Ele tem 370 medalhas e cerca de 20 troféus. E ainda quer mais. Aos 80 anos de idade, enquanto você lê esta entrevista, Flávio Marcondes Motta, o Nabo, faz as malas para mais um desafio esportivo: uma das etapas do Campeonato Sul-Americano Master de Natação, em Manaus. “A natação está sendo minha meta. Eu encarei firme e cada campeonato é um novo desafio”, diz sobre a sua volta às piscinas depois de 40 anos.
A história do atleta com as piscinas começou em 1945 no Bauru Tênis Clube (BTC). Naquele ano, ele conquistou a sua primeira medalha e percebeu que se dava bem com a natação. “Na década de 1950, eu fui recordista bauruense nas categorias juvenil-sênior e adulto. Participei de várias competições regionais, Jogos Abertos do Interior e Jogos Noroestinos. Fui campeão algumas vezes em minha especialidade que é o nado costas”, ressalta.
Além da natação, Nabo foi destaque também no polo aquático. Entre os feitos, ele foi o técnico da primeira escolinha de polo aquático do BTC, em 1972, e foi nomeado membro do Conselho Técnico de Polo Aquático da Federação Paulista de Natação, em 1974.
Por causa do trabalho fora de Bauru, o atleta deixou as piscinas por 40 anos, período em que se dedicou ao tênis e foi um dos fundadores da “Turma dos 30”. Há cinco anos, ele voltou a nadar e a colecionar vitórias.
Também pelo esporte, o master bauruense foi homenageado em várias edições do “Troféu Ligado” e “Troféu Top Five”. E não é apenas no esporte que ele faz bonito, ao lado da esposa, Acyr Santinho, ele mostra como é ser um pé de valsa.
Família, desafios e conquistas também fazem parte da entrevista que você lê, a seguir.
Jornal da Cidade - Quando surgiu esse seu apelido, Nabo?
Flávio Marcondes Motta (Nabo) - (Risos) Ah, esse apelido me acompanha desde a adolescência, até minha esposa me chama assim. Minha mãe não gostava, mas o apelido pegou e a cidade toda me conhece como “Nabo”.
JC - Quando o senhor entrou pela primeira vez em uma piscina para competir?
Nabo - Isso foi em 1945, no BTC. Também foi quando conquistei a minha primeira medalha e percebi que me dava bem com a natação. Conquistei o 1º lugar no “Torneio Estímulo - Infanto-Juvenil”, depois fui recordista bauruense na década de 1950 nas categorias juvenil-sênior e adulto de 1953 a 1959. Participei de várias competições regionais, Jogos Abertos do Interior e Jogos Noroestinos. Fui campeão algumas vezes em minha especialidade que é o nado costas.
JC - Além da natação, o senhor também se dedicou ao polo aquático.
Nabo - Isso. Eu joguei polo aquático por 13 anos consecutivos, parei aos 37 anos de idade. O polo de Bauru, quando veio, veio com força total. Ganhamos vários campeonatos entre as décadas de 1950 e 1960. Entre as conquistas, fomos campeões e vice-campeões do Interior algumas vezes, além de termos conquistado o troféu de campeões Bandeirante também mais de uma vez. Foram muitas conquistas. Lutamos muito e tivemos grandes atletas, como o Paulo Zuicker, o Roberto Sampaio, o Rubens (já falecidos), o Genésio Silvestre, o Hélio Vanini... Todos guerreiros do polo aquático. Treinamos no calor ou no frio, e naquela época não havia piscina aquecida.
JC - Além destas conquistas, o senhor foi técnico da primeira escolinha de polo aquático do BTC, certo?
Nabo - Sim, isso em 1972. Como estreantes, fomos campeões paulistas algumas vezes, como nos anos de 1972, 1973 e 1975. Em 1974, fui nomeado membro do Conselho Técnico de Polo Aquático da Federação Paulista de Natação e recebi o troféu Melhores do Esporte como técnico e dirigente. Depois de ter feito várias gerações de polo aquático, eu precisei parar com o esporte para cuidar da vida. Fiquei 40 anos fora da água. Foi então que me dediquei mais ao tênis, com a “Turma dos 30”, mas somente aos finais de semana.
