Centenas de medalhas, dezenas de troféus e liderança de rankings. Marcas comuns a vários atletas de ponta. Porém, tornam-se menos corriqueiras quando os responsáveis por elas têm mais de 60 e 80 anos. Dois bauruenses levam ao pé da letra o slogan “Sem Limites”, de sua cidade de origem e, incansáveis, ostentam números e feitos dignos de meninos. Novival Agnelli, 62 anos, e Flávio Marcondes Motta, o Nabo, 80, dominam suas categorias na natação master e provam que esporte na Terceira Idade ou quase pode ser mais do que saúde. Pode ser uma atividade de alto rendimento.
Agnelli tem 842 medalhas e 41 troféus na carreira de nadador. Nabo soma 370 medalhas e cerca de 20 troféus. “Somos parceiros e estamos indo a todas as competições de todos os principais circuitos que temos no Brasil”, afirma Agnelli. Ambos estão em primeiro lugar no ranking brasileiro em suas respectivas categorias, Agnelli na 60+ e Nabo na 80+, e lideram o top five estadual.
Os nadadores relatam que têm um calendário extenso durante o ano, disputando os maiores circuitos de natação master do Brasil. Agnelli e Nabo nadam o Circuito da Associação Brasileira de Masters de Natação (ABMN), competição nacional em quatro etapas; o Circuito da União da Natação Master do Interior do Estado de São Paulo (Unami), disputado em dez etapas; Circuito da Associação Paulista Master de Natação (APMN), que tem quatro etapas. “Além disso, temos participado do Torneio Início, em fevereiro, e que é mais para confraternização e entrega de prêmios do Circuito da APMN. Tem sido a média de dois campeonatos por semana ao longo do ano”, revela Agnelli.
Para suportar a rotina de treinos e competições, a alimentação é fundamental. Agnelli explica que a carga de treinos é o que mais exige do corpo. “Temos que garantir uma boa quantidade de carboidratos para dar uma energia instantânea para os treinamentos. São massas, alimentos com batata”, cita. Os nadadores brincam que não se trata exatamente de nenhum sacrifício. “Pelo contrário, é muito prazeroso. Muitas pessoas gostariam de estar comendo estas coisas deliciosas e não podem porque acabam engordando. Mas quem pratica uma atividade física competitiva, como é o nosso caso, queima muita energia e o carboidrato é uma necessidade. Além disso, é preciso garantir lipídios, proteína, além de vitaminas, para garantir o sistema imunológico reforçado”, afirma.
Sem preconceito
Nabo faz questão de rechaçar o preconceito que envolve o esporte master, salientando o bom nível dos campeonatos e a alta competitividade dos atletas. “Muita gente pensa que natação master é para idoso. Não é. É uma competição de nível internacional, tem Campeonato Brasileiro, Sul-Americano, Pan-Americano, Mundial, só não tem Olimpíadas. Muita gente não dá muito valor. É uma competição de alto nível, forte, geralmente quem está lá são nadadores que já foram olímpicos e a gente tem que brigar mesmo. No Pan-Americano, eu fiquei em quinto lugar batendo recorde. Em quinto, batendo recorde! Para se ter uma ideia de como é o negócio”, exemplifica o atleta.
Os nadadores competem com apoio da Prefeitura de Botucatu e contam com patrocínio da Turma dos 30 e de Bruna Semijoias. “Embora estejamos competindo pela equipe de Botucatu, treinamos em Bauru, na piscina da Multicobra, que também nos apoia”, esclarece Agnelli. No Circuito Paulista Nabo e Agnelli nadam representando Associação Bauruense de Desportos Aquáticos (ABDA).
Natação: Sul-Americano é próximo desafio
O próximo compromisso da dupla é o Campeonato Sul-Americano master de natação, que será realizado de 31 de outubro a 3 de novembro, em Manaus. Os nadadores estão em fase final de preparação. “Estamos entrando em um período de polimento, quando treinamos menos volume e mais explosão, com tiros mais curtos, de 25 metros”, explica Agnelli. Os treinos são diários, cinco vezes por semana.
Os bauruenses têm boas perspectivas de resultados no Amazonas e lembram o alto nível da competição internacional. “Vai ser um campeonato bastante disputado, onde estarão os melhores nadadores brasileiros e competidores da Argentina, Uruguai, Colômbia, que são países que têm um histórico importante na natação já há muitos anos”, discorre Agnelli.
Do polo aquático para a natação
Hoje nadador, Nabo começou nas piscinas como atleta de polo aquático, modalidade que praticou até os 37 anos, foi técnico e deixou por causa de compromissos profissionais. “Sou da primeira geração do polo aquático do Bauru Tênis Clube (BTC). Fiz a primeira escolinha e, depois de várias gerações, veio a geração do Sapé (José Roberto Franco), que foi aluno meu, do Décio Patelli (árbitro internacional de polo aquático). O Décio inclusive me falou: ‘fui a quatro Olimpíadas e comecei com você’. O Nando (Luiz Fernando Lapo), o Toni Garcia, todos passaram pela minha mão. Isso é alguma coisa que a gente deixou”, relembra.
A maratona entre as viagens, que o trabalho exigia, e a necessidade dos treinos obrigou o jogador a abandonar o polo. “Eu trabalhava fora de Bauru e comecei a fazer treino no sábado e domingo. Chegou uma hora que falei que não dava mais”, recorda.
Seguiu-se uma longa ausência de 40 anos e o retorno às piscinas veio com o incentivo do companheiro de treinos e competição. “O Agnelli ficava sempre no meu ouvido: ‘Nabo, vamos lá’. Ele falava que se inspirava em mim e, hoje, eu me inspiro nele. Ele é um cara que se esforça, leva a sério e a gente tenta acompanhar”, relata. “Eu voltei e nado tudo, quero tirar a diferença”, brinca.
Volta ao mundo nadando
Agnelli deve, em breve, completar a volta ao mundo nadando. Mas o bauruense não vai se lançar às águas abertas dos oceanos. A façanha vem das braçadas dadas nas piscinas nos dois períodos em que competiu na natação, o primeiro dos 7 aos 22 anos e o segundo, dos 40 anos até hoje. A disciplina no treinamento rendeu muitos, muitos metros. Tantos que o nadador se aproxima de uma façanha considerável.
Professor de ciências exatas, Agnelli faz a conta. “A Terra tem um raio de aproximadamente 6.400 quilômetros. Se for calcular o comprimento da circunferência, pegando a parte do Equador, dá aproximadamente 41 mil quilômetros de perímetro. Eu peguei os dois períodos de minha vida nos quais competi, calculei os dias de treino e multipliquei pela metragem que fazia por dia nas duas fases. Estou completando aproximadamente 38 mil quilômetros de natação. Pelas minhas projeções, completo a volta na Terra em 2015”, aponta.