Tribuna do Leitor

Finitude


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Trata-se daquilo que é finito. Não importa se minerais, vegetais ou do mundo animal. Neste, há também espaço para os homens e mulheres que se estendem desde o Leste, nascimento com vida, até o poente, no Oeste crepuscular. O homem de Neandertal é o mais antigo e marcante exemplo de tal desaparecimento. O mesmo já ocorreu com os mamutes e tartarugas gigantes banidas da face da terra. No campo dos minerais, as grandes montanhas de mármore e as imensas rochas de granito sucumbem com o passar dos tempos ou sob o impacto das máquinas do progresso e dos explosivos, ficando reduzidas em pedras miúdas. Casas e palácios de Pompéia, Herculano e Stabia foram devoradas por lava incandescente produzidas no ventre do Vesúvio e mortos todos os seus habitantes. Atlântida, na região das Bermudas, acredita-se ter existido e submergido nas águas do Oceano Atlântico. No reino vegetal, as grandes florestas são cortadas ou arrancadas e desaparecendo, sua seiva torna a terra improdutiva por sua aridez. Também as folhas secas caindo sob o vento forte deixam desnudos os galhos das árvores.

Nada escapa de uma sempre renovada destruição para posterior renascimento. O homem, portador da inteligência superior frente aos outros animais, usa da mesma, consciente ou inconscientemente, para produzir o bem ou o mal. Filosofando sob o tema, ele reconheceu estar vivendo mais da metade do desconhecido tempo... Reconheceu o efêmero da vida, e disso não reclamava, ao contrário, era agradecido pela moratória concedida pelo Senhor do Universo. Ele deseja apenas viver perto das pessoas e das tantas coisas amealhadas, perto das lembranças e atento aos planos de como ocupar-se, de fazer o bem em todo esse eventual tempo restante. Outro dia, ligando uma antiga vitrola, colocou no equipamento de som uma canção de Orestes Barbosa (1893-1966) e Silvio Caldas (1908-1998) na voz de Silvio, que no seu texto dizia: "A minha vida era um palco iluminado e eu vivia vestido de dourado..." Ouviu e recordou-se: - sua vida fora também um palco iluminado!...

Vários palcos... Palcos com o nome de salas de aulas: nelas, dava-se a vida para inspirar alguém, alegrar, tornar felizes e qualificados alunos e alunas que buscavam ajuda para ampliar seus conhecimentos. A esses jovens procurava incutir ideias de crescimento intelectual e crescimento profissional; afirmava que a retidão da vida comportamental estava vinculada às leis do Universo e às leis dos homens e as aplicações dessas duas leis podiam ser examinadas junto ao travesseiro onde a voz, de um silencioso, mas rigoroso juiz, fazia-se ouvir, orientando ou corrigindo, mas permitindo a fuga dos fantasmas que afligem a alma e o intelecto. Ao findar mais um dia de trabalho, retornava ao lar, noite alta, sob a tênue luz da lua. A voz do vento nas alamedas despovoadas não permitia saber da sua origem e do seu destino; apenas sua brisa suave ou raivosa deixava no ar uma proposta de, assim como ele, caminhar, caminhar sem olhar para o mapa, simplesmente caminhar. Deixando a alameda e ao chegar à rua de terra batida, caminhava em busca do seu ideal, não mudar de rumo, não ser indeciso.

Voltando aos autores da canção, lembrou-se da "pomba-rola que voou...". E tal qual esse pássaro, pessoas muito queridas voaram para o infinito, deixando saudades infinitas. Em quais esferas dos espaços vocês habitam agora? Ele prometeu para si mesmo qualquer dia ir procurá-las. Por ora, em homenagem ao Dia de Finados, irá colocar na sala de visitas da casa grande, um harmonioso ramalhete de flores naturais como depositário das suas preces e das melhores lembranças.

Roque Roberto Pires de Carvalho - E-mail: Maryroque@uol.com.br

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