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Crimes sem limites assustam Bauru

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 9 min

O crime está banalizado. O que antes chocava, agora é visto como cena do cotidiano. Um sequestro, que anos atrás deixava a população estarrecida, hoje em dia é mais um boletim de ocorrência registrado no sempre movimentado plantão. Apenas na última semana, Bauru assistiu a quatro casos do chamado sequestro-relâmpago até quinta-feira. Nos autos, oficialmente o delito é assinalado como roubo qualificado. Entretanto, a retenção da vítima, mesmo que não seja por dias dentro de cárcere privado, traumatiza quem é abordado por criminosos em locais e situações antes, impensadas (leia mais na página 5).

Além das ações mais violentas, antes restritas às grandes metrópoles -, um dos casos mais emblemáticos e recentes é o da comerciante de Lençóis Paulista, morta com tiro na cabeça durante assalto em sua mercearia, mês passado, oportunidade em que a vida “valeu” R$ 150,00 levados pelo ladrão - crimes vistos como “banais” também ganham mais registros.

Desde o arrombamento de sepulturas em cemitério (da Saudade) até o furto de equipamentos que, a princípio, coibiriam as próprias ações criminosas, a perda dos limites até mesmo entre os criminosos evidencia a discussão, seja sobre a legislação, branda para muitos, e a raiz para quase todos os problemas: drogas.


 ‘Não pode ser normal’

Encarar com naturalidade a maior incidência de crimes graves ou delitos de menor vulto é um erro. É preciso combater a criminalidade e o cidadão não deve se conformar ou buscar se adaptar toda vez que a situação se agrave, ainda mais.


Essa é a visão do vice-presidente do Conselho Municipal de Segurança (Conseg) Centro-Sul, o advogado Olavo Pelegrina Júnior. “Ouvimos que temos que tomar cuidado, mas não podemos ficar apenas nos alertas e mudança de comportamento”, observa. “O cidadão tem o seu papel, mas a polícia precisa agir, investigar”, acentua.

A população, reforça, deve estar atenta, sim. Contudo, o estado de atenção não deve ser encarado com naturalidade. “Essa ideia de ‘ficar esperto’ o tempo todo faz com que a população até perca a sensibilidade sobre o que está ocorrendo na cidade. Uma onda de sequestros-relâmpago numa cidade de média para grande é intolerável”, considera.

Para o vice-presidente do grupo colegiado, que mensalmente promove reuniões ordinárias para discutir soluções para a questão da segurança pública em sua respectiva área de atuação - especialmente marcada por roubos a transeuntes e assaltos ao comércio, de acordo com a polícia -, instaurar ações paliativas “adaptadas” à nova realidade do crime contribuem para que o delito seja encarado de forma banalizada.

“Desligar o semáforo (sobre a proposta de deixar o sinal intermitente em cruzamentos com maior risco de assaltos) pode ajudar, mas não é a tônica”, diferencia.

PM: cautela até para os policiais

Diante de criminosos cada vez mais ousados e sem nada a perder, como fica o trabalho da polícia? Para o major Flávio Jun Kitazume, coordenador operacional do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPM-I), em Bauru, cautela é a palavra de ordem. O que não significa, esclarece o oficial, menor poder ostensivo.

Pelo contrário, ressalta. Devido ao maior grau de ousadia dos criminosos, em diversas situações o policial é obrigado a adotar medidas mais enérgicas, dentro da lei, em virtude até mesmo da alteração psíquica de infratores. “Os criminosos, de forma geral, estão mais inconsequentes”, avalia o policial. “É preciso também muita dose de cautela”, orienta.

De acordo com o major, não há uma “receita de bolo” na tarefa diária ostensiva e preventiva da PM. “Não há uma regra, exceto a cautela”, reforça, enfatizando que, sob efeito de drogas, os bandidos partem, cada vez mais, para o tudo ou nada.

Transeuntes com objetos expostos, reforça tanto ele quanto o chefe da Polícia Civil na região de Bauru, principalmente aparelhos celulares, são os principais alvos de ladrões movidos pelo vício.

