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46 anos de Che Guevara em Bauru

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 8 min

 

Praça Machado de Mello, transcorria o ano de 1966. Che Guevara desembarca na Estação da Noroeste e se hospeda em um hotel em frente. Tem história que quanto mais se escarafuncha mais enigmática ela se apresenta. A passagem de Che Guevara por Bauru em 1966 é uma dessas candidatas a enigma. Fale bem ou fale mal de Ernesto Che Guevara, o mito sobreviveu à passagem do tempo. São 45 anos de sua morte em 9 de outubro de 1967. 

 

Che está vivo no imaginário das pessoas. O guerrilheiro reaparece na praça Machado de Mello. Notícias dão conta que pernoitou no Hotel Cariani, de frente para o prédio da Estação Ferroviária. Che caminhou 80 passos, adentrou ao hall principal da estação e partiu de Bauru para escrever mais um episódio épico do “guerrilheiro romântico”. Preso pelo exercido boliviano em 8 de outubro de 1967, Che foi executado no dia seguinte. 

 

O memorialista Antonio Pedroso Júnior reafirma as informações obtidas de que Che chegou a Bauru vindo com o trem noturno da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Pedroso descreve que o guerrilheiro veio de São Paulo a Bauru, pernoitou no Hotel Cariani, de frente para a estação. Embarcou no dia seguinte no trem Bauru-Corumbá, o Trem do Pantanal, seguindo na conexão denominada “Trem da Morte” para comandar a guerrilha na Bolívia.

 

 

 

Pesquisas

 

Conforme as pesquisas de Pedroso, José Luiz Del Hoyo, que integrou a Ação Libertadora Nacional (ALN), teve contato com as pessoas que embarcaram com Che ainda na Estação da Luz rumo a Bauru.

 

Alguém manteve contato com Che em Bauru? Segundo apurou Pedroso, em uma estação próxima, podendo ser na cidade de Pederneiras, os acompanhantes de Che desceram e duas pessoas embarcaram com a missão de trazer Che até Bauru e zelar para que embarcasse rumo à Bolívia. Para Pedroso, o que deixa muitas dúvidas é que as duas pessoas que assumiram Che em Bauru eram figuras carimbadas. Facilmente seriam reconhecidas desfilando com Che na Praça Machado de Mello, centro nervoso da cidade na época.

 

Em visita ao Hotel Cariani, no número 1-2 da Machado de Mello é possível imaginar Che subindo a escadaria de madeira que dá acesso ao andar superior do hotel, que a recepcionista Eliane Correa Leal comenta ter sido inaugurado há 113 anos. 

 

O Cariani da época era um complexo hoteleiro abarcando inclusive a área em que atualmente funciona o Hotel Ferreira Neto, na quadra 2 da avenida Rodrigues Alves. Atualmente, os espaços são independentes porém ainda é possível acessar os fundos com uma área comum ao ar livre. O gerente do Cariani Alcides Fernandes consulta Eliane sobre quem seria Che Guevara. “É aquele moreno bonitão”, arremata Eliane. 

 

Repressão abre ‘arquivo no Brasil’

Quem trouxe à tona a passagem de Che Guevara por Bauru rumo à Bolívia foi o então ministro dos Direitos Humanos Paulo de Tarso Vannuchi, durante uma palestra proferida em Bauru no dia 19 de julho de 2010. Na última sexta-feira, o ministro fez novas revelações ao JC de descobertas após a repercussão da sua palestra em Bauru. A novidade agora apresentada pelo ex-ministro dos Direitos Humanos é de uma série de documentos que podem revelar o passo a passo de Che no Brasil monitorado pelos serviços de inteligência brasileiro da época. 

 

Vannuchi explica de que se trata de relatos do serviço de inteligência brasileiro monitorando o guerrilheiro. “No primeiro exame do material viam peças do serviço de informação rastreando a passagem do Che Guevara pelo Brasil”, descreve. São informes que mostram o trabalho da repressão política no Brasil.

 

Os arquivos da inteligência brasileira sobre Che integram o acervo do  Memórias Reveladas, baseado no Rio de Janeiro. Vannuchi detalha que é um volume “extra” de cerca de 40 caixas de arquivos encontradas pela Aeronáutica e remetidos ao governo muito depois a uma determinação oficial da então ministra da Casa Civil Dilma Rousseff, atualmente presidente da República. A solicitação da então ministra data de 2006. Somente entre 2009-2010 foi providenciada a remessa dos arquivos da inteligência brasileira sobre Che no Brasil, comenta o ex-ministro. Vannuchi atribui importância menor à demora e volta os holofotes para o valor dos documentos em fase de análise de técnicos.

 

O episódio da passagem de Che por Bauru foi confirmado por Vannuchi em 1987 durante um encontro em Cuba com Pombo, coronel do exército cubano. Ele acompanhou Che ainda muito jovem em Sierra Maestra até próximo da captura do guerrilheiro em Quebrada del Yuro, na Bolívia, fato regis trado como ocorrido no dia 8 de outubro de 1967. O ex-ministro do governo Lula relembra que durante a palestra, em Havana, Cuba, Pombo relatou que, nos últimos dias com Che, eles estavam com diarreia resistente causada pela nutrição precária. “Ele disse: ‘a gente só comia uma coisa que lá no Brasil eles comem muito’. 

