Quando o assunto é televisão, estamos no primeiro mundo. Principalmente por causa da Rede Globo, que tem um padrão de qualidade ímpar no que diz respeito a inovações tecnológicas, linguagens visuais, cenários, organização e outras áreas técnicas. Quanto ao conteúdo, é claro que a emissora do Rio tem, também, bons conteúdos. Mas o que impera em grande parte dos horários mais nobres é o banal e o chulo, como na grande maioria dos canais.
Porém, ao contrário do que ocorre nas concorrentes, na Globo essa banalidade vem sempre acompanhada de um verniz, que dá a impressão (errada) de sofisticação. Essa dependência da tecnologia e da estética que faz a Globo ser a campeã de audiência acaba diluindo o que poderíamos tirar de proveitoso em sua grade de atrações. Na verdade, desde que surgiu a televisão, não faltaram críticos dizendo que jamais haveria um conteúdo de qualidade na TV, devido à sua própria natureza e linguagem. Desse modo, mesmo quando a televisão transmitisse música erudita, o fracionamento constante do tempo e espaço (que ocorre toda vez que há um corte na imagem) impediria a apreensão de um bom conteúdo - há, contudo, um farto material em canais menos populares, e na própria Globo, que desmente isso.
Se pensarmos especificamente nas novelas globais, transmitidas no melhor horário para se "abocanhar" consumidores de seja lá o que for, qualquer conteúdo mais elevado torna-se uma discussão superficial e estéril. Em Avenida Brasil, por exemplo, mostra-se a realidade de um lixão, mas no intervalo aparece o Faustão fazendo propaganda de um creme dental branqueador dos dentes, com o seguinte subtexto: "você precisa ter isso (o produto e os dentes brancos) para ser um Alfa Mais". Um Alfa Mais, em analogia às castas genéticas da obra crítica "Admirável Mundo Novo", é o mais alto que se pode chegar na competição pelo topo da pirâmide social. Depois o Faustão aparece novamente, fazendo uma "experiência" com bexigas para mostrar como o novo Pantene pós-alisamento químico protege muito mais o seu cabelo.
Devemos lembrar que o mundo desenhado para os Alfa Mais e propagandeado pelas marcas que aparecem nas novelas, pelo estilo de vida dos milionários e pela publicidade chega também ao mais humilde barraco, como uma imagem a ser consumida. A partir daí, muitas coisas podem acontecer. Os pobres podem pensar que a preocupação com o cabelo dos "bacanas" depois de um alisamento químico é uma afronta aos moradores de bairros que não têm asfalto e nem saneamento básico. Pra quem recorre a um hospital público e fica deitado dias em uma maca no corredor, ter os dentes sempre brancos é uma frescura sem tamanho. O pior, contudo, é quando uma parte da população que consome apenas as imagens do luxo resolve partir para a força bruta e conseguir o que quer na marra, o que explica, em parte, os números da violência no Brasil.
Em meio ao contágio popular da última semana de Avenida Brasil, até nossa presidente adiou um discurso que faria em Salvador, por causa da novela. Na mesma semana, Dilma vetou corajosamente nove pontos importantes do novo Código Florestal, contrariando a bancada ruralista do Congresso. Foi a segunda vez, este ano, que Dilma enfrentou os senhores feudais que atravancam o Brasil - na primeira, bateu de frente com o poderoso e oligárquico PMDB dos coronéis nordestinos, coisa que homem nenhum tinha feito antes. Também na mesma semana, no julgamento do mensalão, a maioria dos juízes condenou grandes figurões do PT e empresários poderosíssimos.
Nesses momentos cruciais, a novela funciona como um amortecedor contra a transformação do país, desviando a importância do assunto e atrapalhando o entendimento da sociedade e de suas mazelas. O Brasil está, finalmente, pronto para cortar o cordão umbilical que prende os brasileiros ao seu passado colonial. Mas para que isso aconteça plenamente, é preciso que o povo entenda o processo que está em curso e participe dele. E isso tem que ser feito, principalmente, na hora da novela.
O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história, jornalista e colaborador de Opinião