Apesar da ousadia, por outro lado, esse tipo de criminoso, raras as vezes, usa arma de fogo. Ao menos é a opinião do fundador do Esquadrão da Vida, entidade referência há 40 anos na recuperação de dependentes químicos, Edmundo Muniz Chaves.

Durante palestra realizada nesta semana em reunião ordinária do Conseg Centro-Sul, ele cita que o consumo de crack dobrou apenas em um ano na cidade. Para ele, ladrões na “fissura” usam outros meios, às vezes não menos violentos. “Se ele (ladrão) tem uma arma, vai trocar por pedra”, acredita.

Durante a palestra, Chaves ressaltou que as drogas ainda resultaram numa inversão de valores, ainda dentro de casa, entre os menores. “Antigamente, tinha aquela história do moleque que saía de casa porque o pai era ‘ruim’. Hoje o pai é que foge de casa”, avalia.

Seccional: ‘Não mando dormir com a janela aberta’

O crime está banalizado, mas a polícia jamais deixará de orientar a população. É o que defende o delegado seccional de Bauru, Marcos Mourão. Para ele, o aumento da prática de crimes durante o dia ou em locais que, até então, eram considerados seguros, na maioria das vezes é ousadia inconsequente de viciados em drogas, principalmente o crack.

Ele diferencia dois tipos de criminoso: o ladrão “clássico”, que age de forma sorrateira e estudada, e o “nóia”, que age por impulso para satisfazer o vício. “É o tipo de ladrão que ataca o pedestre, que visa qualquer tipo de objeto para trocar por droga”, diferencia o policial.

O delegado assegura o trabalho investigativo da Polícia Civil e atesta: “Não estamos num lugar sem lei. Porém, o crime existe e não apenas aqui, em todo lugar”, ressalva. “A polícia trabalha, mas também preciso orientar a população para que tome cuidado. Não vou pedir para que as pessoas durmam com a janela aberta, não é a realidade. Até na zona rural tem crime”, cita.

 

Vítimas: trauma da violência persiste

Pessoas que foram alvo de crimes reagem de diversas maneiras: podem calar ou evitar lugares que lembrem o trauma

Encarar o crime com naturalidade causa dois tipos distintos de reação nas pessoas, observa o psicólogo Arnaldo Vicente, do Centro de Terapia Cognitiva (CTC), de Bauru. De acordo com o terapeuta, a maior incidência de delitos, graves ou não, traz tanto o medo exagerado quanto, por outro lado, o cômodo pensamento: “Comigo não acontece”.

“Só que, em ambos os casos, no momento em que a pessoa se torna vítima de uma abordagem grave, o sentimento de sofrer o imprevisível vem à tona, bem como tudo o que esse indivíduo teve de ameaças na vida”, analisa. “Depois, vem a sensação da vida o tempo todo em perigo”, acrescenta. “A essa cognição damos o nome de trauma”, define.

O terapeuta observa casos de pessoas com reações distintas aos traumas sofridos. Desde vítimas que guardam o sentimento, o chamado “trauma encubado”, até pessoas que evitam, de todas as maneiras, estar nos mesmos lugares onde foram abordadas pelos criminosos.

“Temos caso de uma pessoa que foi assaltada no Interior, não sai de casa, mas anda à noite em São Paulo”, exemplifica, sem citar a cidade (que é da região de Bauru) e, por razões éticas, a identidade do personagem. O mais importante, aconselha o psicólogo, é falar sobre o problema.

Se a pessoa tem reações nervosas ao vivenciar situação semelhante ao episódio traumático - frio na barriga ao ouvir barulho de moto, por exemplo, para quem foi assaltado por bandido à bordo desse tipo de veículo -, casos em que deixa de fazer algo ou ir a algum local, ela deve buscar alguém de confiança para falar sobre ou buscar ajuda profissional.

Andar no Centro é aventura

Sem o carro, um designer (que pediu para ter a identidade preservada) precisou cruzar à pé, no início de uma noite, o viaduto da rua 13 de Maio sobre a avenida Nuno de Assis.

