Mas por que diabos eu, um tenista de minha cidade, tenho de enfrentar um cara que já defendeu o Brasil na Taça Davis e está jogando por dinheiro a representar uma cidade do interior que ele nem sabe onde fica, já que mora em São Paulo, capital? Em nenhum torneio do mundo existe tal discrepância: até no cuspe à distância disputado quando criança havia o critério da idade e do tamanho dos contendores.
Mas nos Jogos Regionais não: o atleta da cidade, na maioria "pequenas cidades", treinam como podem o ano inteiro para representar suas cores e o que se vê são estes disparates que são representados pela contratação de E.T.s, à guisa de conseguir mais medalhas e fazer teatro com elas. São medalhas sem valor, sem brilho, oxidadas pela falta de valorização do atleta local, onde o dinheiro se vai em dois dias de competição, sendo que esse recurso fará falta no apoio durante o ano inteiro de treinamentos, quase sempre após um dia de trabalho.
Quando das participações no Mapa Cultural Paulista, promovido também pelo governo do estado de São Paulo, o artista tem de provar seu vínculo com a cidade, porque a intenção é descobrir e divulgar a produção cultural e artística de cada comunidade, cada região, mapeando o estado inteiro de acordo com seus participantes, que são necessariamente genuínos moradores de suas cidades.
Toda categoria esportiva pode gerar atletas de nível razoável a partir do incentivo de escolinhas, onde após os treinamentos e descobertas de talentos, irão produzir os prata-da-casa, que tanto provocam o orgulho de quem se envolve com as coisas de seu bairro e de sua cidade. O incentivo à base é fundamental para que novas iniciativas aconteçam dentro do próprio clube, academia, ginásio, pista ou piscina, que se transformarão no microcosmo da reputação e da desenvoltura da equipe unida pelo mesmo ideal. Aqui vai este apelo de quem sente na pele o desconforto de ver historicamente a Secretaria Estadual de Esportes estimular a prática destas contratações esdrúxulas e nocivas à ideia principal desta competição: incentivar o desenvolvimento do esporte nas mais variadas categorias em todas cidades do estado e colocar à prova a qualidade destes esforços numa competição que carrega um nome que já diz tudo: Jogos Regionais.
Desnecessário aqui discorrer sobre as vantagens do esporte nos dias de hoje, frente aos desafios de nossa juventude, que tem a rua como inimiga e a prática desportiva como um forte bastião nesta dura luta contra as drogas. Como de cima não vem esta decisão salomônica de não apenas coibir, mas sim, proibir as contratações de atletas sem vínculo com as cidades pelas quais competem, aqui da base, com a meia suja de terra das quadras ou com a sunga molhada por mais um treino, é que vem tal pedido, o qual está aqui para receber críticas que se acharem pertinentes. Mas que não me venham alegar que contratar um atleta a peso de ouro serve para estimular a garotada a praticar determinado esporte, porque tal argumento não encontra eco nesta já envelhecida discussão.
É muito mais fácil procurar patrocínio de última hora e dispender este recurso numa única e bombástica contratação. Dá menos trabalho que montar, com este mesmo valor, uma escolinha para iniciar a molecada numa modalidade esportiva: precisa de planejamento, organização, material humano e vontade que se materializa na elaboração de um plano de trabalho e sua posterior execução.
E há um agravante: este vencedor dos Jogos Regionais se qualifica para a competição maior, que são os Jogos Abertos do Interior, que neste ano serão sediados por Bauru: se ele não for pago novamente, pode se recusar a jogar e a cidade tem de repor a peça com os "da casa", que entram como tampão, uma aberração que compromete a finalidade destas competições estaduais.
Quem se identificar com esta sugestão - pode ser prefeito, vereador, professor, atleta ou pai de aluno - favor entender que somente gostar da proposta não adianta. Existem oportunidades onde tal raciocínio deva se fazer ouvir. Muitas vezes só falar não adianta: é preciso gritar para que os altos dirigentes se movimentem.
O autor, Marcondes Serotini, é escritor e colaborador de Opinião