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Eu vi, juro que vi!

Munir Zalaf
| Tempo de leitura: 2 min

Dia terminado. Deveres cumpridos. As calçadas e os asfaltos pareciam vibrar com tantos pés e pneus na impaciência dos transeuntes e dos motoristas. Numa esquina, este mortal a observar o vai e vem das criaturas e das máquinas. Cabeças a desfilar na busca ou na fuga do que ou de quem as esperavam. No aglomerado humano e carros no trânsito lento eu vi, juro que vi o lado de dentro das pessoas. A alegria e a angústia, a fé e a descrença, a verdade e a dúvida. A esperança e o desengano. Vi pessoas caminhando juntas, mas tão distantes. Vi a saudade enrugada na pele. A mulher grávida cheia de graças com os olhos tão tristes. O homem engravatado com aspecto de réu. Vi o pedinte com a mão espalmada por moedas humanas. No semáforo, vi crianças, jovens e adultos, pretensos malabaristas a equilibrar limões na caça do dinheiro pro pão ou pra droga de cada dia. Quem sabe? Na balburdia tristeza me assumiu. Assombrei-me diante da apatia dos caminhantes e dos palavrões dos choferes. Eu vi. Juro que vi! No amontoado de gente cada engasgada em si mesmo: "Os outros que se danem. Ninguém chora por mim, ninguém chora comigo". O lado sofrido eu vi nos perfis de quem friamente se finge não ver. Vi o homem caído e desabando na escada rolante da vida sem ninguém a estender-lhe a mão.

São tantas escadas no mundo... Liberdade de escolha. para o amanhã.

Na impotência da andorinha solitária me vi a voar sobre o infortúnio gerado pela ceguidade humana. Minhas asas pequenas não oferecem sequer sombras.

Debrucei-me lagrimando sobre o que vi. A pergunta a me doer a alma e o espírito. Por que é assim? A vida é diamante e o homem a tentar estilhaçá-la. Se todos vissem o que vi por dentro das pessoas, leriam respostas até para problemas pessoais. Ver e viver com coragem! Sem medos, orgulho e preconceitos. Caminhar perto de quem não se conhece é vivificar a solidariedade. Os olhos tão tristes da mulher grávida são estrelas com sorrisos humanos. Olhar o perfil que se finge não ver é gesto de afeição e de alento. Ajudar o homem a se livrar da gravata é permitir-lhe respirar. A moeda na mão do pedinte não é apenas o metal. É o pão.

E as pessoas perdidas nas escadas rolantes do mundo? Onde as mãos desdobradas a se lhes oferecer? "Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando o homem tem medo da luz." Platão 428/427-348/349 aC. Ah! Se todos vissem a luz que eu juro que vi...

O autor, Munir Zalaf, é escritor e palestrante voluntário, membro da Academia Bauruense de Letras

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