Eufórico com o resultado nas urnas, com rosto cansado, barba por fazer, já de volta com calça jeans e botina – ele votou de terno preto com gravata vermelha às 8h30 no colégio Ernesto Monte, ao lado da Prefeitura de Bauru, no Altos da Cidade – o jovem prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) chegou ontem à noite ao local de apuração instalado pela 23ª Zona Eleitoral, na rua Antonio Alves. Agradeceu pelos votos, não escondeu que esperava a vitória avassaladora que as urnas confirmaram (não perdeu em nenhuma seção eleitoral) e já antecipou que não vai esperar janeiro chegar para fazer mudanças em seu governo. Agostinho não falou, mas áreas como o Departamento de Água e Esgoto (DAE) e Secretaria Municipal do Planejamento (Seplan) são tidas como certas na lista de alterações.
Na entrevista ao JC, mesmo em meio ao tumulto natural da vitória, ontem à noite, Rodrigo revelou que sua maior preocupação para o próximo mandato é resolver a dívidas de algumas centenas de milhões da Companhia de Habitação Popular de Bauru (Cohab). A dívida já em fase de execução na Justiça Federal é obstáculo capaz de bloquear investimentos de fora e literalmente parar a capacidade da Prefeitura de Bauru realizar ações de infraestrutura.
Para isso, Agostinho não descarta, inclusive, discutir o parcelamento de todo o montante já em execução da dívida da Cohab pelo FGTS ainda neste mandato, com a atual Câmara. “Apenas nos últimos dois anos, em razão do parcelamento da dívida da Cohab não ter tido solução, a dívida só com juros do montante cobrado pelo FGTS aumentou R$ 69 milhões. Isso é muito grave e precisa ser estancado, senão a cidade para”, disse.
Na próxima semana, reeleito e livre da disputa pelo segundo turno, Agostinho vai a São Paulo discutir com a Secretaria Estadual de Saúde a solução, ou a alternativa momentânea, para a crise nas vagas para internação hospitalar em Bauru. Este é o espinho imediato. Depois, espera, ainda neste mês de outubro, que o Governo Federal transforme em presente de gestão o que foi dito na campanha: “Espero a confirmação de uns R$ 80 milhões de verba a fundo perdido para resolver o problema do tratamento de esgoto. Isso vai ser definido ainda neste mês em Brasília (DF) e estou com muita esperança”, contou.
Rodrigo Agostinho contou que deve parar para descansar um pouco somente no feriado, no final de semana de 12 de outubro. Leia a entrevista do prefeito reeleito ao JC:
Jornal da Cidade – Surpreso com a vitória esmagadora, com 82% dos votos válidos?
Rodrigo Agostinho – Estou muito feliz com o resultado. A população entendeu que trabalhamos muito e agradeço muito a confiança nas urnas. O resultado de 82% dos votos aumenta e muito a responsabilidade e sei que também aumenta muito a cobrança. Teremos muito o que fazer nos próximos quatro anos, por isso não podemos parar, tenho de começar a resolver problemas desde agora. Grande parte da votação é fruto do trabalho, a população viu as obras espalhadas pela cidade. E não foi fácil, porque a Prefeitura ainda tem uma dívida enorme de mais de R$ 250 milhões só da parte consolidada. E tem outras tantas dívidas que tem de reescalonar e pagar.
JC – A capacidade de investimento preocupa?
Rodrigo – A capacidade de investimento para 2013 é de apenas R$ 28 milhões. A cidade tem de discutir sua arrecadação para melhorar sua capacidade de dar respostas para as enormes demandas. Eu vou precisar continuar a dialogar muito, e com todos, vou precisar do governo do Estado, do deputado estadual Pedro Tobias, do governo federal. A cidade precisa entender que o processo de retomada de crescimento está em curso, mas ainda há muito a fazer e poucos recursos próprios. A cidade vai precisar continuar recebendo grandes obras e para isso precisa também da bancada paulista em Brasília. Foi uma eleição com vários debates e meu tempo de TV com ampla aliança me permitiu tudo o que pode ser feito e o que há por fazer.
JC – Por que as crises envolvendo abastecimento de água, a greve no transporte coletivo e a demanda por internação hospitalar não te afetaram na eleição?
Agostinho – Acho que conseguimos mostrar que mesmo com as crises nós não paramos de trabalhar. Na greve do transporte coletivo eu fui pessoalmente a Campinas e obtive liminar. No DAE, investimos em poços, rede e investi dinheiro na autarquia para reverter o quadro. E na saúde, o eleitor conseguiu discernir que estamos atuando para melhorar a rede, que há muito a fazer e que a internação precisa e será resolvida com diálogo junto com o governo do Estado.
JC – O PMDB se fortalece e como vai reconfigurar seu governo com 13 na bancada e cinco eleitos só na coligação principal?
Agostinho – Esperávamos o resultado do PMDB com boa votação. O partido se reestruturou e vou continuar dialogando com a Câmara, mesmo eu tendo agora a maioria. Vou continuar discutindo com a sociedade. Alguns nomes novos chegam com vontade de trabalhar. O Sandro Bussola já conhece a Câmara, trabalhou como assessor do vereador Batata, o Fábio Manfrinato tem atuação na assessoria da Emdurb e é mito carismático e já assumiu como suplente e a Telma Gobbi mostra muita vontade de trabalhar e isso é bom.
JC – Você já avisou que vai realizar mudanças no governo, onde e quando?
Agostinho – O governo vai mudar sim, vou fazer mudanças, mas não será correndo. Vou fazer isso com calma, dialogar antes. Vou analisar o grupo que venceu comigo a eleição, a nova configuração da Câmara. Mas não vou esperar o próximo ano para mudar. Vou analisar isso agora e realizar as mudanças que for preciso de forma natural. Pode ser que no mês de outubro a gente já comece a anunciar as modificações que serão necessárias fazer.
JC – Qual seu maior obstáculo para a próxima gestão?
Agostinho – A questão da Cohab é o principal problema, não só para o governo mas para toda a cidade. Uma enorme parcela da sociedade ainda não entendeu que esse problema é grave e tem de ser resolvido. É uma tema difícil, porque tem discussão sobre contratos antigos. Mas a verdade é que tem de resolver, senão a cidade para. Só nos dois anos e pouco em que o reescalonamento da dívida com o FGTS não avançou a dívida aumentou mais R$ 69 milhões só em juros. E isso precisa ser estancado urgente. Vou discutir isso desde já com a Câmara e é um problema seríssimo que a cidade tem de resolver. A dívida da Cohab pode inviabilizar a cidade e o recebimento de recursos. As pessoas ainda não entenderam a gravidade disso. A médio prazo a Cohab tem R$ 500 milhões a receber e R$ 700 milhões a pagar. Mas tem de pagar o que está a curto prazo e é bastante, de mais de R$ 200 milhões.