Articulistas

Limites do Crescimento: 40 anos

Klaudio Cóffani Nunes
| Tempo de leitura: 4 min

Em 1968, quando o mundo estava atolado nas neuroses da Guerra Fria e da corrida armamentista entre EUA-URSS, em uma pequena villa em Roma, na Itália, um pequeno grupo de proeminentes profissionais atuantes em vários setores da sociedade questionava sobre o dilema da predominância do pensamento de curto prazo nas relações internacionais e, em particular, a ideia dominante na economia ? capitalista e socialista ? de que o mundo era enorme, podia-se produzir, extrair, desmatar sempre, sem preocupações relativas ao consumo ilimitado de recusos naturais. Nesta reunião nasceu o Clube de Roma e este clube (uma ONG, como a Igreja, a ONU, o Rotary, a Maçonaria, o Vidágua, etc) ? focado em desenvolver pensamentos e estratégias com visão de longo prazo, repensando o modelo capitalista de produção, oferecendo oportunidades para o desenvolvimento sustentável - contratou uma pesquisa junto a professores do MIT (de Massachussets), os quais dedicaram cerca de dois anos ao projeto e, em março de 1972, o Clube de Roma divulgou seu primeiro relatório, denominado "Limites do Crescimento". Este livro produziu um efeito sensacional por conta de sua mensagem claríssima, sobre os limites do crescimento desenfreado da economia (exploração da natureza, consumo de produtos e geração de resíduos) e da população humana. Se tornou um best seller, vendendo mais de 12 milhões de cópias em 37 idiomas e foi uma das primeiras publicações científicas sobre o tema. A maioria dos cenários obtidos pelo crescimento desenfreado da população e da e produção econômica se mostram insustentáveis até o ano de 2030. Somente medidas drásticas de proteção ambiental se mostraram aptas a mudar o comportamento das pessoas, da produção e do consumo. A população e economia devem parar de crescer indefinidamente. Naquela época, o Brasil tinha 90 milhões de habitantes; hoje tem 190 millhões. O Mundo tinha cerca de3,5 bilhões de habitantes; hoje tem 7,3 bilhões. A produção econômica mais que decuplicou. A poluição e a degradação sócio ambiental chegaram a tal ponto que hoje temos o aquecimento global, as mudanças climáticas, desaparecimento de rios e da biodiversidade, doenças matando milhares e milhares de pessoas. Estamos vivendo nos limites do crescimento. Já mudamos muito nosso comportamento, na indústria, no comércio e nas residências. Mas ainda temos industriais (gananciosos ou ignorantes) que não adotam sistemas de gestão ambiental porque julgam caro. A ciência e os vencedores provam que eles estão errados. Se eles acham caro evitar a poluição, quanto eles pensam que custa a punição e a obrigação de remediação e recuperação dos danos causados? Ainda temos consumidores (ignorantes ou porcos) que espalham seus lixos pelas ruas, caçambas, calçadas, terrenos baldios, rios, lagos e mares. Já controlamos o crescimento populacional com educação, debate, novas técnicas e novas mentalidades. Mas ainda não controlamos a degradação ambiental. A indústria está agindo cada vez mais e melhor, mas falta-lhe se acostumar a contratar consultores, assessores qualificados para auxiliá-la com agilidade. Faltam-lhe profissionais qualificados e, no entanto, nossas instituições de ensino são pouco dedicadas a promover a rápida, necessária e urgente capacitação. Várias inventam nomes e cursos "ambientais", mas falham na ambientalização de seus currículos, de sua adminsitração de câmpus e no desenvolvimento de visão sistêmica. Não se iludam, há sim limites para o crescimento. Mas não há limites para o desenvolvimento sustentável, nem limites para o aprimoramento de produtos, processos, métodos e atividades sustentáveis. Há bilhões de reais aguardando que empreendedores brasileiros invistam em "negócios sustentáveis", mas para isso necessitamos de profissionais sustentáveis. Quem pauta o consumo é a indústria, que produz o que é consumido. Ela decide as matérias- primas, os processos, os resíduos, a logística. É ela quem vai faturar muito reciclando tudo o que é produzido e produzindo tudo, sem elevar o impacto sócio ambiental. Há 40 anos atrás aprendemos que há, sim, Limites para o Crescimento.

Hoje sabemos que não há limites para o sofrimento, nem para o desenvolvimento sustentável, nem para a ignorância e nem para a competência. Obs. Ontem, 1º de março, no Smithsonian (Washingont D.C), está ocorrendo um espetacular seminário: Perspectives on Limits to Growth: Challenges to Building a Sustainable Planet. Acesse via internet: http://www.clubofrome.org.


O autor, Klaudio Cóffani Nunes, é diretor de Meio Ambiente do Ciesp. Geógrafo e advogado, mestrando em Engenharia de Produção na Unesp de Bauru. Atua como consultor em Gestão Ambiental e Sustentabilidade. E-mail: sustenthabil@gmail.com

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