Polícia

Pai será investigado por tentativa de homicídio com dolo eventual

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Malavolta Jr. 

Gilmar, com a cabeça machucada (à dir.), chegou para depor junto com o cunhado Nilson

Gilmar Rodrigues da Silva, 32 anos, finalmente se apresentou à Polícia Civil depois do acidente do último fim de semana que causou comoção nacional. Ele teria batido o veículo e fugido do local, deixando seu filho de 4 anos dentro do automóvel. Segundo a defesa do acusado, que irá responder em liberdade, tudo não passou de um “grande mal entendido”. A Polícia Civil, porém, de instaurar inquérito por tentativa de homicídio com dolo eventual.

O acusado, que trabalha como poceiro, apresentou-se ontem no 1.º Distrito Policial (DP) por volta das 15h. Acompanhado da irmã e do cunhado, ele chegou com o rosto bastante machucado e não falou com a imprensa. Sua declaração, acompanhada do advogado João Batista de Souza, durou pouco mais de uma hora.

Ao final, o defensor conversou com a imprensa. Segundo ele, o que ocorreu foi um grande mal entendido. “O Gilmar sofreu o acidente e saiu atordoado. Ele foi até a casa de sua irmã, que é ali por perto, para procurar socorro. Lá, desmaiou”, conta o advogado.

Irmã e cunhado do motorista teriam ido socorrer a criança, tanto que eles acompanharam a vítima no Samu. A versão apresentada por Gilmar e que será sustentada pela defesa é de que, enquanto isso, ele teria retomado a consciência e desaparecido.

João Batista afirma que seu cliente perambulou sem rumo por grande parte da cidade, uma vez que o acidente ocorreu próximo ao Recinto Mello Moraes e ele foi encontrado na Bela Vista. “Por conta do acidente, ele ficou desorientado. Perdeu os sentidos e saiu vagando”.

Familiares contaram que localizaram Gilmar no sábado à noite, porém, em entrevista coletiva, a defesa afirmou que foi somente no dia seguinte. Demonstrando estar bastante abatido, o pai se limitou a dizer que queria voltar no tempo.


Dolo eventual

Apesar das explicações, de acordo com o titular do 1.º DP, Dinair da Silva, a declaração do pai foi vista com “reserva” pela Polícia Civil. “Iremos ouvir todas as testemunhas do local do acidente, do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), da rua onde o Gilmar mora e de familiares. Também precisamos aguardar o laudo pericial e do Instituto Médico Legal (IML)”.

Conforme o JC divulga hoje, o inquérito será instaurado por tentativa de homicídio com dolo eventual. Isso significa que, no entendimento preliminar das investigações policiais, Gilmar Rodrigues teria assumido o risco de matar.

“Iremos fazer as investigações nesse sentido porque o Gilmar se evadiu ao local do acidente e porque há grandes probabilidades de a criança estar sem cinto no momento em que a colisão ocorreu”, completa o delegado.

Havia sido realizado um pedido de mandado de prisão temporária para Gilmar Rodrigues da Silva, porém, como ele se apresentou, a solicitação foi indeferida pela Justiça. 


‘Queria estar no lugar dele’, lamenta o pai

Na apresentação na delegacia, o poceiro Gilmar Rodrigues da Silva demonstrou estar bastante abatido. De acordo com familiares, ele não teve atendimento médico até agora. Questionado sobre o porquê de não ter ligado para a família e o motivo de ter saído do local, ele não respondeu.

O motorista só quebrou o silêncio ao falar da relação com o filho. “Ele é o bem mais precioso que tenho. Tudo que eu faço na minha vida é pelo meu filho”.

Gilmar ainda disse que quer melhorar logo para encontrar o garoto. E completou que queria voltar no tempo. “Faria tudo diferente. Eu queria estar no lugar dele se eu pudesse”, conclui.


O caso

O acidente ocorreu na madrugada de sábado, na quadra 16 da avenida José Henrique Ferraz, próximo ao Recinto Mello  Moraes. Gilmar conduzia um Renault Scenic quando colidiu na traseira de um caminhão estacionado.

Após o acidente, o homem teria abandonado seu filho de 4 anos dentro do carro. A Polícia Militar (PM) e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foram acionados para atender a colisão. Desde então, o garoto está internado no Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina de Botucatu.


Estado grave

Apesar de familiares afirmarem que o garoto apresentou melhora significativa e já saiu da Unidade de Terapia Intensiva (UTI), a assessoria de comunicação do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina de Botucatu negou a informação.

Segundo a instituição, o garoto continua internado com “traumatismo crânio encefálico grave, em ventilação pulmonar mecânica e estável hemodinamicamente, sob os cuidados do Serviço de Terapia Intensiva Pediátrica, sem previsão de alta”.


Advogado diz que Gilmar ‘tomou uma cervejinha’

Moradores próximos ao local onde a colisão ocorreu disseram que Gilmar Rodrigues aparentava estar embriagado. O fato foi relatado também por vizinhos de Gilmar, que disseram tê-lo visto bebendo.

“Ele tomou uma cervejinha ao fim do expediente, mas não estava embriagado. Foi para casa, dormiu, acordou e foi buscar o filho. O menino estava na casa de um familiar ali próximo. Na hora do acidente, estava chovendo e a visibilidade estava baixa. Por isso, ele não viu o caminhão”, argumenta o advogado João Batista de Souza, complementando ainda que o carro não estava em alta velocidade.

Além disso, o defensor nega que tenha havido uma confusão grande momentos antes do acidente. De acordo com vizinhos da família, Gilmar se envolveu em uma briga, em que várias viaturas da Polícia Militar (PM) foram acionadas.

“A confusão ocorreu, porém, foi na parte da tarde”, aponta o advogado ao ser questionado sobre a divergência entre a informação de que seu cliente estaria dormindo e o relato dos vizinhos.


Sem cinto?

O garoto estaria no banco de trás quando o acidente ocorreu. De acordo com o que a reportagem apurou junto a familiares, ele teria tentado ir para o banco da frente pouco antes da colisão. Entretanto, segundo a Polícia Civil, a probabilidade de a criança estar sem cinto é muito grande.

“Iremos apurar isso. É algo que não está confirmado, porém, é muito provável que ele estava sem cinto. Também iremos ver se a omissão de socorro não foi fundamental para o quadro do menino ter se agravado”, destaca o delegado Dinair da Silva. 

Comentários

Comentários