Ele é bastante perigoso, silencioso e mais comum do que as pessoas imaginam. Trata-se do acidente vascular cerebral (AVC), doença que, somente este ano, em Bauru, matou uma pessoa a cada dois dias. Hoje, no Dia Mundial do AVC, especialistas alertam a população a conhecer os principais sintomas que podem salvar uma vida.
A doença é conhecida popularmente como derrame e se trata de uma alteração no fluxo sanguíneo do cérebro. O AVC é dividido em dois tipos: o isquêmico e o hemorrágico. O primeiro é basicamente o entupimento das artérias responsáveis pela irrigação cerebral. Já o segundo é o derrame de sangue no cérebro. “Mas os dois são preocupantes e podem trazer graves sequelas e mesmo a morte”, alerta o neurologista Laertel Fernandes Fassoni.
E a gravidade da doença é comprovada pelos números. De acordo com dados da Secretária Municipal de Saúde de Bauru, somente em 2012, já foram registradas 116 mortes por conta da doença. Os dados são referentes ao período compreendido entre janeiro e julho, o que gera uma média de 16,5 mortes mensalmente.
E essa estatística de mortalidade refere-se somente aos bauruenses. Além deles, há os que são de outras cidades da região, mas procuram o tratamento para o derrame em Bauru. Desse grupo, outras 36 pessoas morreram no município até julho de 2012.
Se a média for mantida, o número de óbitos de bauruenses deve ultrapassar 200 casos. Ainda de acordo com os dados do município, desde 2009, a cidade não registra mortalidade abaixo desta quantidade.
O neurologista Laertel Fassoni explica que, além do quadro fatal, o derrame pode trazer graves consequências. “Entre as consequências estão a hemiplegia (paralisação de toda uma metade do corpo), a perda da fala e quadros de demência”.
Segundo o médico, a gravidade das sequelas depende da extensão do problema. A agilidade no atendimento também conta e, por isso, é fundamental que as pessoas conheçam os sintomas do derrame. “Há casos de AVC hemorrágico que é necessário fazer cirurgia. Porém, passada a fase aguda do problema, em qualquer caso, o paciente vai precisar ter uma vida regrada”, complementa.
Prevenção
“Como tudo na vida, a prevenção é a moderação”, aconselha o neurologista. Segundo ele, as principais medidas para se prevenir de um AVC são manter uma alimentação saudável, não fumar, não beber e fazer exercícios físicos com regularidade.
E na contramão dessas medidas preventivas está exatamente o grupo de risco. Entre eles, estão pessoas com idade avançada, pressão alta, fumantes, diabéticos ou quem têm problema de colesterol e arritmia. Além desses, quem tem histórico familiar de AVC ou já passou pelo problema deve ficar atento.
“Se a pessoa tiver alguma suspeita de que está tendo um AVC, deve, imediatamente, procurar socorro. Isso pode fazer toda a diferença”, finaliza o neurologista Laertel Fassoni.
‘Eu reaprendi a falar’, conta professor que teve 4 AVCs
Na definição do dicionário, memória significa a faculdade de conservar e lembrar estados de consciência passados. É por ela que o professor Darvino Concer se destaca em meio a tantas regras e exceções da língua portuguesa. Porém, há dois anos, um AVC atingiu exatamente essa área da mente do professor. Foi o quarto derrame dele.
“Afetou a memória e a fala. Eu tive que reaprender a falar e a escrever”, aponta Darvino. Ele explica que, hoje, seu pensamento continua rápido, porém, a fala é lenta. Por sorte, a memória foi afetada de maneira parcial.
“Minha memória linguística foi mantida. Eu escrevi recentemente um guia prático de radicais gregos e latinos. Porém, minha memória matemática ficou muito prejudicada. Há contas simples que eu tenho dificuldade para fazer”, conta.
O professor sofreu seu primeiro AVC aos 44 anos e teve sequelas temporárias. Segundo ele, ficou com o rosto paralisado, visão dupla e teve os movimentos dos membros superiores e inferiores prejudicados. “Os três primeiros foram assim. Essas sequelas foram temporárias. Fiquei um mês e meio com elas. Era como se estivesse bêbado”, exemplifica aos risos, demonstrando que o bom humor não foi afetado.
Os médicos descobriram que o sangue de Darvino é “grosso”, facilitando a formação de coágulos. Há três anos, ele faz tratamento com quimioterápicos. “Hoje, tenho uma vida regrada. Não fumo e não bebo. Acho que isso é fundamental. Mas, mesmo assim, considero-me um abençoado”, finaliza o professor Darvino Concer.
Por dia, região de Bauru registra média de cinco internações por derrame
O número de internações por conta de AVC é muito grande em todo o Brasil. De acordo com dados da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, no ano passado, a região de Bauru teve 1.758 pessoas internadas com a doença. A média é de quase cinco internações por dia.
Os mesmos dados apontam 39 mil internações em todo o Estado, número bastante semelhante ao ano anterior, quando houve 38,9 mil internações.
Especialistas apontam que é importante registrar o horário em que os primeiros sintomas apareceram.
Se houver rapidez no atendimento do AVC - até 4 ou 5 horas do início dos sintomas -, um medicamento que dissolve o coágulo pode ser dado aos pacientes com AVC isquêmico, diminuindo a chance de sequelas.
5 anos: mais de mil mortes
Uma pesquisa da Organização Mundial de AVC (World Stroke Organization -WSO) aponta que, a cada seis segundos, independentemente da idade ou sexo, alguém em algum lugar do mundo morre de um AVC. Nos últimos cinco anos, Bauru já teve mais de mil mortes por conta da doença.
Segundo dados da Secretária Municipal de Saúde, o total de bauruenses vítimas fatais de derrame desde 2007 é 1.075. O ano com maior número de mortes foi 2010, com 212 casos.
Além dos bauruenses que somam essa triste estatística, há outras 362 pessoas que morreram no município.
Essas vítimas residem em outras cidades, porém, procuraram atendimento em Bauru.