Há cinco anos, desde que foi golpeado pela crise dos mercados financeiros, o mundo não apenas trabalha para se livrar das mazelas que ela trouxe, como se esforça para entender, pelo menos, as causas da tragédia. Como tantos governos, seus bancos centrais e respectivos órgãos reguladores puderam ser reduzidos à impotência pelos financistas e economistas que "inventaram" a teoria dos mercados eficientes? Até mesmo os organismos internacionais que se presumia tinham mandato para vigiar o comportamento dos mercados falharam melancolicamente.
Uma explicação aceita hoje com sinistra conformidade é que as sofisticadíssimas inovações introduzidas pelos agentes nos mercados financeiros e a nova velocidade em que as operações passaram a ser realizadas, nunca foram compreendidas adequadamente nos órgãos reguladores. Esse padrão de ignorância não esteve limitado aos organismos nacionais, pois ficou evidente, depois, que entidades globais como o Fundo Monetário Internacional, o BIRD, o Banco Central Europeu e outros padeceram de falhas similares.
Agora está claro que a crise não foi produzida pela política monetária: ela foi produto de uma dramática falha de regulação e supervisão. Com seu poder no Congresso dos EUA e apoio em construções "ad hoc" de famosos economistas, o sistema financeiro desmontou em 1999 a regulação imposta nos anos 30 do século passado em resposta à crise de 1929.
Já o Brasil não se livra de indevidas cobranças como a que foi feita recentemente pelo desprestigiado FMI, no relatório sobre as condições da estabilidade financeira global, divulgado ao final de sua assembleia anual, em Tóquio. O questionamento, que se referiu aos "riscos de insustentabilidade no processo brasileiro de expansão do crédito", mereceu uma resposta muito oportuna e competente do diretor de regulação do Banco Central, Luiz Awazu Pereira, divulgada na edição da última quarta-feira, dia 30.10, do jornal Valor.
"A expansão do crédito no Brasil ? disse ele - tem se dado num contexto muito diferente do observado em economias avançadas nos anos anteriores à crise de 2008. O grau de endividamento das famílias, firmas e do governo é muito mais baixo. A sustentabilidade do modelo de crescimento com aumento do consumo das famílias financiado via crédito tem que ser avaliada de maneira mais abrangente e dinâmica do que a simples observação pontual de índices de inadimplência ou de comprometimento de renda das famílias".
Depois de lembrar que o Brasil tem um sistema financeiro muito mais capitalizado, com bom nível de liquidez, bem provisionado e bem regulado, acrescentou Luiz Awazu Pereira que o crescimento do crédito como proporção do PIB é uma consequência esperada da estratégia macrofinanceira adotada pelo país. "Nos últimos anos o governo implementou políticas consistentes que resultaram em estabilidade macroeconômica e financeira, com crescimento, distribuição de renda, redução do desemprego e aumento dos empregos formais. Este conjunto de fatores levou à expansão significativa de uma nova classe média e a inclusão social de milhões de brasileiros. Ou seja - ele completou enviando um recado ao staff do FMI - estamos em presença de fatores estruturais que se sobrepõem a componentes cíclicos."
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC