Fui a um comício, coisa que não fazia há décadas. Antes disso, conversava com uma colega de trabalho sobre a origem dessa palavra. Meu faro etimológico desconfiava das raízes de cômico, comicidade, comédia. Mas que nada! Comício vem do latim comitium que, empregado no plural, comitia, designava as próprias assembleias, subdivididas em diversas seções, nas quais os cidadãos da antiga Roma republicana discutiam e votavam as leis. Era uma espécie de congresso ou parlamento popular, mas com uma diferença: curiosamente não havia representantes, pois cada cidadão, de forma mais direta e democrática, opinava e votava as leis ou para os cargos de gestão pública. Tirando mais pela raiz, comitium quer dizer "lugar aonde todos vão juntos" . É formada pelo prefixo com/con (companheiro, conjunto,contrato etc) mais ire,itum (ir); verbo de raiz indo-europeia,cuja partícula significativa jaz em muitas palavras do português moderno, como ir, itinerário, circuito, súbito,iniciar, etc.
Tá, mas o que isso tem a ver com as crianças? É que fui a um comício e levei, no melhor estilo da Roma antiga, toda a família. Não participamos de discussões e nem decidimos nada. E surpreendentemente percebemos uma quantidade considerável de crianças e adolescentes que não foram sozinhos, mas acompanhados de seus pais, não obstante o castigo da noite gelada. E foi curioso notar, ao final do discurso, o candidato cercado pela garotada. Num determinado momento pensei que ele se havia dissolvido entre os pequenos e empolgados torcedores. Depois, ressurgiu lá na frente, e um coro de vozes infantis repetia o seu nome. Não era coisa ensaiada, não! Sei lá, parece que a infância têm uma curiosa intuição. Lembrei-me de um trecho de O Pequeno Príncipe: Só as crianças sabem o que procuram.
Ao contrário de concorrentes que não conseguem ocultar a sequidão supliciosa do poder e, ingenuamente, só para ficarem bem na fita da campanha, pensam que o povo não percebe quando eles oportunisticamente beijam crianças que nunca viram, apertam mãos para as quais nunca acenaram, abraçam idosos com quem nunca falaram, sorriem para quem não conhecem, entram em casas pobres, transitam por bairros onde jamais passaram (no melhor estilo Odorico Paraguaçu, ? aquele que limpava as mãos no lenço depois de apertar as do eleitor), esse candidato tem uma empatia muito grande com as crianças, e elas com ele. A responsabilidade dele, agora, parece ser ainda maior: corresponder a esse amor de natureza tão genuína e espontânea. "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas" é a frase mais citada de Antoine de Saint-Exupéry, o autor de O Pequeno Príncipe.
Nivaldo Aranda - Profissão: professor