Desde os primórdios tempos da Humanidade, quando "o homem foi descendo do galho", se organizando em grupo, formando parcerias e sociabilidade, teve a necessidade de se organizar. Inicialmente, os mais velhos orientavam as atividades Havia um respeito hierárquico, não pela força brutal, mas pela vivência. Os mais velhos eram respeitados e mantidos como referência na tribo. Depois, à medida que o homem foi conquistando a terra, cercou-a, colocou um policiamento, fez suas próprias leis, mantendo ou castigando quem não obedecesse. Foi necessário criar o Estado, que era o árbitro dessa humanidade. Tinha, no início, a responsabilidade de proteger os "peixinhos pequenos dos grandes tubarões" (Leviatã). O Estado nasceu como uma necessidade e serviu principalmente aos interesses dos mais poderosos, pois esses diretamente é que o mantinham.
Na Idade Clássica Antiga o poder ficou nas mãos da classe hegemonicamente favorecida: a realeza. Os escravos ficaram à margem da sociedade civilizadamente organizada. Mesmo a Grécia, o "berço" da democracia ocidental, marginalizou os pobres. Foram excluídos da participação social e por isso não eram considerados como cidadãos. A história de Roma e seu vasto império não foi diferente.
A Idade Média também foi do mesmo jeito anterior. Dentro de uma visão teocêntrica, a sociedade estamental, classificada entre a hierarquia religiosa, o senhor feudal e seus serviçais, o povo ficou à margem de escolher seus destinos. A ideologia religiosa ajudava a manter essa situação, prometendo o céu para todos, num futuro, que não se sabia se existia, mas esperava-se a recompensa para a vida eterna. A sociedade foi se modificando e com as grandes navegações, as grandes descobertas, os reis que voltaram a cena social, interessados na expansão e riquezas descobertas nas novas terras, impulsionaram um desenvolvimento que também trouxe ideias e ideais novos. Alastrou-se um movimento social que culminou com a máxima, até então não empregada na História da Humanidade: "todos os homens nascem e são livres..." É claro que era mais uma metáfora, mais uma força de expressão. Até nascer livre podiam, não quer dizer que viviam livres, principalmente quando tinham que reverenciar a majestade real, que agora através de um novo imperialismo tinha a força dos exércitos, não só para caçar os inimigos, como era na antiguidade, mas seus semelhantes também tinham que prestar culto e fidelidade.
A humanidade foi evoluindo com o pensamento dos iluminadores e através das revoluções burguesas, o povo apoiou a nova sociedade dos capitalistas, acreditando que com um "homem comum" no poder, tudo seria facilitado. Ajudou, assim a fazer a revolução, mas que no fim, mais uma vez, colocou a grande massa à margem.
Enquanto isso, o Brasil foi descoberto. E com a colonização lusa, com os pensamentos medievais, nosso crescimento não foi um crescimento social, mas somente de algumas classes abastadas. Essa situação que perdurou muito tempo, ainda tem grandes resquícios que fazem com que nosso povo não tenha motivação para mudar seus destinos. Acredita, ainda, que naqueles que ele põe no poder, resolverão todas as suas necessidades. Nem que seja através de um "empreguinho". Passamos por momentos difíceis em nossa caminhada histórica. Hoje, chegamos a um momento de fundamental importância social: a eleição. Encontramos a grande massa um tanto desanimada, desarticulada, desmotivada.
Isso não é somente por terem, muitos desses, ainda resquícios do último período em que foi negada a participação política do cidadão. A indiferença, hoje, é o descrédito e a desconfiança em relação à classe política. Isso é um caminho que fazemos em busca do novo. Hoje, já com a eleição estabelecida, novos rumos nos desafiam. Sabemos que não adianta votar, tem que participar. E isso é mais do que uma necessidade. Somos obrigados a votar, porque isso faz parte da nossa cidadania: direito e deveres. Mas o importante é que exercemos nossa cidadania através desse direito sagrado: a escolha. Não importa quem venceu. Importa sim que eu "venci" através da arma mais poderosa: meu voto. Meu direito de escolher e como numa democracia, aceitar ou não aceitar.
Que a Primavera, que também começou, traga para nós as flores que um dia plantamos como semente. Aguardamos o inverno passar para colher essas flores que poderão ser novas sementes. E lembremos, não é num único dia nossa escolha, nossa decisão, nosso votar: é todo dia, pois não sou um cidadão só na eleição, sou um político, um cidadão em todo o momento, inclusive para escrever este texto e você para lê-lo, isto com direito de aceitar ou não aceitar. Isto é também cidadania. A utopia pode acontecer: Justiça e Paz se abraçarão. Bons novos tempos para todos nós! A "esperança não decepciona" (Rm 5,5).
Diácono José Rafael Mazzoni, professor e mestre, Universidade Sagrado Coração - USC