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Doente renal luta pela sobrevivência

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 6 min

Rins ‘gritando’, diabético, infartado, operado do coração, vítima de derrame, tireoide sob bombardeio de fortes medicamentos e pernas bambas em alerta de que não sustentarão seu corpo debilitado em pé por mais do que 10 minutos.  O novo obstáculo do aposentado por invalidez Edison Silva, 58 anos, é disputar uma vaga para provar que precisa fazer sessões de hemodiálise três vezes por semana.

Em seu último retorno a uma unidade de saúde da Prefeitura de Bauru, Edison percebeu que tudo pode ser ainda pior ao ouvir uma sugestão vinda dos próprios funcionários da UBS: “Para mim conseguir uma hemodiálise tem que entrar na Justiça”.

Rins com efetividade de 13% é o que indicaria exame recente de Edison - a cada três meses ele se submete a exames clínicos. Ele alega que com 15% já deveria ser submetido a sessões de hemodiálise três vezes por semana.

De acordo com o paciente renal crônico, uma consulta na Unidade Básica de Saúde do Jardim Godoy, no dia 25 de setembro deste ano, resultou na promessa de seu encaminhamento para avaliação de um nefrologista – médico especialista.

Como seu encaminhamento recebeu status de urgência, Edison retornou quatro dias após à consulta. Começou um périplo burocrático para se localizar na unidade de saúde do município para saber que fim havia sido dado para a documentação da demanda médica urgente.

“Fui perguntar e o negócio estava engavetado. A moça não sabia nem onde estava o papel”, ressalta. Edison comenta que sua papelada reapareceu após 40 minutos de buscas. “Uma veio falando que tinha encaminhado. Mas se ela encaminhou, o papel não estaria nem lá”, estranha.

O renal crônico cita que o diabetes trouxe várias complicações à sua saúde. “Matou meu rim”, lamenta. A coordenação motora prejudica sua locomoção amparada com ajuda de uma bengala. Edison define que “mata um leão a cada dia”. “Todo dia que levanto e olho para o sol falo que é mais um dia na minha vida. Agora, chego em um lugar e os caras ficam fazendo pouco caso”, revolta-se.

 

Base vetado

Edison rejeita a possibilidade de ser encaminhado para a hemodiálise no Hospital de Base. “Se eu cair aí, eu morro. É descaso”, afirma. Ele argumenta que sua condição de saúde é grave se comparada a quem apenas tem problema nos rins. “Eu é um monte de coisa que eu tenho”, define.

O receio de Edison se confirma no caso de pedras no rim de Derli Izume, 66 anos. De acordo com Elaine Terezinha de Sá, sobrinha da idosa, a tia ganhou alta médica do HB porque a unidade hospitalar não possuiria uma aparelho para destruir as pedras em seu rim. “Deram alta para ela porque não tinha o equipamento e corria risco de pegar uma infecção hospitalar”, explica Elaine.

Daí começou uma batalha para que a mulher passe por um procedimento cirúrgico no Estadual. Elaine explica que, nesta semana, a família recorreu à promotoria da Saúde Pública em Bauru, e amanhã é provável que ela faça um exame para constatar o problema e uma consulta médica, antecipada de um agendamento marcado para o dia 26 deste mês.

Um rim de Derli é atrofiado e não tem função e o outro está com pedras. O quadro é desesperador, relata a sobrinha. Não é preciso dizer que a mulher está sendo torturada pela dor renal. Ela não se alimenta, não levanta da cama e seu intestino não funciona. “Se ela tenta forçar, vomita, vomita e não sai nada. Está pálida. Ela está em um estado de calamidade”, define Elaine. Dona Derli reside na Vila Industrial onde é cuidada por sua irmã Mariza.

 

Na fila

Ao que tudo indica, o renal crônico Edison Silva terá que aguardar algum tempo se quiser ser atendido pelo sistema de saúde público. A Secretaria Municipal de Saúde (SMS), por intermédio da assessoria de imprensa da Prefeitura de Bauru, diz que ele está na fila para agendamento de consulta com médico nefrologista.

A SMS, prossegue a nota, esclarece que o paciente Edison Silva procurou a unidade básica de saúde onde relatou que havia passado por avaliação profissional em rede particular de atendimento, sendo que o profissional informou-o que, devido ao comprometimento de suas funções renais, seria necessário realizar tratamento de hemodiálise.

O protocolo de atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS) determina que, no que diz respeito aos procedimentos dos profissionais do sistema da rede municipal de saúde, após passar por consulta médica, o paciente fosse encaminhado para atendimento especializado em nefrologia, cuja liberação das consultas depende da disponibilidade das mesmas, o que é gerido pela da Secretaria de Estado da Saúde.

A SMS explica, ainda, que não procede a informação de que a ficha do paciente não teria sido localizada pela UBS e que o seu encaminhamento não teria sido efetuado, pois seu nome já se encontra incluso em lista de espera na Central de Regulação Municipal para posterior agendamento de acordo com vagas a serem recebidas.

 

DRS

Por intermédio de uma nota da assessoria de imprensa da Secretaria Estadual de Saúde, o Departamento Regional de Saúde (DRS) de Bauru considera normal o atendimento aos renais crônicos na cidade. O DRS informa que todos os pacientes com indicação para tratamento de hemodiálise em Bauru são atendidos. Cerca de 400 pessoas fazem hemodiálise nos hospitais Estadual e de Base, referências no atendimento para 18 municípios da região.

Além disso, em setembro, foi inaugurado um novo serviço de hemodiálise no Hospital Geral de Promissão, com capacidade para realizar aproximadamente 12 mil sessões anuais, visando ampliar a oferta de atendimento para Bauru e municípios circunvizinhos.

A DRS destaca que o controle dos pedidos de consultas é feito pelos municípios e o AME de Bauru dá apoio ao atendimento na área de nefrologia. Ressalta-se também que o fortalecimento da rede de assistência à saúde, a exemplo da implantação de consultas com especialistas (nefrologia), não é uma prerrogativa exclusiva aos governos estaduais, cabendo também a outras esferas gestoras do Sistema Único de Saúde (SUS).

  • Serviço

A Associação Bauruense de Apoio de Assistência ao Renal Crônico (Abrec) fica na rua Sta Terezinha 12-45, telefone (14) 3232-3027. E-mail contatoabrecbauru@hotmail.com. Site www.abrec.org.br/.

 

Abrec projeta melhores condições

Não são apenas os renais crônicos que pedem socorro. A Associação Bauruense de Apoio de Assistência ao Renal Crônico (Abrec) atende os renais crônicos com poucos contribuintes. A presidente da Abrec Maria Bernardete Matos Bento explica que todos que procuram auxílio são amparados. No entanto, atualmente os mais necessitados são alvo de maior atenção com cesta básica, fraldas, leite e até mesmo com roupas doadas na campanha do agasalho. A mobilização do pessoal da Abrec obtem recursos com a venda de sonhos, almoços e bazar da pechincha.

No entanto, as necessidades levaram a equipe coordenada por Maria a acreditar na possibilidade de ampliação do espaço físico da Abrec. O projeto já tem terreno e planta para construir a Casa Abrigo do renal crônico e familiares, que necessitam de estadia, um local para banho e alimentação – mas ainda falta dinheiro para a obra.

Maria cita que as unidades hospitalares de Bauru atendem pacientes vindos de municípios em um raio de 100 quilômetros de Bauru. A entidade atua em parceria com a Secretaria Municipal do Bem Estar Social (Sebes). A ampliação é o grande sonho. 

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