Bairros

Muro de escola ganha arte chilena

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 4 min

Galões de tinta, pincéis, lixas, escadas, desenhos, cores, criatividade e muito esforço. Esses são os ingredientes que estão mobilizando professores e cerca de 30 estudantes da Escola Estadual Luiz Zuiani, no Parque Paulista, que pretendem transformar os muros de fora da unidade em verdadeiras obras de arte.

Coordenado pela professora e historiadora Carla Shimokawa e orientado pelo artista Francisco Maltez, o projeto, que teve início há uma semana, objetiva estimular os jovens a expressar suas identidades e ao mesmo tempo refletirem de forma crítica a atualidade, aproximando a história de Bauru com a história da América Latina. A pintura, realizada através das técnicas do Muralismo, uma arte chilena, foi realizada com materiais doados e com os estudantes fora do horário de aula.

O desenho que toma formas ao longo de mais de 80 metros de muro, na rua Paraná, resume a história de um menino que, influenciado pelo consumismo e acuado em meio à violência urbana, decide viajar pelo “trem da morte” - linha férrea que antigamente ligava Bauru à fronteira da Bolívia - em busca de descobertas.

Do ambiente escolar ele passa a conhecer as origens de sua cidade e seu país, representada pela figura de um índio com uma pequena planta nas mãos. Daí por diante, em uma visita pela América Latina o personagem é representado por uma mistura de imagens de pessoas de diversas raças e culturas.

Neste ponto, a pintura do tronco de uma árvore chama a atenção. A planta, existente do lado de dentro da escola, toma forma no muro externo com folhas contendo frases de autores latino-americanos, que estabelecem a ligação entre o aprendizado e a vida.

Participam do projeto cerca de 30 estudantes do 6º ao 9º ano do ensino fundamental e do 1º ao 3º ano do Ensino Médio da E.E. Luiz Zuiani. Os materiais utilizados foram doados por empresas da cidade e a mão de obra tanto dos professores envolvidos quanto do artista chileno é voluntária. A previsão é de que o término das pinturas aconteça na próxima semana.

 

Estímulo

Para o estudante Eduardo Dias de Almeida, 17 anos, a experiência deveria acontecer mais vezes e em mais escolas. “Aprendemos muito com essa atividade. Diria que até mais do que se estivéssemos sentados e fechados dentro de uma sala de aula”, defende o estudante contando sobre as pesquisas que realizou nos livros para encontrar frases de autores latino-americanos que encaixassem com a ideia do trabalho.

Conforme explica a coordenadora do projeto, Carla Shimokawa, 27 anos, que também atua como professora de história do colégio Zuiani, a atividade estimulou os alunos a pesquisarem mais. “Muitos não sabiam que houve uma linha chamada trem da morte, que unia Bauru à Bolívia, por exemplo”, pontua.

 

Muralismo

Diferentemente do grafite, Francisco Maltez explica que o muralismo chileno é uma técnica que surgiu no período de ditadura no Chile, por volta da década de 70, quando os muros eram utilizados para expressar protestos em formas de desenhos e histórias.

“O muralismo é muito presente no Chile e em outros países da América Latina, mas no Brasil, o grafite é o forte pela ligação que o país tem os norte americanos, que desenvolveram a técnica”, explica o artista.

Na grafitagem usa-se spray, já no muralismo são galões de tintas para contar uma história, seguindo as irregularidades e características da superfície que será utilizada.

 

Apesar de todo o esforço, escola amanhece pichada

Enquanto o projeto de muralismo chileno, desenvolvido por alunos e professores, tenta resgatar a harmonia entre a comunidade e a escola nos muros externos da E.E. Luiz Zuiani, do lado de dentro, depredação.

Segundo os funcionários da unidade, na manhã da última quinta-feira, paredes, chão e até lousas amanheceram pichadas com tintas e sprays.

Nem mesmo a parede do lado de fora da escola, utilizada para a confecção do muralismo, ficou de fora. Na manhã de ontem, os estudantes preparavam o local depredado para receber novamente a pintura.

Revoltados, os estudantes informaram que as pichações possuíam dizeres como “A morte”, palavras que pareciam se tratarem de apelidos e iniciais de nomes.

Do lado de fora da unidade, nos muros da frente da escola, mais pichações realizadas em outros períodos indicam a constante luta da unidade pela não depredação.

De acordo com funcionários, a escola recebeu sua última pintura em 2011.

 

Envolvimento

Na manhã de ontem, os estudantes do período da tarde na escola, Paulo César Tomazine, 13 anos, e Otávio Monteiro, 11 anos, trocaram o descanso em frente à televisão em casa pela pintura nos muros da escola.

“Me sinto importante pintando a escola. É triste ver isso tudo pichado”, afirma Otávio. “Quero deixar a escola bem bonita e com a nossa cara”, completa Paulo.

Antes de iniciar as pinturas, os alunos que aceitaram participar da iniciativa precisaram de autorização dos pais e passaram por uma oficina teórica, promovida pelo artista chileno, durante uma semana.

Antes de ser realizado, o projeto passou por uma arrecadação de fundos para a compra de materiais, no qual professores e alunos venderam um doce para levantar a quantia.

Além de Carla e Francisco, participam do projeto os professores de educação artística, Márcia Shimokawa, de geografia, Willian Varella, de filosofia, Júlio César Campos e de sociologia, Cristiane Letter.

 

Comentários

Comentários