Cultura

No ritmo da viola extrema

Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 3 min

No espírito da viola caipira, “In the Flesh”, do Pink Floyd, se torna uma singela “valsinha”. “Aces High”, do Iron Maiden, e “Master of Puppets”, do Metallica, ganham uma levada de pagode. Essa inusitada mistura de dois extremos – o rock e a viola caipira – é a grade aposta da dupla de músicos Ricardo Vignini e Zé Helder, dois violeiros com currículo de peso que inovam no cenário musical da “superação da divisão de estilos musicais”.

E o mais recente trabalho desta irreverente dupla é o DVD Moda de Rock ao Vivo, que traz o registro de dois shows do ano passado na capital paulista. O primeiro, em abril de 2011, no Sesc Pompéia, contou com as participações do guitarrista Kiko Loureiro e do grupo tradicional Os Favoritos da Catira. O segundo show foi no Sesc Pinheiros, em julho, com a participação do guitarrista Pepeu Gomes.

O DVD conta com 19 faixas, e também está disponível uma versão reduzida com 15 faixas em áudio para venda digital apenas em lojas como o iTunes. O disco foi finalizado por crowdfunding (financiamento coletivo) pelo site catarse.me. Os encontros aconteceram com Kiko Loureiro nas músicas “Norwegian Wood” (Lennon/McCartney), “Pau de Arara” (Kiko Loureiro), “Ecologia Brasileira” (Índio Cachoeira e Cuitelinho), que teve também a participação de Os Favoritos da Catira. Esses últimos também mostraram o poder dos palmeados de catira em “Kaiowas” (Sepultura). Já com Pepeu Gomes, tocaram “Bilhete pra Didi” e “Preta Pretinha”, dois clássicos dos Novos Baianos, um dos grupos precursores que fez a fusão do rock com música de raiz.

“Foi a primeira vez que tocamos juntos com esses dois ícones da música, Kiko Loureiro e Pepeu Gomes, e foi uma grande honra. O Kiko Loureiro é considerado um dos maiores intérpretes do Brasil e fora do País; e o Pepeu Gomes é meu ídolo de vida e adolescência, escutei muita coisa do Pepeu”, conta o violeiro Ricardo Vignini, que também é estudioso da cultura popular. “Eu não diria nem estudioso, mas na verdade tive oportunidade de conviver com pessoas como Índio Cachoeira. Produzi discos dele.”


Brincadeira

 

Em entrevista ao JC, o produtor e pesquisador de cultura popular do Sudeste, Ricardo Vignini, conta que a ideia de tocar e adaptar clássicos do rock para viola caipira surgiu de uma brincadeira. A ideia inicial de Vignini e o parceiro Zé Helder era mostrar a potencialidade do instrumento para seus alunos e reviver a trilha sonora da adolescência.

“Eu e Zé somos professores de viola caipira e a gente teve um passado roqueiro, tivemos banda... e então decidimos pegar clássicos do rock para fazer uma brincadeira com nossos alunos. E fazendo misturas mostramos a importância da viola, e que dá pra tocar de tudo neste instrumento”, relata.

Apesar do sucesso, tem gente que não gosta e critica a mistura de outros ritmos com a música de raiz. Assim também vale para alguns seguidores do rock, que não aceitam fusões, que poderiam levar à descaracterização. Porém, para Ricardo, a sua “moda de rock” pode ser um caminho para desenvolver o interesse pela viola caipira, principalmente nos mais jovens. “Essa mistura é um jeito de descobrir outro universo. Em um show em Santa Catarina, por exemplo, a viola não é comum, e veio uma molecada toda de preto nos assistir.”

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