Polícia

Caso da tornozeleira:?Nós não queremos a exumação?, diz irmão

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 4 min

No último dia 20, o ex-cobrador de ônibus Adolfo Geraldo Eloy completava 48 anos. Às 22h daquele dia, seu irmão, Luiz Carlos Eloy, era baleado na Vila Santista. Depois de seis dias de internação, o homem, que cumpria pena e estava beneficiado pela saída temporária, não resistiu e morreu. O problema é que, conforme o JC revelou com exclusividade ontem, ele foi enterrado com a tornozeleira de monitoramento. O fato revoltou os familiares, que dizem ter aumentado a dor da perda.

O que mais indignou a família é o fato de a Secretária da Administração Penitenciária (SAP) declarar que vai ser preciso a exumação do corpo de Luiz Eloy para retirar o equipamento. “Não queremos a exumação. Foi um erro deles. Se eles erraram, que o equipamento fique onde está. Agora desenterrar o meu irmão para isso? É um absurdo”, questiona Adolfo Geraldo.

Segundo ele, as visitas no Hospital de Base (HB) só foram permitidas no dia após Luiz Eloy ter sido baleado. “Fui lá no domingo e ele estava inconsciente. Depois, havia policiais na porta do quarto e diziam que meu irmão estava sob responsabilidade da penitenciária”, conta Adolfo.

O irmão relata que, depois desse dia, só ficou sabendo do estado da vítima por meio de “recados”. “Na quarta-feira, disseram que ele havia melhorado e que eu poderia visita-lo só na outra semana. Na sexta, recebi o telefonema de que ele havia falecido”.

Como foi informado que Luiz Eloy estava sob responsabilidade da SAP, Adolfo alega que o erro é também de responsabilidade deles. “Eles nos privaram de tudo. O último adeus que dei ao meu irmão foi depois que ele estava morto. Não nos deixaram vê-lo, cometeram esse erro e agora querem desenterrá-lo”.

A SAP confirma que houve um equívoco. De acordo com a secretária, foi uma “falha de comunicação” entre o Centro de Progressão Penitenciária 1 (CPP1) - onde o reeducando cumpria sua pena - e o HB. A exumação para a retirada da tornozeleira está prevista para amanhã.

“Se eles realizarem a exumação, iremos acionar a Justiça contra o Estado. Minha mãe é idosa e sofreu muito com tudo. Iremos querer danos morais. Eles não podem fazer isso por causa de uma negligência deles mesmos”, completa Adolfo Eloy.

Além de confirmar a necessidade da exumação, a assessoria de comunicação da SAP afirmou que, por meio da Corregedoria Administrativa do Sistema Penitenciário, o caso será rigorosamente investigado.


Assassinado

Luiz Carlos Eloy foi baleado por volta das 22h do último dia 20. O mototaxista cumpria pena há três anos por tráfico de drogas e associação. No regime semiaberto, ele foi beneficiado com a “saidinha” do Dia das Crianças.

Na ocasião do crime, o mototaxista trafegava pela quadra 25 da avenida Comendador José da Silva Martha. Um Palio bateu contra ele, derrubando-o da motocicleta. Com a vítima no chão, os ocupantes do carro fizeram vários disparos.

Depois de seis dias internado, o reeducando não resistiu e morreu. “No sábado (27), por volta do meio-dia, o corpo foi liberado. Ele foi velado muito rápido e sepultado no Cemitério do Redentor. Ele foi enterrado em um ‘terreno’ com outro familiar. Eles vão ter que mexer em dois corpos para desenterrá-lo. Não dá para aceitar”, lamenta o irmão de Luiz Carlos, Adolfo Geraldo Eloy.

 

‘Ele não era um monstro’, desabafa familiar de reeducando assassinado

Além de demonstrar toda indignação com o erro da Secretária da Administração Penitenciária (SAP), Adolfo Geraldo Eloy afirma que seu irmão “não era um monstro”. “Ele cometeu um erro e pagava por ele. Mas era uma pessoa com um coração imenso”.

Luiz Carlos Eloy tinha dois filhos, com idades de 7 e 11 anos. “Ele gostava muito da família. Tinha um amor na nossa mãe que você nem imagina”, relata o irmão, vendo o álbum de formatura do terceiro colegial de Luiz Carlos.

Adolfo ainda contesta as passagens criminais que foram divulgadas pela polícia ao JC. Segundo ele, o reeducando não “carregava” nenhum homicídio e não tinha nove anos de pena a cumprir. “Ele pegou 12 anos, mas apelamos e a pena caiu para cinco anos”, finaliza. 

 Sem avisar 

Se já não bastasse o erro, outro ponto deixou os familiares indignados. De acordo com eles, não houve qualquer aviso de que a falha havia ocorrido. “Ninguém falou nada para nós. Como iríamos ficar sabendo disso?”, questiona Adolfo Geraldo Eloy.

“É por isso que dizem que a imprensa é o que faz a democracia. Se não fosse o Jornal da Cidade divulgar, acho que nem ficaríamos sabendo de nada. Eles podiam ir lá, desenterrar meu irmão e não falar nada. Isso não pode ficar assim”, finaliza.

 

 

 

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