Uma das concepções mais frequentes separando as tribos que constituem a nação dos economistas é a de "equilíbrio". Na sua formação profissional o economista é ensinado a entender uma situação onde tudo permanece constante, exceto a variável sobre a qual se debruça. Para "explicar" a variação do preço da batata, por exemplo, ele "constrói" uma curva de demanda somando as "curvas individuais" de demanda de batata de todos os indivíduos da comunidade para cada nível suposto de preço. Chama, a essa "construção", a curva de procura de batatas: é a quantidade do produto que a comunidade deseja e tem renda para consumir numa certa unidade de tempo, para cada nível de preços com que se defrontar no mercado. Do lado da oferta é evidente que ela, na mesma unidade de tempo, é fixa e determinada pelo estoque de batata disponível no mercado. Idealmente, o "preço de equilíbrio" da batata nesse mercado é o que, na curva de procura global, esgota o estoque disponível naquele momento.
Duas observações valem a pena. Primeiro: essa aparente simplicidade quando tornada logicamente rigorosa envolve muitas hipóteses, algumas seguramente arbitrárias. Segundo: como deve ser evidente, o tal "equilíbrio" se sucede a cada unidade de tempo. Nenhum deles pode, portanto, ser considerado o "preço de equilíbrio" contra o qual comparamos os outros.
Essas considerações valem para o mercado de batata, como o de tomate, e são ainda mais válidas quando incluímos todos os mercados. Aí a noção de "equilíbrio" perde ainda mais o seu significado. Afinal, o que serial tal equilíbrio? Uma situação em que nada varia! Onde todos os agentes sociais e econômicos envolvidos, trabalhadores, empresários, banqueiros e governo não teriam nenhum incentivo para alterar sua situação. Na vida econômica (ao contrário da "teoria"), não há equilíbrio, porque este é o "rigor mortis"! E muito menos "equilíbrio dinâmico", porque isso é um oximoro! Algumas vezes tenta-se colocar a ideia do "equilíbrio" como o estágio final de um processo de sucessivos desequilíbrios que convergiriam para ele, concepção que incorpora uma formalização altamente abstrata e duvidosa.
O desenvolvimento econômico, nas condições institucionais adequadas, é um processo de permanente desequilíbrio. Quando bem sucedido, produz mais desequilíbrios! A frustração dos planos dos agentes econômicos é exatamente o incentivo para mantê-los na busca de sua realização. É por isso que é papel fundamental de um Estado forte, constitucionalmente controlado, manter uma relação amistosa com o setor privado na produção de "desequilíbrios criadores", como é o caso das concessões de infraestrutura.
O autor, Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC