Articulistas

A fraterna tolerância

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

Pesquisadores norte-americanos, recentemente, demonstraram que 78% da população passa até oito horas por dia lidando com medos e preocupações. Esta pesquisa também apontou que 40% das coisas com que nos preocupamos fazem parte do futuro e, talvez, nunca se concretizem ou jamais acontecerão; 30% são pensamentos e distorções de situações que fazem parte do passado, já aconteceram e que não podemos mudar; 12% se tratam de assuntos que não são de nossa conta, ou seja, fazem parte da vida dos outros e 10% destas preocupações estão relacionadas com doenças imaginárias. Então, fazendo as contas: 92% de nossas preocupações são completamente reativas! Isso deixa uma porcentagem de 8% para os medos e preocupações que são realmente justificáveis.

É bom lembrarmos dessas informações quando estivermos "preocupados", quando percebermos que a pressão está alta ou quando o medo e a ansiedade começarem a nos invadir. A probabilidade é que estejamos nos estressando com uma situação que nunca vai acontecer, que se origina do passado, que é completamente imaginária ou sobre a qual, simplesmente, não tenhamos nenhum controle. Penso que isto tudo ocorre por vários motivos e ouso elencar alguns: a falta de confiança no Criador; porque gostamos de reclamar; por deixar a tristeza nos invadir; por não valorizar o que fazem por nós e por não sabermos nos comportar como a agulha e a linha. Quando confiamos em um Ser supremo, estamos mais preparados em aceitar nossos percalços e com coragem, seguir em frente. No entanto, reclamar de tudo e de todos é sempre mais fácil. Mas, reclamar é um direito que deve ser exercido com certo cuidado porque tem um pré-requisito: antes é preciso retirar o ódio do coração.

Ou seja, quando vamos reclamar devemos estar pensando em contribuir para aprimorar um serviço ou em ajudar o outro a encontrar um caminho melhor. Quando reclamamos muito é porque algo pode não está bem conosco ou talvez, para nos confortar, tentamos encontrar defeitos nos outros. Reclamamos porque somos pessoas muito exigentes. Sempre achamos que as coisas devem ser como queremos, nos mínimos detalhes. Principalmente nos dias de hoje, há muitas reivindicações e poucos agradecimentos. Isto abre caminho para a tristeza: um fantasma que atormenta o ser humano. Todos querem ser alegres, felizes. E, na busca pela felicidade, apelamos para medidas paliativas, rápidas, instantâneas, mas, ineficazes. Esquecemos das coisas mais simples: até o esporte, por exemplo, praticado com constância, é cura para a tristeza, mesmo porque, a alegria é como uma chama ? quanto mais oxigênio, mais combustão e automaticamente, menos tristeza no interior de cada um de nós. Contemplar a natureza é, igualmente importante, pois, contribui para aumentar nossa admiração pelo Criador. Viver com alegria não é fácil, é algo que deve ser treinado e exercido com tolerância todos os dias.

O Zohar, obra máxima da Cabalá, traz um ensinamento para refletirmos a respeito deste fato. Dois componentes são imprescindíveis ao ato de costurar: a agulha e a linha. A costura sempre requer a união da agulha com a linha independentemente do tecido utilizado. Interessante notar que a agulha é dura, inflexível, às vezes, perigosa e traiçoeira... como muitas pessoas neste mundo. Ao contrário, a linha é flexível... como muitas pessoas neste mundo. Se a agulha abre caminho, perfura o tecido, a linha encaixa-se e serve de ligação. Mesmo sendo tão opostas, agulha e linha fazem um trabalho conjunto. Esta é a grande lição. É possível construir, criar e unir mesmo quando se juntam pessoas opostas e diferentes. Aliás, nossas vidas são como pedaços de tecidos, não vamos construir nada sem a fraterna tolerância. Ah ! Quão bom e quão agradável seria vivermos em união.

O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru - SP

Comentários

Comentários