O homem acusado de ter abandonado o filho de 4 anos dentro do veículo após grave colisão no fim de semana, em Bauru, continua desaparecido. Gilmar Rodrigues da Silva, 32 anos, não é considerado foragido, porém, a Polícia Civil espera encontrá-lo para esclarecer o que o levou a abandonar o local do acidente. O garoto continua em estado grave e o pai pode ser acusado até de tentativa de homicídio.
O acidente ocorreu na madrugada de sábado, na quadra 16 da avenida José Henrique Ferraz, próximo ao Recinto Mello Moraes. Gilmar conduzia um Renault Scenic quando colidiu na traseira de um caminhão estacionado.
Após o acidente, o homem teria abandonado o local. O detalhe é que ele também deixou, dentro do carro acidentado, seu filho de 4 anos. Moradores próximos ao local onde a colisão ocorreu disseram que o motorista aparentava estar embriagado. O fato foi relatado também por vizinhos de Gilmar, que disseram ainda ter havido uma grande confusão na rua antes do acidente (leia mais abaixo).
A Polícia Militar (PM) e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foram acionados para atender a colisão. O garoto foi encaminhado ao Pronto-Socorro Central (PSC) de Bauru, entretanto, por conta da gravidade dos ferimentos, precisou ser transferido para o Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina de Botucatu.
O caso é investigado pelo 1º Distrito Policial (DP). De acordo com o delegado titular Dinair da Silva, a polícia está empenhada em localizar Gilmar da Silva, que está desaparecido desde o momento do acidente.
“Ele só é considerado foragido quando já há mandado de prisão expedido. Não é o caso. Mas estamos empenhados em encontrá-lo. Ele vai vir à delegacia de duas formas: ou se apresentando ou quando a polícia o encontrar”, afirma o delegado.
O BO foi elaborado como lesão corporal e choque, porém, Dinair explica que o inquérito pode evoluir para a omissão de socorro e até mesmo tentativa de homicídio. “Se o pior vier a acontecer, ele pode até ser acusado de homicídio culposo ou mesmo doloso. Ainda é cedo para falar, mas há algo de anormal nesse caso”.
As investigações aguardam laudo da perícia para determinar as circunstâncias em que o acidente ocorreu, como a velocidade do veículo. A apuração que pode indicar se houve dolo ou não é em relação a um possível estado de embriaguez do motorista.
“O carro em que eles estavam nem era do motorista. Ouvimos o proprietário do carro hoje (ontem), que afirma ter vendido para um familiar de Gilmar. Também iremos ouvir a esposa dele e outros parentes”, complementa o delegado.
Estado grave
Até o fechamento desta edição, a criança continuava internada no HC de Botucatu e seu estado era considerado grave. De acordo com a assessoria de comunicação da instituição, o garoto respira com a ajuda de aparelhos.
O hospital informa ainda que ele deu entrada no sábado com traumatismo crânio encefálico grave. “O paciente encontra-se no momento em ventilação pulmonar mecânica e estável hemodinamicamente, sob os cuidados do Serviço de Terapia Intensiva
Pediátrica, sem previsão de alta”, aponta o HC, em nota.
Ontem, a reportagem não conseguiu entrar em contato com a mãe do menino.
Vizinhos relatam ‘confusão com polícia’ antes do fato
Na rua onde a família mora, na Vila Souto, só se fala do caso desde o fim de semana. Alguns vizinhos defendem Gilmar da Silva, dizendo que ele é um pai trabalhador e carinhoso. Outros afirmam que ele tinha problemas frequentes ocasionados pelo uso excessivo de álcool.
Um desses problemas teria ocorrido pouco antes do acidente. “Vieram quatro viaturas (da PM). Ele estava bem exaltado na via e precisou ser contido. Parece que tinha brigado com algumas pessoas na rua de cima. Os policiais mandaram que ele se acalmasse. Ele bebe bastante”, conta um morador, que não quis ter a identidade revelada.
Outra vizinha, entretanto, afirma que Gilmar da Silva só estava defendendo seu outro filho. Além do garoto que se acidentou, ele tem mais duas crianças, com idades de 10 e 11 anos. “Um dos filhos dele tomou um tapa na cara de um jovem ali na rua de cima. O Gilmar foi tirar satisfação com essa pessoa e foi o motivo de toda a confusão”, relata a mulher, que se diz amiga da família.
Ela, assim como outros moradores, não negam que Gilmar tenha ingerido álcool antes de sair de casa. A mulher ainda faz questão de ressaltar que não houve qualquer briga entre os pais da criança e que o cunhado de Gilmar acompanhou o garoto no Samu. “Ele não estava sozinho no socorro”.
Questionada pela reportagem sobre o porquê do motorista ter deixado o filho e abandonado o local do acidente, ela diz que “não pode revelar”. Outros vizinhos não acham que pode haver motivo cabível. “É um absurdo. Temos que socorrer até um desconhecido. Quem dirá um filho”, rebate outro morador da rua.
Mãe de Gilmar afirma que não o vê desde o acidente
Bastante abalada, Noemias Guilherme Rodrigues, 53 anos, chora ao comentar toda a situação. Ela é avó do garoto hospitalizado e mãe de Gilmar Rodrigues da Silva. “Eu não vejo meu filho desde o acidente. Não sei nem se ele está vivo. Mas, meu Deus vai cuidar de tudo”, exclama, apontando as mãos para o céu.
Questionada se o filho tem problemas com álcool, ela diz que não, entretanto, confirma que, no dia do acidente, ele havia bebido um pouco.
“Não durmo direito desde o dia do acidente. Tivemos que levar os dois outros garotos para a feira para distraí-los um pouco. Eles nem foram à escola hoje e estão na casa de um familiar”, conta Noemias Rodrigues.
Ela ainda dá uma versão diferente aos fatos. Diz que o garoto não saiu de casa com o pai. “Ele estava na casa de uma tia. O pai tinha ido buscá-lo quando a tragédia ocorreu”.
Enquanto a reportagem conversava com a mãe de Gilmar, vizinhos se manifestaram e tentaram interromper a entrevista. De acordo com eles, a mulher “não teria condições de falar”. O fato gerou até uma discussão no local.