Cada vez mais comuns, brigas entre usuários de crack têm preocupado a Polícia Militar de Bauru. Nesta semana, um homem de 30 anos, dependente químico, foi violentamente agredido por dois homens também viciados, que lhe roubaram a carteira com R$ 270,00.
O usuário estava na Praça Rui Barbosa e pretendia comprar drogas na noite da última terça-feira. Ao manusear a carteira, foi abordado por dois homens, que lhe pediram dinheiro. Com a negativa, eles teriam começado a agredi-lo no rosto.
O homem, bastante ferido, foi medicado e passa bem, embora ainda carregue no corpo as marcas da trágica experiência. O comportamento animalesco, quase canibal, mostra a transformação brutal que o crack é capaz de provocar na mente humana.
“É uma situação de extremo desespero e está claro que não se trata de um problema de polícia, mas de saúde pública”, relata o comandante do 4º Batalhão da Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), tenente-coronel Nelson Garcia Filho. E a ocorrência registrada nesta semana é apenas uma entre tantas.
A própria vítima de 30 anos, conforme relata sua ex-companheira, já havia sido roubada e agredida outras vezes por “colegas” usuários. “Nós vivemos juntos por seis anos e nos separamos por causa da droga. Eu tenho pena porque ele diz que quer parar, às vezes faz planos, mas não consegue”, lamenta a mulher.
De acordo com ela, o ex-companheiro vive hoje nas ruas, já que perdeu contato com a família por conta da dificuldade de se livrar do vício. “Ele diz que consegue se manter sozinho fazendo alguns serviços, mas não sei se é verdade. Ele está em uma situação bastante ruim”, pondera.
Situação limite
Esta perda de conexão com a realidade, que se agrava ao longo da evolução do processo de dependência, é o que tem levado os usuários a atitudes violência como o cometimento de crimes contra os próprios colegas. “Desta forma, eles se tornam vítimas do próprio crime que cometem nas ruas para sustentar o vício. Chegamos a uma situação limite”, reforça o tenente Lucas Freitas, comandante da Base Sul da PM.
Outro exemplo do enorme estrago provocado pelo crack foi registrado em agosto, quando um usuário foi morto com um golpe de faca dentro de casa, na Vila Industrial. Entre os suspeitos, estavam sua mãe e dois amigos que estavam com ele no imóvel, todos também dependentes químicos.
Para tentar minimizar os problemas, Garcia explica que a PM reforçou o patrulhamento preventivo em áreas consideradas críticas. Além de tentar evitar roubos entre usuários, a intenção é coibir assaltos a transeuntes, principalmente nas imediações de escolas e locais ermos da região central da cidade.
“Percebemos um aumento do número de estudantes vítimas de assalto. São usuários que roubam celulares para trocar por drogas. Então, reforçamos as rondas com Força Tática, Rocam (Ronda Ostensiva com o Apoio de Motocicleta) e Cavalaria”, frisa o comandante.
Esperança reside em casas de passagem
O avanço do crack, de fato, é um “nó” que não será desatado apenas com força policial. O poder público em todas as esferas - municipal, estadual e federal - ainda tenta encontrar um modelo eficaz de combate ao comércio, consumo e para tratamento de dependentes da droga, que provoca efeitos avassaladores no corpo e mente humanas.
Em Bauru, uma das esperanças da administração municipal reside nas duas casas de passagens que devem ser inauguradas ainda neste ano. “É mais um passo para tentar trazer estes usuários de volta à vida”, destaca a titular da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), Darlene Tendolo.
As unidades funcionarão como abrigo para que seja prestado o primeiro atendimento antes da internação em comunidade terapêutica. Uma delas será administrada pelo Esquadrão da Vida e destinada a homens e a outra, pela Comunidade Bom Pastor, para abrigar mulheres. Cada casa terá capacidade para receber até 20 pessoas, sempre acima dos 18 anos.
“Para prestar este serviço, iniciamos o trabalho de abordagem noturna nas ruas. Todas as noites as equipes conversam com estes usuários para que eles saibam que existe uma saída. É um trabalho que precisa ser feito continuamente, para estabelecer uma relação de confiança”, observa a secretária.
O município, que não dispõe de comunidade terapêutica, firma convênios com unidades de outras cidades para tratar dependentes que precisam de internação. Os demais casos são acompanhados pelo Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps/AD). Há ainda o Centro de Referência Especializado em Situação de Rua (Centro Pop), que oferece oficinas, atividades de esporte e lazer, alimentação, vestuário e atendimento psicológico a moradores de rua.