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Os ?desassessores? de imprensa

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 3 min

Os jornalistas envolvidos na produção de notícias convivem diariamente com outro grupo de profissionais: a assessoria de comunicação. Esse nicho é basicamente "o lado de lá do balcão". Se é que alguém não sabe, são pessoas contratadas por empresas ? privadas ou públicas -, entidades e até celebridades para confeccionar e manter o elo com a imprensa. Como o próprio nome já diz, assessoram. Porém, hoje, lidamos com muitas assessorias que "desassessoram" (perdoem o neologismo acompanhado do paradoxo). Quando deviam fazer a conexão com a imprensa, estão, na verdade, quebrando laços. E isso não é raro, infelizmente. Muitas assessorias se comportam como uma barreira - quase que intransponível - entre o jornalista, a notícia e a fonte.

O jornalista já sabe até qual assessoria vai atrapalhar e qual vai ajudar. Já tem sua "lista negra" mental. O assessor não deve tentar barrar a matéria ou a reportagem. O assessor precisa colocar a fonte em contato com o repórter. "Ah, mas ele não fala bem...". O assessor deve treiná-lo... é o tal do media training que está em seu quadro de atribuições. Sem generalizar, mas, grande parte dos assessores se empenha muito mais para impedir a execução de uma matéria do que ajudá-la. Aliado a isso, as assessoria se revestem e se blindam cada vez mais no que considero o câncer brasileiro: a burocracia.

"Alô. Preciso entrevistar fulano"; "Você precisa mandar um e-mail"; "Ah, legal. Estou mandando"; "Alô. Mandei um e-mail há algumas horas..."; "Seu e-mail foi encaminhado para o setor X, depois para o Y e você deve ligar no Z para saber como está o andamento"; "Alô. Deu certo?"; "Infelizmente, vamos mandar só uma nota oficial." Ah... a maldita nota oficial. Jornalista não quer nota oficial. Jornalista quer conversar. As melhores informações saem do diálogo. Se não der pessoalmente, que seja pelo telefone mesmo. Cinco minutos sentado na cadeira em um telefone não vão matar fonte alguma.

Para combater a legião dos "desassessores", a arma do jornalista é "atropelá-los". Sem dó nem piedade, ligamos direto para a fonte. É o preço aos qual o assessor que não entende seu papel paga. Ou, no outro dia, colocamos aquele bom e velho "a assessoria da empresa X foi acionada, porém, não respondeu até o fim desta edição". Muitos veem isso como uma confissão de culpa no cartório. Ruim para o jornalismo, ruim para a notícia, porém, muito pior para imagem da empresa em questão.

Uma hora, o chefe vai se perguntar o que você está fazendo ali. Não é praga. Juro. É uma questão de tempo. Bom, mas, como já disse, sem generalizar. Conheço muitos assessores ótimos. Assessores que são assessores 24 horas por dia. Aqueles que sabem fazer o trabalho de "apagar o fogo", entretanto, sem querer esconder o "incêndio". Aqueles que você faz o contato e sabe que vai ter um retorno. Aqueles que não são escravos da "nota oficial". Aqueles que assessoram, ao invés de "desassessorar".

O autor, Vitor Oshiro, é repórter do JC e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia

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