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O santinho assassino

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Nem rezando para o "São" Steve Jobs. Especialistas em marketing político garantem que ainda não será em 2014 que os iPhones, iPads e as redes sociais irão substituir os antigos e ecologicamente incorretos "santinhos eleitorais". Nem mesmo com a tragédia ocorrida em Bauru (tinha que ser aqui), essa prática pode mudar. Refiro-me à eleitora que escorregou no mar de impressos defronte a sua seção eleitoral, quebrou a cabeça do fêmur e morreu no hospital vítima de uma tromboembolia. O promotor eleitoral vai requisitar fotos do acidente para descobrir o responsável pela sujeira. Louve-se o esforço. Naquele emaranhado será difícil saber se a eleitora escorregou na foto do Rodrigo Agostinho ou na do Clodoaldo Gazzetta. Ou foi no da Chiara? O "santinho homicida" dá à tragédia esse toque mórbido de humor. Quem sabe na próxima eleição as autoridades ajam antes que dez toneladas de papeis cubram as calçadas. Puna-se com rigor os abusos e abusadores.

O fato é que os santinhos são fundamentais. O próprio Tribunal Superior Eleitoral incentiva o seu uso como "colinha", para ajudar o votante em dúvida diante da urna eletrônica. Custam barato - de 4 a 7 mil reais por milhão. Quando o candidato sai às ruas para o corpo-a-corpo com o eleitor, ele precisa ter alguma coisa para entregar. Distribuir camisetas, canetinhas, bonés e outros brindes, hoje configura crime eleitoral. Uma campanha se faz atacando em várias frentes. O santinho não pode faltar. Quando eu era professor, orientei pelo menos dois trabalhos de conclusão de curso de comunicação, sobre "Santinho". O assunto me é familiar. Rende um ótimo exercício sobre linguagem discursiva. Quem o criou foi a Igreja na Europa, no século 15, com estampas de São Cristovão. Ele ainda não era padroeiro dos motoristas, obviamente, mas tinha muitos devotos porque ajudou o menino a atravessar o rio, levando-o nas costas.

O "santinho eleitoral", este já é invenção de brasileiro. Quem primeiro começou com a essa estratégia de marketing foi o Padre Godinho, na velha UDN. O padre era um excelente orador. Esteve em Bauru diversas vezes. Tinha licença do Vaticano para fazer política. Elegia-se à Câmara Federal com facilidade. O presidente Garrastazu Médici cassou o seu mandato em 1969 porque detestava a sua retórica inteligente de oposição. Da mesma forma em que ele distribuía impressos com imagens de santo, depois da missa e pregações, o padre resolveu distribuir a própria fisionomia sorridente, pedindo o voto dos paroquianos. A linguagem dos santinhos é direta e eficaz: "Vote no Tiririca, pior do que está não fica". Nos casos mais emblemáticos, o eleitor encontra nos impressos informações sobre a vida dos candidatos. Caiu-me às mãos, quando no mês passado estive no Rio, o santinho do Fernandinho, da Pavuna. Dizia ser responsável pela tevê a cabo de graça e de ter dado emprego para 800 jovens da comunidade. O garçom do quiosque na beira da praia me esclareceu que a tevê era "gato" e os garotos trabalhavam na distribuição de pedras de crack. Havia também um santinho do "Rubinho", que prometia "correr atrás dos interesses do povo".

Infelizmente, os que combatem os santinhos não têm muito a comemorar. O fator "ecológico" e questões como "sustentabilidade" são bons como slogans, mas não garantem votações expressivas. Principalmente nas pequenas cidades. Pouca gente deixa de votar em candidato por ele sujar a rua com os papeis. Racional seria recomendar o impresso em papel reciclado. O couchê brilhante é muito liso e provoca esses escorregões. Minha aluna entrevistou um delegado aposentado que tinha mais de cinco mil santinhos guardados, de diferentes candidatos. O colecionador avaliava que sem eles a política ficava muito restrita a velhos nomes. É por meio do santinho que as novas caras podem se apresentar. Anunciou ter descoberto, nos anos 1950, que alguns partidos carimbavam o nome do candidato em notas de verdade, para distribuir nos "currais eleitorais". A coleção conta com santinhos de Jânio Quadros, Adhemar de Barros e de candidatos do MDB, Arena e até do Partido Comunista, antes de cair na ilegalidade. Dos mais modernos, Maluf é um dos que sempre abusou do recurso - é possível encontrá-lo ao lado de Celso Pitta. O governador Geraldo Alckmin é outro que está estampado ao lado do então tucano Gabriel Chalita. Hoje, apoia Fernando Haddad (PT) no segundo turno à prefeitura paulistana. Os políticos não são santinhos, definitivamente.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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