JC - O que o senhor quer dizer com “cuidar da vida”?
Nabo - Nessa época eu comecei a trabalhar fora, praticamente na divisa do Estado de São Paulo com o Mato Grosso do Sul. Eu fui funcionário dos Correios, era técnico de eletrônica e, depois de me aposentar, entrei na atividade empresarial de pavimentação asfáltica. Hoje eu ajudo minha filha Carla na loja “Elemento Natural”.
JC - Quando voltou a nadar?
Nabo - Há cinco anos eu voltei a nadar e não perco um só torneio. Eu e o Norival Agnelli vamos a todos e, praticamente, tudo é por nossa conta. Parece que não, mas os custos com os torneios de natação são altos, e pela primeira vez eu estou com um patrocínio que veio da “Turma dos 30” e do empresário Guaracy Francisco Ingracia (Bruna Semi-Joias). Este ano também saiu uma verba da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel) com a Associação Bauruense de Desportes Aquáticos (ABDA). No Circuito Paulista, nós representamos a ABDA. Também competimos com apoio da Prefeitura de Botucatu. Mesmo competindo pela equipe daquela cidade, nós treinamos em Bauru, na piscina da Multicobra, que também nos apoia. E por falar em ABDA, quando eu vi nascer o Projeto Futuro de Natação e Polo Aquático, mantido pela associação, eu vibrei, fiquei muito feliz. É um projeto lindo e muito importante para o esporte que está no meu coração.
JC - Qual é o seu próximo destino aquático?
Nabo - O próximo destino é a próxima etapa do Campeonato Sul-Americano Master de Natação, que vai do dia 31 de outubro a 3 de novembro, em Manaus.
JC - E o que o senhor sente quando entra em uma piscina para competir?
Nabo - Nossa, para mim é tudo, porque eu gosto de competir. Eu fiquei muito emocionado quando eu ganhei a primeira medalha de um campeonato brasileiro master. Até hoje fico emocionado quando falo sobre isso. Peguei gosto e decidi não parar de nadar. Já participei de cerca de 60 provas de campeonatos brasileiros e conquistei algumas posições respeitáveis. Por exemplo, eu e o Agnelli estamos em primeiro lugar no ranking brasileiro em nossas respectivas categorias, Agnelli na 60+ e eu na 80+, e lideramos o top five estadual.
JC - Qual é o segredo de um atleta aos 80 anos de idade?
Nabo - Há quem pense que a natação master é para idosos, mas é uma competição de alto nível, forte, a gente se esforça mesmo. Já o segredo está nos cuidados com a saúde. É preciso fazer o corpo mexer. Eu nunca bebi em excesso, nunca fumei, minha alimentação é boa... Quando jovem, eu andava muito por causa do meu trabalho e jogava tênis aos finais de semana. Até hoje mantenho boas amizades, brinco com meu neto Pedro, que vive em Bauru, e todo ano vou para a Patagônia argentina onde vive minha filha Flávia com meus outros dois netos, Pacal e Ayla. Muitos dizem que eu sou um exemplo, mas eu acho que o esporte deve ser levado a sério, principalmente pelos mais velhos por ser um ótimo remédio para o corpo e para a mente.
JC - E por falar em fazer o corpo mexer, dizem que o senhor é um ótimo dançarino...
Nabo - (Risos) No BTC, eu fui o Rei do Carnaval Juvenil e o Rei do Carnaval Adulto. Eu participava de todas as festas do Clube, até noivo caipira eu já fui. No BTC eu também fui diretor de natação por muitos anos. Já na dança, como a minha esposa dança muito bem e eu gosto muito de dançar, a gente não perdeu tempo e até hoje dançamos mesmo. Estamos curtindo bem a nossa vida.
JC - Qual foi a sua grande vitória?
Nabo - A vitória da minha vida foi a minha família. Todos nos unimos nos momentos difíceis e conseguimos vencer todos os obstáculos da vida com essa união.
JC - Um grande desafio.
Nabo - A natação está sendo um desafio (risos). Eu encarei firme e cada campeonato é um novo desafio e, agora, é a vez do sul-americano, onde espero ficar ao menos entre os cinco.