrática das pólis grega por muito tempo. Os filósofos de verdade eram mal compreendidos, uns até sendo condenados à morte por serem taxados de subversivos, ao defenderem a disseminação do conhecimento, independentemente da classe social do cidadão. A democracia grega deixava a desejar mesmo, mas já foi dito que a democracia é o menos imperfeito dos sistemas políticos.
Este analfabetismo remete ao coronelismo, ao voto de cabresto, quando até pouco tempo via-se urnas sendo manipuladas pelos donos do poder local, sem que a Justiça tivesse força suficiente para coibir estas ações, já que fazia parte desta engrenagem oligárquica vigente que sempre privilegiou os currais eleitorais. Existe uma proporção direta entre o subdesenvolvimento visto em cidades, países e até continentes com a falta de capacidade de organização da referida sociedade civil. Assim, na África, onde existem milhares de dialetos e de brigas entre as próprias tribos, o apartheid encontrou perfeito substrato para que a dominação branca pisasse sem dó sobre um povo inteiro, com as botas pesadas do racismo.
Mesmo raciocínio é usado para explicar o exato motivo de um povo vilipendiado pela guerra, humilhado num tratado entre países, pôde abraçar uma causa defendida por um demente, que dizimou milhões de judeus. Mesmo um corpo populacional diferenciado como o alemão, ao ser subjugado, perdeu seu rumo e abriu uma ferida que custa a fechar na história germânica.
Uma cidade e seus eleitores precisam se dar conta que no momento que um voto é vendido, espernear depois só faz rir aqueles que pagaram por esse voto com tratamentos dentários, pinturas de carro e etc., como é o que acontece quando um negócio é feito, com todas as partes satisfeitas. E daí o processo eleitoral fica todo comprometido, com corrompidos e corruptores dando as mãos na hora do dinheiro fácil, pago à guisa de paga a "cabos eleitorais". É preciso um basta nesta situação, que não é novidade para mais ninguém.
Os candidatos ainda se preparam não apenas para a campanha no dia a dia, no corpo a corpo, mas também para a madrugada derradeira, no sábado antes da eleição, onde cédulas teimam em aparecer por debaixo das portas supostamente desavisadas, numa prática que decresce a moral e a ética de toda uma comunidade, junto com as possibilidades de desenvolvimento deste mesmo povo, que desmereceu seu poder político em troca de favores. O ator que vence neste teatro de horrores vai deixar cair sua máscara no primeiro ato pós-eleição.
Talvez nem se perceba, mas suas intenções irão esvanecer tal e qual seu dinheiro que foi usado nesta vendetta desapropriada. Como Cirurgião-Dentista, sei do valor e dos benefícios que um tratamento dentário proporciona, mas nesse caso de compra e venda, este tratamento não presta.
O autor, Marcondes Serotini Filho, é colaborador de Opinião