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De tanto repetir

Iolanda Toshie Ide
| Tempo de leitura: 2 min

Nos tempos dos chamados Grandes Descobrimentos, a Escola de Sagres (será mesmo que existiu?) recebeu repetidas louvações. Eram também os tempos em que invasão se chamava descobrimento. O colonialismo era aceito tacitamente com a cruz encimando a coroa do colonizador. Como se coroa fosse sinônimo de legitimidade, quase sempre apoiada pelas religiões. De tanto insistir sobre a necessidade de consolidar a posse, os mais desumanos expedientes foram sendo aceitos e ... até consagrados. O uso do trabalho escravo de índios/as, depois de africanos/as traficados/as, foi de tal modo disseminado e tolerado, que seria execrado quem ousasse questionar.

No imaginário dos brancos cultivaram-se os mais variados preconceitos. Os índios não se preocupavam com a propriedade privada e usavam a terra coletivamente porque "são mais próximos dos macacos que dos humanos"; não castigam as crianças porque são incapazes de educar; respeitam a natureza porque são idólatras; tomam muitos banhos porque devem ter doenças contagiosas... Os negros, segundo Voltaire, são inferiores aos europeus e superiores aos macacos; jamais poderão participar da classe média, afirmou Francis Galton; conforme David Hume, só podem desenvolver umas poucas habilidades como o papagaio fala algumas palavras... Assim também, acham que os homens podem espancar (e até matar) se as mulheres não lhes são submissas. Ainda hoje, muitos pensam que índios (e também negros) são empecilhos ao desenvolvimento. Assim, os que não se pautam segundo essa matriz de pensamento, não devem ousar galgar os postos de comando. Os mais cruéis expedientes estarão em ação para garantir que, os da Casa Grande não sejam questionados pelos da Senzala.

Quem ousar um assento no Congresso como Juruna, ou até a presidência de um partido político, como José Genoíno, ou até mesmo a presidência da Câmara Federal, como João Paulo Cunha, pagará o preço: zombarias, banalizações, achincalhações e, se teimarem, serão derrubados das posições "a que não têm direito". Imagine, então, um operário sem diploma universitário, ousar dirigir a nação! Esse ódio dos "de cima" aos que não são do mesmo grupo, os faz agir como nazistas e membros da Ku Klux Klan.

De tanto repetir que são incapazes, inferiores, responsáveis pelo atraso... há os que ? e não são poucos ? acreditem que o preconceito é virtude e que a mentira é verdade. Acabam por cometer o equívoco de louvar aos que divulgam o preconceito e engrossar a turba que adorava um deus amante das fogueiras da inquisição. Um dia hão de retratar, senão eles mesmos, seus descendentes. Será tarde.

A autora, Iolanda Toshie Ide, é colaboradora de Opinião

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