Em 1207, um ano após unificar as tribos mongóis, Gengis Khan partiu para o Sul e iniciou a expansão de um império que tomaria praticamente toda a Ásia, chegando até a Europa. Sob seu comando e de seus sucessores, o povo nômade, com extrema habilidade no arco e acostumado à vida dura das estepes, sobrepujou todos os inimigos e o domínio mongol formou o maior império com terras contínuas da história. 805 anos depois, a Mongólia de hoje não tem mais imperadores. Após ficar sob influência da China e Rússia, é uma república parlamentarista e a religião dominante é o Budismo. Porém, ainda guarda alguns traços daquela terra de onde partiu o “Khan dos Khans” para conquistar o mundo. Sobretudo no interior, o estilo nômade de vida prevalece e o país tem vastidões desabitadas, as estepes áridas e frias. Com uma população de 2,9 milhões de pessoas, é considerado o país independente com menor densidade demográfica do mundo.
A capital é Ulan Bator, onde vivem cerca de 38% da população do país. E foi para lá que partiu um piratininguense, Felipe Beghini, para fazer o caminho inverso de Gengis Khan e conquistar a Mongólia. Porém, não se trata de nenhum guerreiro implacável. Não no sentido literal da palavra. O atacante Beghini conquistou os torcedores de futebol mongóis. Sim, existe futebol na Mongólia e o atleta conquistou pelo menos os aficionados pelo Xachuleguud, clube da capital, no qual chegou há dois meses e se destacou a tal ponto de virar referência do time. Não é exagero dizer que a chegada de Beghini mudou a equipe.
A Mongólia surgiu na vida de Beghini no momento em que o jogador estava providenciando sua dupla cidadania - é descendente de portugueses -, pois tinha uma possibilidade de transferência para o futebol italiano. Quem explica é o irmão Vinícius. “Ele estava esperando o contato de um empresário que poderia levá-lo para a Itália. Porém, outro empresário fez contato com o pessoal de Piratininga, que indicou o Felipe. A proposta era consistente e em cerca de dez dias ele acertou”, observa. Antes, porém, a família tratou de conhecer o destino de Beghini. “Pesquisamos na internet sobre o país e vimos que a capital é desenvolvida e tem boa estrutura”, aponta.
Com um inverno que tem temperaturas negativas de 30, 40 graus, os campeonatos de futebol mongóis são disputados praticamente apenas no verão e têm duração média de dois meses. “O nível dos times não é muito bom, os times sem estrangeiros não são bons. Não tem muita técnica, é muita força e correria. Uns quatro times têm bom nível”, define Beghini. O brasileiro destoou dos jogadores locais quando, após o treino habitual, praticava cobranças de falta e fundamentos.
O resultado da contratação de Beghini veio rápido e o Xachuleguud, que nunca havia ficado entre os primeiros do futebol mongol, cresceu em campo e chegou à sua primeira final da Copa da Mongólia. E por pouco não fica com o título. “O campeonato teve dez times, que disputaram dois grupos de cinco, classificando-se os dois primeiros de cada chave para a semifinal em um jogo. A final também é em apenas um jogo. Ganhamos dois jogos, empatamos um e perdemos outro na primeira fase. Avançamos em segundo lugar e pegamos o primeiro do outro grupo. Ganhamos a semifinal por 4 a 1, com dois gols meus, e perdemos a final nos pênaltis por 5 a 4, após empate em 1 a 1 no tempo normal. Joguei quatro jogos na Copa Mongólia, fiz sete gols e dei muito passes para gols”, festeja o atacante que falou com a reportagem do JC por e-mail.
Beghini explica que a inédita final trouxe outros ganhos ao Xachuleguud. “As equipes que chegam à final da Copa Mongólia ganham vaga para a Supercopa, que é um jogo só. Quem ganhar vai para a pré-Copa Asiática, que é definida em dois jogos contra equipe de outro país. Quem vencer garante vaga na fase de grupos da Copa Asiática, tipo Libertadores deles aqui”, discorre.
Andarilho da bola
Filho de um ex-goleiro, Beghini alimenta o sonho de ser jogador desde pequeno. O irmão Vinícius relata que o atacante não mede esforços para jogar futebol. “A vida dele é isso. Com 14 anos, ele já ia para São Paulo sozinho para fazer testes no São Paulo, Palmeiras. Ele nunca passou por falta de um nome forte, um empresário. Sempre jogou o campeonato amador de Piratininga e Bauru, Jogos Abertos e Regionais, e também jogou futsal na FIB”, revela.
A chance de atuar profissionalmente veio no futebol do Centro-Oeste brasileiro. “Ele teve a oportunidade de se profissionalizar no Mato Grosso, na segunda divisão. E foi sem nem acertar a questão de salário, para ser uma vitrine mesmo. Disputou o campeonato, mas o time não tinha estrutura para mantê-lo e ele voltou. No ano seguinte, foi para o Mato Grosso do Sul. A seguir, tentou ir para o futebol boliviano, em Santa Cruz de la Sierra. Viajou no trem da morte e tudo. Quando chegou lá, justamente naquele ano, fizeram uma regra que não permitia estrangeiros nos campeonatos. Aí, ele voltou”, narra Vinícius.
Porém, as aventuras não pararam por aí. No ano seguinte, uma experiência dura até mesmo para o já experiente Beghini. “Ele foi jogar em um time do sertão da Bahia. Não tinha nenhuma estrutura. Lá foi o pior lugar por onde passou. Dormia do lado de um curtume, tinha rato e não tinha água. Fica onde estão fazendo a transposição do Rio São Francisco. Havia dias em que tinha um pouco de água e tinha que tomar banho em 30 segundos. Faltava comida e a rádio da cidade pedia para a população doar para os jogadores do time. Ele disputou o campeonato todo lá assim mesmo e só voltou quando não tinha mais jeito”, lembra Vinícius.
Na Mongólia, a situação é bem diferente e Beghini conta com boa infraestrutura para trabalhar. “O pessoal deu um apartamento só para ele e disponibilizou um tradutor e um guia, que o leva para passear nas folgas”, conta Vinícius. “Mas é uma realidade diferente do que a gente vê mesmo no Brasil em uma equipe de segunda ou terceira divisão. Lá, ele ganha um pouco menos, mas o que vale é a experiência”, considera o irmão.
Que língua é essa?
O choque de quem sai de um país nos trópicos, com natureza exuberante, para uma terra no coração da Ásia, com clima severo, é óbvio. Além do mais, a Mongólia se transforma quase em outro planeta quando comparadas questões culturais e religiosas. Porém, a adaptação foi facilitada pelo convívio com outro brasileiro, que está lá há dez anos e também joga futebol, mas em outro time: Jardel. O primeiro e maior empecilho para a adaptação é o idioma mongol. “A língua, ele (Beghini) realmente falou que não dá para entender nada”, comenta Vinícius. “O Jardel mora lá há dez anos e demorou cinco para conseguir falar. O pessoal se comunica mais em inglês”, acrescenta. Porém, as dificuldades são superadas com a boa receptividade encontrada no país oriental. De acordo com o jogador, o povo é muito hospitaleiro e simpático.
Na alimentação, apenas uma queixa: falta o feijãozinho brasileiro. “A comida deles é boa, mas com muito óleo, tipo um pastel aí no Brasil. E tudo que eles bebem é quente por causa do clima frio. Eu vou muito à casa do Jardel e, de vez em quando, ele consegue algum feijão para a gente comer. Mas o time me dá o dinheiro para comprar comida e eu cozinho no apartamento”, conclui.