O local, conhecido como “cracolândia de Bauru” devido à alta concentração de usuários do entorpecente, é visto como armadilha para quem se aventura a passar por ali a pé depois que escurece.

“Sempre fiz esse caminho, descer a 13 de Maio, pegar o viaduto do supermercado e subir a Alto Acre. Neste dia, não foi diferente. Enquanto seguia, 3 ‘nóias’ (usuários de crack, na gíria), começaram a me seguir. Enquanto eu passava o viaduto, mexiam comigo: ‘Esse deve ter alguma coisa, vamos correr atrás’”, relata.

O transeunte, que pediu para ter a identidade preservada, não esconde o medo que sentiu. “Apertei o passo, consegui passar o viaduto e subir a Alto Acre. Deveria ter parado ali no posto, mas temi pela reação deles. Subi umas seis quadras da Alto Acre e resolvi virar no meio do bairro para despistar e correr. Acho que iam me assaltar, pois me seguiram. Consegui despistar até chegar em casa”, acredita.

O morador lamenta a mudança de hábito a qual é submetido. “Sempre fiz esse caminho durante o dia e, algumas vezes, à noite. Nunca me senti ameaçado, apesar de saber do perigo dessa região. Foi para aprender e nunca mais dar bandeira para o azar”, admite. “Nunca mais faço o mesmo caminho sozinho à noite. É melhor evitar”, ensina, ecoando a atual orientação policial.

 

Sistema de vigilância também requer vigia

Daqui a pouco, pelo andar da carruagem, será necessário instalar equipamentos de segurança para vigiar aparelhos semelhantes. Semana passada, dois homens foram acusados de furtar duas câmeras de monitoramento de uma gráfica no Distrito Industrial.

Surpreendida por um vigia, eles foram detidos pela polícia. Contudo, após revista pessoal, nada foi encontrado com eles. Os equipamentos também não foram recuperados.

Nem mesmo quem já não está entre nós está totalmente a salvo da ação inconsequente do atual modelo de crime. Mês passado, um ex-couveiro viciado em crack confessou a violação de pelo menos seis jazigos no Cemitério da Saudade. Kleber Aparecido Leme, de 33 anos, se apresentou à polícia e revelou ter invadido o local para furtar dentes de ouro (com valor estimado de R$ 500,00) e trocá-los por pedras do entorpecente, que não chegam a R$ 10,00.


Rotina de medo

Em outros casos, a ousadia é de forma violenta. Semana passada, um rapaz de 19 anos trafegava pela Getúlio Vargas, nas proximidades do Aeroclube, e foi interceptado por dois homens que saíram de um outro carro, um Polo. Os bandidos levaram a carteira e celular da vítima e fugiram.

Nem sempre, porém, as abordagens terminam apenas com perdas materiais. Mês passado, em Lençóis Paulista, em crime que gerou repercussão nacional, a comerciante Maria Cristina Carrara morreu com um tiro na cabeça após surpreender um assaltante que havia invadido a mercearia da vítima.

Ela atendia a clientes aos fundos do estabelecimento, no momento em que o ladrão entrou no mercado. Ao ser surpreendido, o indivíduo não hesitou em executar a vítima e fugir com R$ 150,00 roubados. Toda a ação foi registrada pelo circuito interno de segurança.

Até o fechamento desta matéria, quinta-feira pela manhã, quatro roubos conhecidos popularmente como sequestro-relâmpago haviam sido registrados na cidade em questão de três dias. Num dos casos, as vítimas, duas professoras de Jaú, foram rendidas nas proximidades da rodovia Marechal Rondon, após saírem de uma faculdade.

Conforme registros policiais, elas foram abordadas por uma dupla armada à noite, por volta das 21h30, quando já estavam dentro do carro de uma das vítimas, ainda no estacionamento. Elas foram forçadas a ir para o banco de trás. Um dos bandidos assumiu a direção. As vítimas foram abandonadas numa área rural, próxima ao kartódromo Toca da Coruja. Os ladrões fugiram com o veículo, objetos pessoais das vítimas e R$ 380,00. Ninguém se feriu.

 

 

 

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