Ciências

Envelhecimento: é possível adiar?


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O que dá mais medo: a morte ou a vida? Em sua música, Gil afirma: não tenho medo da vida, tenho medo é de viver! Viver dói, mas ensina e faz crescer.

Quando procuramos tratamento para não envelhecer almejamos adiar a morte e ou melhorar as condições de vida até ela chegar? A estética, desempenho físico-sexual, estado psicológico e paz espiritual estão relacionados com a qualidade de vida. Ao pagar por tratamentos antienvelhecimento, você estaria comprando um bônus de tempo para uma vida maior ou apenas querendo atravessar a linha de chegada com vigor e beleza? Você está querendo morrer mais tarde ou mais bonito?

O envelhecimento inicia-se aos 22 anos e a morte representa a única certeza, o resto passa por probabilidades! Seria possível adiá-la? Podemos esperar a morte ou simplesmente ignorá-la e tocar a vida como se não houvesse amanhã, diria o poeta Renato Russo. Viver não significa agitar, mas andar, sorrir, ler ou admirar as coisas simples, bonitas e intrigantes como a passagem da nuvem imitando animais e objetos.

Receptores

O último prêmio Nobel de Química foi atribuído a Robert Lefkowitz e Brian Kobilka que desvendaram o funcionamento dos receptores nas superfícies das células. Imagine os dez trilhões de células como bolinhas esféricas, ora ovais, ora irregulares. Nossas partes são constituídas por um conjunto de células que se organizam como as sementes dentro do maracujá ou da romã. Entre as sementes ou as células tem-se um gel conhecido como matriz extracelular.

Na superfície das células tem-se em milhares de tomadas ou fechaduras que atuam como verdadeiros ouvidos bioquímicos. As células se estimulam e ajudam mutuamente com muito diálogo liberando substâncias que se espalham no meio do gel: se existem ouvidos devem existir palavras bioquímicas. Estas palavras que se encaixam nos receptores ou ouvidos celulares são mensagens como: produza osso, prolifere mais, pare de entrar em mitose, espesse a pele, gere a dor e muitas outras!

As palavras bioquímicas na comunicação celular, via milhares de receptores, são conhecidos como mediadores. Hoje, o homem sabe quais são os receptores e mediadores e se acha no direito de interferir nesta comunicação para controlar as células e tecidos.

Hormônios

Quando duas células vizinhas e iguais se comunicam se diz que os mediadores liberados são autócrinos; quando células vizinhas e diferentes conversam entre si, se diz que são mediadores parácrinos. Mas muitas células iguais ou diferentes conversam entre si longe uma da outra e quando um mediador faz este tipo de comunicação "viajando" pelo sangue, passa a ser nominado de hormônio e a comunicação chamada de endócrina. Hormônios são mediadores ou "mensagens" que atuam a distância.

Os "medicamentos" cada vez mais são mediadores fabricados em laboratórios ou extraídos de animais. Se manipularmos esta comunicação poderemos prolongar o tempo de vida das células e controlar sua morte e renovação. O que iria atrofiar, pode até aumentar, como os músculos! A pele que iria afinar e enrugar, pode ficar lisa e brilhante! O desempenho geral vai melhorar e o declínio poderá ser adiado: eis a terapia do antienvelhecimento. Mas tudo tem preço, nem sempre monetário, mas biológico.

Antienvelhecimento


Ao manipularmos a comunicação entre as células prolongando seu tempo de vida, desempenho funcional, estimulando a sua proliferação e renovação via mitoses, estamos caminhando sobre o fio ou corte de uma navalha! Corremos o risco de perdermos o controle da proliferação celular em algum momento e, sem controle, as células podem dar origem a clones independentes reconhecidos como neoplasias malignas ou cânceres.

O desempenho estimulado em estruturas mais velhas e excitadas pelos mediadores podem gerar ainda um colapso funcional como hipertensão, infarto, insônia e até o diabete pelo consumo maior de glicose pela maior necessidade de energia. Seria como exigir desempenho maior de um carro velho e turbinado: pode dar certo, ... ou não!

Pergunta inevitável: devo ou não fazer este tipo de terapia antienvelhecimento? Antes de procurar fazer, entenda seu corpo, cheque sua saúde, analise seu estilo e compatibilize-o com sua estrutura corporal e objetivos de vida. No afã de aumentar sua qualidade de vida, você pode abreviá-la! Ou, no afã de prolongar, pode piorar a qualidade no tempo que lhe resta!
Ninguém deve responder por você: só você!

Alberto Consolaro é â??professor titular da USP - Bauru. Escreve todas
as segundas-feiras no JC.
Email: consolaro@uol.com.br

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