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Propostas dos prefeitáveis para a mobilidade urbana

Archimedes Azevedo Raia Jr.
| Tempo de leitura: 3 min

O Jornal da Cidade, por meio de uma iniciativa louvável - desafios para o próximo prefeito -, ofereceu espaço para que os candidatos apresentassem suas propostas de governo em Bauru. Com isso, pode-se ter uma noção das principais preocupações sobre os diversos temas, inclusive a mobilidade urbana. Durante a campanha, nada muito diferente foi apresentado. É sabido e sobejamente apresentada cotidianamente pela mídia bauruense, a problemática da mobilidade urbana local. São congestionamentos que crescem celeremente; falta crônica de estacionamentos; transporte coletivo de qualidade bastante duvidosa; passeios e calçadas irregulares, em arborização e em desrespeito à Lei da Acessibilidade; ciclovias que ligam nada a lugar nenhum etc.

Apesar deste quadro calamitoso, construído ao longo das últimas décadas, o problema da mobilidade urbana parece não sensibilizar os políticos, apesar da Lei da Mobilidade Sustentável ter entrado em vigor em abril passado. Essa Lei apregoa que deva ser dada prioridade ao transporte coletivo e modos não motorizados (a pé e bicicleta). Recursos do Ministério das Cidades e PAC da Mobilidade só serão direcionados a projetos que contemplem estes requisitos.

A julgar pelas propostas apresentadas pelos candidatos, ficou evidenciada uma grande preocupação com a abertura de novas vias, duplicações, ligações entre bairros, asfaltamento aqui e acolá etc. Apenas um candidato disse que iria "criar a cultura de ciclovias no município como instrumento alternativo e ecologicamente correto de mobilidade urbana e lazer (...)". Ele também prometeu "implantar até 2015 ações efetivas para o funcionamento do VLT (Veículos Leves sobre Trilhos), utilizando uma parte da rede férrea instalada no município".

É preciso pensar, refletir e debater a mobilidade urbana com a sociedade de maneira séria e madura. Ações isoladas e fora do contexto de um abrangente e adequado programa de mobilidade urbana não conduzirão a resultados satisfatórios. "Criar a Secretaria de Mobilidade Urbana e Segurança Pública" parece ser igualmente falacioso. Mobilidade urbana pouco tem a ver com segurança pública; além do mais, a Emdurb já existe para planejar, implantar e operacionalizar a mobilidade urbana sustentável. Só é preciso estruturá-la de modo eficiente e eficaz.

O sistema de transporte coletivo por ônibus, além de ser mais barato, tem ainda muito a melhorar e oferecer. É preciso dispor de corredores exclusivos com a circulação de veículos de alta capacidade, com ônbius articulados e bi-articulados, com piso baixo, ar-condicionado, controle eletrônico de horários, sistemas troncais e linhas alimentadoras etc. VLT em curto e médio prazos é um equivoco. Ele é caro e requer corredores com demanda muito superior ao existente na cidade.

Entende-se, ainda, que os trilhos da ferrovia deveriam dar lugar a um corredor de transporte coletivo de alta capacidade, ligando as zonas oeste e leste, além de um parque linear margeando o corredor como opção de azer. São ações que fizeram muito sucesso em Curitiba, Bogotá e Seul. É fato que o Brasil retornará com as ferrovias de maneira racional e econômica em um futuro não tão distante. Porém, quando isto acontecer, uma nova configuração será dada ao traçado urbano que, certamente, passará fora das regiões centrais das cidades.

Enfim, considerando-se apenas o que foi dito até agora pelos candidatos a prefeito de Bauru, pode-se esperar uma mobilidade urbana bastante nebulosa, em total não conformidade com a Lei da Mobilidade Sustentável. Políticas públicas adequadas de mobilidade urbana tem melhorado substancioalmente a qualidade de vida em muitas cidades americanas e europeias. Falta vontade política no Brasil.


O autor, Archimedes Azevedo Raia Jr., é engenheiro, mestre e doutor em Engenharia de Transportes pela USP, professor, pesquisador, coordenador do Núcleo de Estudos em Trânsito, Transportes e Logística da UFSCar. Diretor de Engenharia da Assenag-Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bauru. E-mail: raiajr@ufscar.br.

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