Cultura

Em versão abstrata

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 6 min

Quioshi Goto

Viviane Mendes fala de caos, inclusive de pensamentos, em sua nova coleção

Conhecida por seus quadros cheios de personalidade e feitos com colagens de materiais como lantejoulas, pedrarias e botões, além do abuso de cores fortes e vibrantes, a artista plástica Viviane Mendes experimenta uma nova fase exposta, hoje, das 15h às 18h, dentro do Umbanda Fest 2012, no Teatro Municipal.

Será exposta uma coleção de oito quadros - todos feitos em 2012 -, batizada de “2012: O Caos Planetário”, onde a artista leva ao público a sua suavidade intuitiva: “Acho que a arte é energia e precisa ser compartilhada”, afirma. 

Nesta nova fase de Viviane, as colagens, borboletas, gatos e mandalas dão lugar à arte abstrata feita com vários tipos de tintas coloridas e vibrantes. “Cada quadro tem um nome e uma razão de ser. Um deles eu chamo de “Caos Planetário”, nome pensado em consequência da matança de golfinhos, do tsunami no Japão e do comportamento repetitivo da humanidade”, explica.

A nova coleção da artista fala basicamente de caos, inclusive dos pensamentos, crenças, condicionamentos e ideologias humanas. Um dos mais interessantes é a representação do planeta com o arco-íris em volta, o que representa a cura da Terra e leva o nome de “Planeta Regenerado”.

“Este é um trabalho cheio de significados exotéricos por causa do caos planetário de 2012. Fui jogando tintas, raspando, pintando... Sem regra de contornos. Foi a primeira vez que saí da minha linha. Gosto de experimentar coisas novas e sempre quis fazer um trabalho com tais características. A ideia da exposição também é para mostrar esse meu outro lado”, finaliza.


Umbanda Fest 2012

Em sua sétima edição, o Umbanda Fest vem com o tema “Sete anos a caminho da união”. Como já é tradição, atrações de várias partes do Brasil se apresentam no palco do Teatro Municipal com shows musicais, de dança, além de apresentações diversas como teatro, entre outros.

O Teatro Municipal fica na avenida Nações Unidas, 8-9, e abre as portas para o evento, hoje, a partir das 15h. A festa cultural é aberta a toda a população e tem entrada gratuita. Entretanto, os organizadores pedem a doação de um brinquedo em bom estado que será doado para famílias de baixa renda. Mais informações pelo telefone (14) 9663-2012 e no site www.umbandafest.com.br.

Morada para olhares distantes

Planetas expostos no universo como obras de arte. Quadros vivos, disformes, em movimento, respirando, pendurados por fios invisíveis numa infinita e labiríntica galeria galáctea.  

Quem pintou o amarelo-quindim do sol? E os anéis de Saturno? Quem acertou o vermelho de Marte? E o azul-turquesa do mar de Istambul? E o verde-vida quase bíblico, do paraíso amazônico?

Será que foi mais de um Deus? Ou simplesmente um artista de uma estrela qualquer sem poderes imortais? Estaremos todos dentro de uma obra de arte?

Essa nova exposição de Viviane Mendes nos faz pensar na Humanidade muito além do nosso tempo e lugar; remete-nos a um Homem bem maior, à importância de uma civilização mais evoluída; convoca-nos à certeza de que não estamos sozinhos no Universo. 

Eu, particularmente, tenho quase sempre essa sensação quando minha alma se permite espiar pela obra pulsante de Viviane Mendes. Sou tomado pela emoção que me arranca do chão e me faz voar por dentro.   Paro cara a cara com a Terra. Sinto a explosão primeva, o nosso mundo nascer, o caos da criação se cristalizar como uma tela pintada a milhares de mãos, tocada simultaneamente por um conjunto de pincéis e espátulas, todos enlouquecidos numa aventura coletiva, disputando cada nuance dos lampejos das tempestades solares, do brilho da poeira cósmica,  das cores e dos tons do arco-íris, na tentativa, praticamente impossível, de dar algum sentido definitivo à vida. Mas que nada, como as obras de arte, as verdades também são provisórias.

As obras de Viviane são janelas entre dois mundos. Morada para olhares distantes. Ao ser analisado pelos quadros dela, sinto a força que faz a ARTE criar e reinventar a vida a cada dia. Impossível não se deixar invadir pela curiosidade desses seres vivos que essa artista que mora no “não lugar”, gerou.  Os quadros de Viviane analisam, estudam seus admiradores mais do que possamos imaginar.  Quando paramos diante de um deles e fazemos aquela pergunta tradicional: O que será que ela quis dizer com isso? Pode  ter certeza, nesse instante, o quadro já sabe muito mais sobre você do que você sobre ele. Há uma infinidade de olhares subjetivos. Flertam com a gente em busca de essência... É o perigoso olhar da ARTE. Mas não tenha medo. Deixe a ARTE te levar nessa viagem sem destino.

Permita-se estar à deriva diante de uma obra de Viviane. Elas funcionam como espelhos ao contrário. Folhas de amoras, territórios para lagartas a espera do tempo da transformação. Sábias as palavras de Machado de Assis: “cada criatura humana traz duas almas consigo; uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro”. Ou não seriam mais? Quantas almas habitam uma obra de arte? 

Os quadros de Viviane nos fazem refletir o gênesis, voltar para útero da mãe ARTE na sua mais perfeita  tradução. Portanto, somos frutos da satisfação imaginária dos desejos inconscientes, dos sonhos, da intuição, de um coração de artista. Quadros são portos inseguros. E não podia ser diferente.

Quantas Vivianes há em cada tela? Muitas, infinitas... Assim como são as árvores de uma floresta ou as gotas de água num oceano, ou ainda, as asas incansáveis que garantem o espetáculo colorido de uma revoada de borboletas.   

Pinceladas de poesia e também de protesto. Os quadros de Viviane nos remetem à mensagem feita pelo diretor James Cameron no filme Avatar. O cineasta critica o homem que destrói a natureza e a vida em prol do lucro sem limites. Apesar do planeta Pandora não existir, a exploração e destruição mostradas no filme são reais e já aconteceram em diversas partes da Terra, obrigando tribos indígenas, por exemplo, a abandonar suas aldeias e sua cultura.

Esse protesto da artista pode ser vista especialmente na tela Caos Planetário, onde ela nos chama atenção para a fúria da natureza em resposta às agressões cometidas pela raça humana, entre elas, a matança de golfinhos, por exemplo.  No quadro, o tom vermelho predomina; o vermelho do incêndio das noites em Dresden; o sol em Rousseau, a bandeira de Delacroix, o manto em El Greco, como bem definiu o pintor russo Mark Rothko. Viviane, o que é vermelho?

Assim como Rothko, a artista usa a cor como meio único de expressão criando os chamados “campos de cor”, típicos de uma das vertentes do Expressionismo Abstrato. V de vermelho, V de vida... Mas também o tom da tragédia, da catástrofe, da morte. A cor da ira da natureza lançada sobre a humanidade em forma de terremotos, guerras, enchentes e tsunamis como o que ocorreu no Japão em 2011.

A própria Viviane dá o exemplo e cria sua ARTE com materiais que seriam descartados como rolhas, carretéis, tecidos, botões... Tudo para estimular a sustentabilidade do Universo. E Viviane tanto acredita num planeta regenerado que também pintou um quadro com esse nome.  A artista faz o seu papel e nos convida para perseverar e compartilhar com ela o sonho de um mundo melhor.  (Lucius de Mello, jornalista e escritor)

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