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A derrota do sonambulismo

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 3 min

De todos os fenômenos que ocorreram nesta campanha eleitoral, a derrota de Celso Russomano para a Prefeitura de São Paulo foi o mais emblemático. Muito mais do que "sim" a Serra e Haddad, os paulistanos disseram "não" a Russomano e a seu PRB. É animador saber que em alguns momentos pontuais, o tal do analfabetismo político, tão presente no Brasil, dá lugar a ações organizadas pela própria sociedade civil - o declínio de Russomano partiu, principalmente, das mídias sociais. O Facebook, por exemplo, estava repleto de mensagens de alerta contra ele, onde páginas foram criadas para tentar conscientizar o povo sobre o perigo iminente. Temiam o óbvio: o PRB, partido de Russomano, é dirigido por pessoas que têm ligações estreitíssimas com aquela instituição religiosa que realiza "milagres" em nome de Deus. Sim, é a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), em cujo blog "Universo Universal", foi publicado o seguinte texto, sem assinatura: "José Serra e Fernando Haddad são os candidatos do segundo turno para a Prefeitura de São Paulo. Um fecha templos evangélicos, o outro é o Pai do Kit Gay. Um governa para a burguesia, o outro governa para os homossexuais. (...) São Paulo sempre fica nas mãos desses cães gulosos, e quando as pessoas têm a chance de ter algo novo, um novo partido, um novo candidato, uma nova proposta, um novo plano de governo? joga-se fora essa oportunidade. Por isso no segundo turno em São Paulo me recuso a votar em qualquer um dos dois candidatos. Ainda que a chance tenha ido embora pelo menos nos próximos quatro anos, continuarei votando no "novo". Meu voto vai ser no 10."

Gostaria de saber de que forma Russomano poderia ser o "novo", como diz o texto, se representa uma igreja. Como ele governaria uma cidade cosmopolita, se os seus interesses estão atrelados aos de uma instituição ultraconservadora? Políticos como Russomano fazem lembrar o filme "O Gabinete do Doutor Caligari", um dos clássicos que inauguraram o expressionismo alemão no cinema. Na obra de 1919, o Doutor Caligari, diretor de um hospital psiquiátrico, costumava hipnotizar um serviçal (o sonâmbulo) para que ele praticasse vilanias em seu lugar. O filme não deixa claro se o enredo faz parte da imaginação de um doente ou se retrata algo real, mas o fato é que passou para a história como uma ácida crítica ao poder e à forma como ele é exercido. Nem precisamos nos esforçar para entender quem é o sonâmbulo e quem é o Dr. Caligari na relação da IURD com Russomano. Independente de a instituição em questão cometer ou não vilanias, ela comanda políticos por fora, para que eles ajam em nome de seus interesses. Como sugere o que está no blog da igreja, o PRB é um partido que foi fundado para essa tarefa.

Desta vez, contudo, os eleitores conseguiram identificar a ameaça e bloqueá-la através de um amplo movimento, que incluiu até uma festa popular na praça Roosevelt, promovida pelas siglas da diversidade. Nesse episódio, a sociedade falou mais alto do que qualquer partido. Nenhum adversário de Russomano conseguiu fazer esse trabalho melhor do que a própria população, consciente de um mal que deveria ser evitado. Mas as boas novas da política em 2012 não se restringiram à cidade de São Paulo. Aqui em Bauru, a reeleição de Rodrigo Agostinho para a prefeitura, com uma votação recorde de 82% dos votos válidos, é um indicador de que o povo consegue enxergar uma boa administração. Seus adversários abusaram das críticas a uma gestão que tem suas falhas, mas no "passar da régua" está sendo muito boa para a cidade. Soou como oportunismo aos olhos de quem vê Bauru em um bom momento e a resposta dos eleitores explica o pífio desempenho dos oponentes do prefeito nas urnas. Enfim, vamos percebendo que o povo não é tão imaturo como muitos supõem. E para aqueles que enxergarem neste texto alguma indelicadeza (como a comemoração da derrota alheia), asseguro que não se trata disso. O que deve ser comemorado é a vitória do racionalismo político e do bom senso.

O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história, jornalista e colaborador do JC

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