 

Ele descreveu e eu sabia que era o palmito”, comenta. Na avaliação de Vannuchi, os guerrilheiros estariam debilitados. Na conversa, Pombo descreveu ao ex-ministro os deslocamentos de Che e seus colaboradores mais próximos. “Ele falou da cidade de Bauru. Fomos em um trem até Bauru e depois pegamos um outro trem”, frisa com segurança Vannuchi.

 

Caça aos comunistas: quem vigia quem 

 

A Cia era a instituição norte-americana que monitorava Che Guevara por onde o guerrilheiro passava. Che não tinha uma atuação solitária como se possa imaginar. Era acompanhado por um grupo coeso e que abria caminho e limpava rastros.

 

O memorialista Antonio Pedroso Júnior salienta que a estrada de ferro, no entroncamento de Bauru, foi muito utilizada por militantes de todos os matizes no momento da dispersão da luta armada, no início dos anos 1970, para buscar exílio político em outros países. 

 

Pedroso esclarece que tanto os integrantes da repressão quanto o pessoal da esquerda travavam uma luta também no campo da informação. Ele relembra que o Serviço Reservado da Rede Ferroviária Federal (RFFSA) era comandado por um coronel do Exército trazido a Bauru para organizar o sistema de monitoramento da repressão. Em seu livro, “Márcio – o guerrilheiro”, Pedroso recupera a forma como a repressão do regime militar obtinha informações das ações de quem lutou contra o regime militar.

 

 

Faces de Che

 

O moreno bonitão que se encaixa no imaginário da recepcionista Eliane Correa Leal certamente não circulou por Bauru como a imagem do ‘guerrilheiro heroico”. Desde sua saída de Cuba, em 1964, para pulverizar os ideias de mudança com a revolução, Che Guevara se camuflou em disfarces e apresentou documentos com identidades diversas para ludibriar o pessoal da Cia – serviço de inteligência norte-americano –, que rastreava suas andanças. A ideia que se tem sobre como pareceria o Che que cruzou a Machado de Mello é uma incógnita. 

 

Pedroso confirma a história que circula entre os integrantes dos movimentos de esquerda no Brasil de que Che ficou hospedado no Hotel Piratininga, em frente à sede do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), em São Paulo. O Piratininga era o lugar mais seguro porque os agentes da repressão não iriam imaginar que o pessoal que fugia da polícia naquela época teria a audácia de permanecer debaixo das barbas do Dops. O hotel muito próximo da Estação da Luz facilitava a logística, como o Hotel Cariani em relação à Estação da Noroeste.  

 

Funk do ‘Guevara’

 

“É um jogador de futebol”’, chuta o jovem estudante do ensino técnico Aldinei Augusto Silva, 17 anos, ao responder se sabe quem foi Che Guevara. Aldinei relaciona o nome ao pop star Che Guevara. Para não ficar mal na roda de amigos estudantes como ele do Senai, o jovem saca seu celular e solta um dos seus hits prediletos: “Nunca vendeu maconha - Gosto mais do que lasanha 2”, composição do MC Daleste. Che é citado na letra ao lado do cantor e compositor jamaicano Bob Marley e de uma série de celebridades.

 

Che já está diluído na cultura de massa de tal maneira que sua mera citação na letra do funk  fez Aldinei relacionar a música ao personagem. O grupo de amigos aguardava na Praça Machado de Mello o ônibus para Agudos, onde grande parte reside. Jorge Inácio relembra de Che pela imagem estampada em uma camisa que comprou para ir a uma manifestação em Bauru com os primos.

 

 

“Che S/A”

 

Como pensar algo mais universal do que uma nota de 1 dólar com o rosto de Che.  A imagem que milhões no mundo cultuam, inclusive o jovem Jorge Inácio que sai com cara de Che estampada em seu peito sem ao menos saber seu real significado, forneceu o mito ao mundo capitalista. Che é uma marca. Dá lucro em qualquer plataforma. Está muito vivo nas estratégias de marketing e venda de diversas empresas. 

 

O click do cubano Alberto Korda registrou para a projeção a imagem do rosto de Che, em um flagrante de 5 de março de 1960, durante um funeral público em Havana. Com um corte verticalizado na foto, surge a imagem imortalizada “guerrilheiro heroico”. 

 

O cinema documentário tenta decifrar o fenômeno pop  “Che Guevara” com o filme “Chevolution”. O guerrilheiro ainda foi às telas no longa-metragem “Che”. Antes Diários de Motocicleta, de 2003, apresentou uma ficção em que um jovem médico idealista vaga nos confins da América Latina. As iniciativas de desconstrução do mito em torno da figura de Che acabam por elevar o revolucionário na tentativa de desvelar um personagem facínora – como no livro “O verdadeiro Che Guevara”, de Humberto Fontova, e o documentário “Guevara: anatomia de um mito”, de Pedro Corzo.

 

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