As incertezas que dominam a economia mundial não impediram que o Banco Central reduzisse em um ano, a partir de agosto de 2011, a taxa básica de juros da economia brasileira ? a Selic - de 12.5% para os atuais 7.25%, depois de longos anos de convivência maligna com as maiores taxas de juro real do universo conhecido. Com uma expectativa de inflação para os próximos 12 meses da ordem de 5,5%, nossa economia passa a conviver com uma taxa de juro real "civilizada", próxima de 2% ao ano.
É uma taxa distante do juro real do mercado internacional que anda as voltas de "menos 2%". O atual diferencial de juro interno e externo é parecido com 4%. Num ambiente de política cambial defensiva, deixa ainda margem para exploração de oportunidades lucrativas para o capital estrangeiro de curto prazo, principalmente diante da contínua enxurrada de liquidez produzida externamente.
A ata da última reunião do Conselho de Política Monetária registra os argumentos utilizados pelos membros do COPOM a Favor (5 votos) e Contra (3 votos) da redução adicional de 0,25% da taxa SELIC e a informação que se trata de um "último ajuste nas condições monetárias", acompanhada da convicção de que sua estabilidade promoverá um ambiente propício que, com movimentos não lineares, ajudará a economia a acomodar-se, num prazo não especificado, à taxa de inflação de 4,5% ao ano.
É claro que com o nível atual da atividade econômica (PIB em torno de 2% este ano), a preocupação com o crescimento assumiu um peso importante na decisão, mesmo porque nossa política econômica é de legítima defesa diante das políticas monetárias dos países desenvolvidos que procuram desvalorizar suas moedas. É preciso ser muito desinformado para não saber que os EUA tentam abertamente reduzir seu déficit em conta corrente investindo fortemente no aumento da oferta interna de energia e estimulando sub-repticiamente um dólar "fraco" para ampliar suas exportações.
Quais foram os argumentos vencedores na reunião do COPOM? Primeiro, que as incertezas e as fragilidades da situação mundial serão mais prolongadas do que se supunha que fossem e, assim, deverão nos ajudar com alguma redução da pressão inflacionária externa. Segundo, que boa parte dos recentes movimentos da taxa de inflação é produzida por "choques de oferta", cuja característica é a sua reabsorção no prazo médio, o que justificaria um último ajuste de 0.25% nas condições monetárias.
E os argumentos dos votos vencidos? Eles sugeriram que a recuperação econômica em marcha, induzida pelos estímulos monetários, fiscais e cambiais já concedidos, ainda não se completou e que, portanto, não seria necessário um corte adicional na taxa de juros SELIC.
Vemos que o dissenso foi mais questão subjetiva: como cada um pensa a velocidade e a eficiência com que o mundo poderá livrar-se das incertezas criados pela crise financeira de 2007. É difícil decidir quem, afinal, estará certo, por que o futuro continua mais opaco do que sempre foi e inexiste, de fato, uma liderança política mundial forte e bem informada. O "crash" atual entre a cabeça dura de Ângela Merkel e a mente vazia de François Hollande, somado às confusões que poderão advir do processo eleitoral americano, são as únicas coisas claras do cenário mundial! Note-se que não se tratou de um problema técnico. Passou a ser um problema de escolha na incerteza, com "probabilidades desconhecidas". A nossa "aposta" é que o cenário incorporado pelos votos dos vencedores tem maior probabilidade de realizar-se.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC