Nas mesas de boteco quando os temas do momento se esgotam e a sede ainda persiste e retarda a volta para casa papo perde encanto e se reduz a uma flácida tertúlia apta a conduzir os bovinos para os braços de Morfeu (explica-se conversa mole para boi dormir). Às vezes para animar a mesa se começa a relacionar aquelas coisas e situações que todos sabem existir, mas que raramente são vistas. Geralmente essa brincadeira estimulante começa com cabeça de bacalhau, enterro de anão, nipônico loiro, gerente aposentado de certa instituição bancária e de umas tantas outras situações impublicáveis, incluído nesse rol rua que tenha nome de algum vice (seja vice-presidente da república, vice-governador e vice-prefeito). Essa inclusão é perversa e injusta porque aparenta que o povo não considera os seus vices e nem costuma render-lhes homenagens perenes como o são os nomes de vias públicas.
Em ciência política sabe-se que o poder não convive com o vácuo exigindo que o posto vacante seja imediatamente preenchido pelo suplente que, assim, sai das penumbras da coxia para ocupar centro iluminado do palco. Até então o vice e suplente apenas conserva expectativa que só se completa com a vacância derivada da morte ou da perda de poder do titular. Enquanto isso não acontece ? às vezes não acontece nunca - o suplente incomoda aquele a quem deve substituir, porque a simples existência dele lhe traz à mente a expectativa de seu próprio fim. Em termos pessoais isso é tragédia de convivência tanto para o titular e como para o suplente e, quase sempre, explica ressentimentos, desconfortos e animosidades entre eles.
Esse quadro pessoal e institucionalmente torna-se grave porque o suplente eleito sem voto próprio quando assume o poder não possui a mesma legitimidade do titular substituído e sua primeira missão será adquiri-la rapidamente em plena crise de transição, o que nem sempre é fácil em termos de empenho e de afirmação de liderança.
Essas situações sempre carregadas de conflitos em todos os níveis de poder mostram que o suplente não pode ser qualquer um, escolhido por algum traço de afinidade ou por representar alguma expectativa de eventual agregação de força eleitoral. Deve ser pessoa muito especial, discreta, paciente, experiente e competente permanentemente preparada para assumir o posto principal quando venha a ser necessário. E, mais do que tudo isso, deve ter legitimidade própria que só se conquista pelo voto o que, no nosso sistema eleitoral distorcido que consagra eleição fechada e automática do titular e do suplente exige mudança em reforma política que o Congresso Nacional teima em adiar legislatura a legislatura, a espera de que o povo perca a paciência e atue através de iniciativa popular direta (CF. art. 14, III).
Por hora nossos candidatos a vice, porque são muito importantes, precisam aparecer mais intensamente, precisam mostrar que estão preparados e são competentes para assumir posição com diferenciada qualidade quando se fizer necessário e também para que, mesmo que não venham a assumir, pelo só fato de terem garantido a segurança de eventual transição política, possam, um dia, ser homenageados por qualidade e consideração própria inclusive com nome de rua ou algum logradouro público, merecidamente alijados do rol dos papos de boteco.
Isso será justo e será bom para nosso incipiente e defeituoso processo democrático. E para os nossos vices.
O autor, José Fernando da Silva Lopes, é advogado