O Brasil é um dos poucos países onde há eleição a cada dois anos. É muita coisa. Nada contra o sagrado direito de o cidadão escolher seus representantes. O problema é que os políticos pensam "só naquilo" e se esquecem de que existem questões que exigem atitudes de fundo e que ninguém quer enfrentar, com medo da repercussão nas urnas. A Educação, por exemplo, todos nós sabemos que é ruim no país. O analfabetismo funcional atinge até mesmo aqueles que se propõem a nos representar no Legislativo. Se as eleições fossem gerais, de cinco em cinco anos para eleger de vereador a presidente da República, os detentores de mandatos teriam mais tempo para se debruçarem sobre os interesses coletivos. As atuais regras obrigam quem tem mandato a ajudar o amigo para que a recíproca se faça verdadeira depois de dois anos.
O excesso de eleições é ainda agravado pelo voto obrigatório. Um número expressivo de eleitores comparece às urnas sem saber em quem votar e apenas para não sofrer sanções da Justiça Eleitoral. O funcionário público, por exemplo, corre o risco de não receber o salário se não comprovar que compareceu à urna ou procurou se justificar. É inconcebível o Estado nos impor o que fazer, fora da legislação necessária para manter a ordem e assegurar a paz social. Pelo menos no Brasil é assim. Do ponto de vista coletivo, o indivíduo tem obrigações sociais. É uma verdade. Ao se omitir, ele compromete todo o grupo. Quem não vota, depois não pode se queixar da presença de um corrupto no poder. É o cumprimento do dever cívico do voto que assegura direito, ainda que um dos princípios da democracia seja garantir direitos aos indivíduos para que eles possam exercer seus deveres.
Também é verdade que o país ainda não atingiu um estágio de amadurecimento político que lhe permita abrir mão deste instrumento de igualitarismo. O voto opcional facilitaria a tomada de poder por grupos melhor estruturados e por agremiações políticas com mais dinheiro, que nem sempre contemplam os interesses da maioria. Os partidos são responsabilizados por não exigirem o mínimo preparo dos seus candidatos. As aparições na televisão são tão rápidas que os postulantes sequer precisam ter um nome patronímico. São nomeados pelo setor de prestação de serviços, como o "Zé das Galinhas". O "Joãozinho Sem-braço" explora o seu próprio prejuízo físico. Esse folclore faz parte de uma cultura universal do humor popular, defendida pelo filósofo russo Mikhail Bakhtin, morto em 1975. Ele desenvolveu uma teoria da carnavalização baseada em reflexões sobre a alegria com que são recebidos os candidatos "estranhos". Seguindo o seu pensamento, esta inversão de papéis é essencial para a renovação do mundo. O princípio carnavalesco bakhtiniano explicaria a eleição de Tiririca, e de outros alienígenas, como uma contribuição popular para o aperfeiçoamento da igualdade social.
Quem sabe a guerra dos cavaletes eleitorais - uma novidade das eleições municipais -, apetrechos sujeitos ao vandalismo por parte daqueles que não concordam com invasões do espaço público, seja um exercício político muito mais importante do que um simples ato de votar. Lamenta-se o desaparecimento de brindes de utilidade como as camisetas, broches e bonés. Quando candidato a deputado, Faria Lima bolou um santinho com linhas pontuadas no verso. Dobrado o papel no reticulado resultava num "aviãozinho" planador. Falta de originalidade aos candidatos. Sabem conjugar o verbo "fazer". Só. Todos querem honrar compromissos. O cidadão deveria ter direito de "desvotar". Como se devolvesse um bem adquirido por pressão persuasória de uma propaganda enganosa. É assim que acontece com as empresas, sujeitas a processos indenizatórios pela falta de cumprimento do que prometem na publicidade.
O general romano Quinto Túlio, em 64 a.C. recomendava ao irmão Marco Túlio Cícero, grande tribuno e candidato ao Senado: "Para seduzir os indecisos,faz pequenos favores. Desperte esperanças, faz acreditar que ajudarás sempre". Após lembrar que "favores, esperanças e relações pessoais "garantem votos", o general sugere buscar "as pessoas chaves" em cada povoado. "Reconhecer a diferença entre úteis e inúteis evitará investir tempo e recursos em quem seja de pouca ajuda". Lá se vão mais de dois mil anos e, pelo jeito, nada mudou.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC